11.11.09

Peça: 60. A Máquina de Avessar os Dias de Minha Avó

minha avó
inventou uma máquina
de avessar os dias:

antes de sua morte
pôs-se a engendrar
memórias
xxxxxxx - gente com asas
xxxxxxx - estranhas histórias do tempo
xxxxxxx - cães de nomes improváveis
xxxxxxx xxxxxxx xxxxxxx xxxxxxx e lindos

eliminou
de seus dias as
pessoas reais -
xxxxxxx que pode
xxxxxxx haver de mais tedioso
xxxxxxx que gente
xxxxxxx concreta
xxxxxxx ou tijolos e barro e pedras?

minha avó
xxxxxxx com sua máquina de
xxxxxxx avessar os dias
acordava
a casa no meio da noite
ironizava
a invenção do vento
esquecia
os nomes inúteis das filhas
recriava
o absurdo nãolinear do tempo.

era uma máquina
de costurar avessos -
retalhos
coloridos do tempo:

guardei-a para mim
xxxxxxx - minha avó
xxxxxxx e sua máquina de aventuras -
para usá-la
quando for
meu tempo.

_______________________________________________
Em sinal de luto, as portas e cortinas deste museu estão cerradas, assim como eu. Um dia voltaremos.

23.10.09

Peça: 59. O Avesso da Memória

mas
não recordar o nome deste animal
que conheço?

xxxxxxxx<< a dureza de sua carne
xxxxxxxx<< a hirteza de seu pelo

mas
qual é o nome deste
animal
que conheço?

xxxxxxxx<< a ferrugem de sua mandíbula
xxxxxxxx<< a aspereza de sua ossatura

tendão
por
tendão
que devora

xxxxxxxx<< a lentidão de seu passo
xxxxxxxx<< a angústia de sua fome

sua
vítima dos intestinos
para fora:
um câncer

xxxxxxxx<< a robustez de suas patas
xxxxxxxx<< a escuridão de seus destinos

mas
não recordar o nome deste
animal
que fui?

12.10.09

Peça: 58: A Anatomia do Espelho

fenece
a musculatura de minhas
sensações

enverga
o esqueleto de minhas
esperanças

o corpo
servil de que sou feito
degenera
diante do espelho

a máscara
tênue da face imemorial
esmaece
frente à casa miúda

xxxxxxxhomem
xxxxxxxpersona
xxxxxxxmemória

xxxxxxxquem,
pergunta
xxxxxxxa voz

xxxxxxxquem?

21.9.09

Peça: 57. O Avesso dos Dias

de que matérias
se constrói um dia?

quanto de
aço vidro concreto madeira
é necessário para
erguer
as paredes sólidas
de um dia?
xxxxx- 24 horas
xxxxx que descabem nos dedos.

não sei.

quero antes
a matéria negra de seu
avesso
as iluminuras de seu
avesso
xxxxx - a palavra nenúfares
xxxxx - as chuvas insólitas de janeiro
xxxxx - a ausência dos carros na madrugada
xxxxx - os céus isentos de aviões e impostos
xxxxx - a lama
xxxxx - o cadáver já frio dos relógios

de que matérias
se constrói um dia -
um mísero número
no calendário silencioso?

não sei:
só dos dias o
avesso
me comove.

5.9.09

Entrevista

Esta é uma entrevista que respondi para o site do Franklin Jorge (que tem link aqui ao lado). Ela nunca foi publicada lá, mas para não alimentar uma ausência ainda maior aqui no museu, resolvi mostrá-la.



NOME Theo G. Alves
DADOS BIOGRÁFICOS escritor, professor, revisor, redator e inventor de coisas inúteis

QUESTIONÁRIO

Quando nasceu?
Em um dia de dezembro, 14 para ser mais preciso, em 1980

Onde?
Nasci em Natal


Como se chamam seus pais?
Só tenho mãe. Mães, aliás: Socorro, Guilhermina, Eurides e Elza

De onde são?
Gente de Currais Novos, da Mina Brejuí e Sítio Jurupaiti

O que você herdou do seu pai?
Inicialmente certo rancor, depois disso uma vontade tranqüila de não o encontrar, de não ser encontrado

E de sua mãe?
Muito. Especialmente de minha avó, de quem tenho o humor e a ironia. Muitos valores morais que tento honrar, nem sempre com sucesso, também me foram entregues por elas.

Dê-me fatos para esclarecimento de heranças.
O esquecimento é minha melhor qualidade. Passei anos sem falar com um amigo de escola e um dia ele me pediu desculpas pelo que me tinha feito e eu pude perdoá-lo verdadeiramente, pois já não me lembrava do que ele fizera, ou mesmo se me tinha feito alguma coisa.

Quem é você?
Eu sou ninguém na maior parte do tempo. Mas às vezes também sou outras coisas. Coisas de fato. Uma vez acreditei ser Dom Quixote, mas nunca Don Alonso Quijano.

Mais fatos.
Me agrada faltar a solenidades, me agrada quando alguém finge lembrar quem sou, quando esquecem meu nome. E tenho certo prazer em não constranger as pessoas publicamente quanto a isso.

E sua infância?
Minha lembrança mais viva de infância é minha avó me levando para brincar na areia do Rio Seridó. Também me lembro de como ela me ensinou a dizer a palavra “tigre”

Como brincava?
Só. Gostava de ter os amigos por perto apenas por pouco tempo, depois levava os carrinhos para longe, alegava que meus personagens iam viajar. Às vezes eu voltava, noutras eu me esquecia.

Quando deixou sua terra?
Nunca tive um lugar para um dia poder deixá-lo

Que coisas tem feito?
Umas coisas inúteis: literatura, por exemplo. Trabalho feito um escravo, ganho como um escravo. Tenho sido feliz. Vejo filmes. Ouço menos música do que gostaria. Quase não tenho lido, o que muito me maltrata. Mas tenho, sobretudo, tentado ser uma pessoa melhor por mim, minha esposa e minha filha.

20.8.09

Peça: 56. Uma Memória do Futuro Antigo

mateus, 9:29.

– então ele tocou-lhes nos olhos, dizendo: seja-vos feito segundo vossa fé.


ao fim da tarde, displicência de sol-posto, minha avó olhava o tempo e pregava:

“relampejando...”

lacônica, não era a mim que falava, mas a si mesma. continuava:

“bonito. daqui uns dias, vai chover...”

e eu pensava na beleza de um dia de chuva, na beleza maior de um dia de chuva. eu acreditava.depois de uns dias, às vezes dois ou três, outras vezes duzentos ou trezentos, chovia. sob o sorriso de minha avó, lacônica, dizendo:

“eu sabia...”

minha fé nunca precisou de mais que isso.

13.8.09

Peça: 55. De Um LIvro À Estante


Com certa tristeza devolvo à estante um livro do José Gomes Ferreira, cuja poesia humana e viril faz conforto a quem sou, a quem creio ser.

Com certa tristeza devolvo à estante o livro do Zé Gomes, a quem reencontrarei (o livro, por óbvio, não o Zé) sempre de passagem e brevemente, como quem reencontra um amigo de longo tempo em uma esquina currais-novense e que se não pode demorar porque a velocidade do dia não lhe permite viver decentemente.

E como a este amigo reencontrado, direi distraidamente: não percebera o quanto senti saudades suas. E voltarei a andar, pelas ruas ou pelas estantes-livrarias-bibliotecas, apressadamente, mas com o coração cheio e reanimado.
_____________________________
E se não é a cara do Zé Gomes aí na foto!

5.8.09

Peça: 54. Duas Estórias

pacto

- ofereço minha alma a ti, senhor das moscas, pai de todo o mal, em troca de toda fortuna que um homem pode ter.

- infelizmente sua proposta não foi aceita. nesses tempos de crise, meu caro, temos de ser muito seletivos com nossos novos negócios.



heideggeriano


- para o Thiago, depois de uma boa conversa sobre criação e silêncio


Angustiado, empunhou o telefone. Ela atendeu. Ele não disse nada. O telefone mudo, assim como seu coração.
___________________________________
Essas estorietas foram publicadas no Pequenitudes e agora são parte de minha quarta-feira adoentada e modorrenta.
O quadro é "Agonia", do Schiele

30.7.09

Peça: 53. O insone

A caneca quase transbordava de um café frio e amargo. Não dormiria outra vez, como já não dormia há anos: sem sherazades, sem grandes aventuras. Insone, reconstruindo a memória de seus dias, nada mais. E assim seria, será. Até sua última noite, que talvez não chegue jamais.

28.7.09

Blog de Ouro


Recebi de Miss Eme, do Espartilho de Eme, a honraria de ter o Museu como Blog de Ouro.


E obedecendo as regras da premiação, lá vai:

1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;

2. Poste o link do blog de quem te indicou;

3. Indique 4 blogs de sua preferência;

4. Avise seus indicados;

5. Publique as regras;

6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.


Os meus indicados são: