5.4.06

Peça: 24. Trecho de uma conversa ouvida entre porões sem esquecimento

- Diremos que se matou porque era um fraco.

- Ninguém acreditará.

- Diremos que se matou para não delatar seus comparsas.

- Ninguém acreditará.

- Diremos então que se matou para proteger a família.

- Mas ninguém acreditará.

- Então diremos que se matou e só. Depois confiemos na força das armas que nos escondem e do profundo murmúrio silencioso que sai destes porões.

- Ninguém acreditará, mas é isso o que faremos.

E, verdadeiramente, ninguém acreditou.

19 comentários:

Anne disse...

Que prazer passar por aqui e encontrar uma nova peça.
Suas letras sempre me levam a um mergulho interior e lá permaneço
por muito tempo.
BJOS.

marcos pardim disse...

tão cedo, e o Museu já aberto e com peça nova. eficiência nota 10! uma pergunta em mim recusa-se a aceitar o silêncio: alguém, verdadeiramente, acredita em alguma coisa? ... prazer imenso revê-lo. cum deus, velho. forte abraço!

célia musilli disse...

é..isso me remete a coisas de triste memória...que pena!! um beijo, e fico feliz em encontrar este museu sempre aberto ..ao contrário dos porões.

alice disse...

"alívio do coração

foi então que as árvores respiraram
sustentando a queda dos astros
haviam pernas a pisar os ramos
indiferentes à dança das trevas
haviam faróis a bailar
por entre as sombras rasas
e cabelos humanos
nos troncos da inveja
*
como explicar o desprezo do espaço?
entender o terrorismo das feras diante dos teus braços?
perceber a ignorância dos patos a debicar cristal?
compreender a estância de zelo que a água empata?
decifrar a linguagem cega dos teus olhos parvos?
definir nas plantas a génese do teu abraço?"

um grande beijinho, tinha saudades de vir aqui,

alice

Anônimo disse...

diremos: o indivíduo, em um acesso de loucura, suicidou-se com 18 tiros nas costas.

... e todo mundo acreditou nisso.

Nel Meirelles
http://www.falapoetica.blogger.com.br

Mc Mut disse...

Herzog.

Cara , não estão faltando o Ringo e o Harrison , mas sim o Ringo e o Macca. O Macca é muito chato pra ser melhor que o Harrison.

Um abraço!

Márcia disse...

eita! qita! esse me pegou em cheio, theo. em cheio.

beijo e saudade, daqui.

Claudinha disse...

Então que se diga que se matou por conveniência, para que nós outros pudéssemos sair ilesos desta vez.

Passando para visitar o museu centenário. Beijo.

Marco Santos disse...

E que a morte dele pese como chumbo. Espalhe-se como o negror da escuridão. Exploda em mil sons do silêncio.
Um grande abraço, Théo. Bom chegar aqui e encontrar coisa nova.

camilo disse...

Inspirado no(s) Vladimir(es)assassinados pela Ditadura brasileira, né?
Muito, muito bom. Aliás, sou obrigado a ser redundante nas visitas aqui...
abraço meu.
camilo

Edilson Pantoja disse...

Ninguém acreditou nem esqueceu.

Moacy disse...

Caro Theo: Há mortes e mortes, suicídios e suicídios, crepúsculos e crepúsculos. Os murmúrios silenciosos dizem mujito. Para todos nós. Um grande abraço.

_Maga disse...

Olá Theo... bom te ver de volta e respirar novamente a poeira desse museu...

Agora descemos ao porão. Muitas coisas interessantes podem ser achadas no porão. Exceto nos tempo de ditadura. Felizmente não acreditam... se acreditassem em tudo seria bem pior... (e a música da epoca bem menos interessante)...

Um grande abraço pra ti

a.s. disse...

boa noite ;)

um beijinho para si...

alice

Denis disse...

"Após um banho demorado
'Brown' na cabeça, incenso no ar,
um pouco de perfume françês
minha camisa de cinco reais, xadrex.
No som 'Cocteau', penso você.
Vejo na fresta da boca tua
uma eterna expressão de
"Qual é a tua meu irmão?"
e ainda que duvide
consigo lembrar do cheiro
da tua risada e da
embocadura de tua mudez." (set/97)

'Gio' in memorian

p.s. - invasão de espaço para tentar deletar dores & crenças...
Cheiro, mon ami...

Milton disse...

É poético, é terrível e é histórico. Não, ninguém acreditou que tantos se mataram.

Eu morava - imagine - na mesma quadra do DOPS, DOI-CODI ou coisa que o valha de Porto Alegre. Eu e minha família ouvíamos os gritos dos torturados e assassinados.

Escrevo isto para veres o que este diálogo me afeta.

Grande abraço.

Milton disse...

O que houve com meu comentário anterior? Bom, vou procurar reproduzi-lo.

Grande, enorme post, meu amigo. Bem escrito, poético, terrível e corrosivo como deve ser.

Passei minha infância morando na mesma quadra que uma sede do DOI-CODI... À noite, ouvíamos os torturados gritarem e serem assassinados. Digo isto para que saibas o quanto este tema me afeta.

Ninguém acreditou mesmo!

Grande abraço, meu amigo.

claudio boczon disse...

muito bom, sarcástico, denso e sucinto.

abração

Theo G. Alves disse...

meus bons amigos, é sempre bom ter suas leituras por aqui. uma honra e um prazer!

um grande abraço deste, que tem estado tão ausente nos últimos tempos...