26.12.07

Peça: 41. Uma História de Natal

O menino estava morto. As mãozinhas suaves crispadas, os dedos macios duros como madeira. Não restava dúvida de que o menino estava morto. A cidade o ignorava e não havia estrelas sobre o céu feito todo de chumbo acinzentado na noite alta. Sem reis, sem presentes. Os gatos e cães de rua, enternecidos, o encontravam e o saudavam em silêncio e sem demoras. Não houve anunciação. E mesmo Herodes não havia. Havia apenas o menino morto, sem pai ou mãe, sem concepções divinas. Havia apenas o menino morto num beco asqueroso e, ao longe, os sinos de natal.

9.12.07

uma nota

Dia destes recebi um e-mail da Secretaria de Cultura do Paraná. Fiquei contente com a informação de que um conto meu, chamado Quando Chegou o Morto, fora agraciado com uma menção honrosa no Concurso de Contos Newton Sampaio.

Sei que coruja é quem gaba o próprio toco, mas essas coisas deixam a gente contente e eu queria compartilhar a alegria com os bons companheiros deste museu.

Publico aqui a lista com os vencedores e menções:

Primeiro lugar:
Autor: VERA IDELY AGUIAR CABRAL (SP)
Conto: ARENA

Segundo lugar:
Autor: PEDRO MALARD MONTEIRO (MG)
Conto: ANTI MAGALHÃES

Terceiro lugar:
Autor: JOÃO PAULO VAZ
Conto: O MAR E O VELHO (RJ)

Menção honrosa (sem ordem de classificação):

TÉRCIA MONTENEGRO (CE)

Conto: ASA NORTE, CAMINHO DO CÉU

Autor: WHISNER FRAGA (SP)

Conto: TRAVESSIA

Autor: LEONARDO MOTTA TAVARES (DF)

Conto: BILLIE

Autor: JOAILCE MARIA MONTE DE AZEVEDO WAISMAN (DF)

Conto: O REGRESSO

Autor: THEO G. ALVES (RN)

Conto: QUANDO CHEGOU O MORTO

Autor: PEDRO MALARD MONTEIRO (MG)

Conto: ATRASO DE VIDA

Autor: MARLENE CORREIA FERRAZ (PORTUGAL)

Conto: A SIMPLEZA DAS COISAS

23.11.07

Peça: 39. Outra Página Avulsa de Um Caderno de Viagem

Dia sem número terceiro

Meu olhar por estas terras já não mais parece o de um viajante breve, cujos olhos se aplicam momentaneamente sobre tudo o que lhe é passageiro, efêmero.

Creio minha bandeira fincada sobre estas serras e imagino suas cores e estrelas desbotadas e seu corpo tem a forma de uma minha camisa rota e suja de sangue, redesenhada pelos anos e amargores dos dias: minha bandeira morta.

Verdade é que pensei em deixar esta cidade, mas desconhecia novas rotas de partida e havia esquecido a rota que me trouxera até aqui. Este caderno há de um dia apontar-me os caminhos por onde possa deixá-la, eu sei.

17.11.07

Peça: 38. Para Se Inventar Um Homem Só

lentamente
abandona tuas roupas
deita-as
peça
por
peça
sobre o chão

o piso de gelo
sob
teus pés:
como os dedos finos
da morte gelada
lhe tocam o ombro
lentamente

teu corpo
masculino
e
imperfeito
diante do espelho
é silêncio:
tua voz esquecida

tua musculatura
de pedra
frágil
arqueja ante os
relógios:
tua casa
em ruínas

abandonados
tuas roupas
teu corpo
tua voz
ergue a casa
de teu calar
de tua ausência

ninguém dirá:
não morras -
hoje não.

4.11.07

Peça: 37. Outra Paisagem Currais-novense

Aproveito a abertura da exposição do artista plástico currais-novense Adriano Santori, cujo título é Imagens de Currais Novos, para trazer esta fotografia minha sobre a cidade:

o peso
das toneladas infinitas de scheelita
sob as ruas

o peso mineral
das toneladas mais infinitas ainda
sobre a cidade

pelos currais
arrastamos suas pedras:
sobre/sobra a cidade natimorta

12.10.07

Uma Corrente

O Marco, do Antigas Ternuras, me indicou para uma corrente interessante:

Transcrever a quinta frase da página 161 de um livro que tenha lido recentemente. Pois bem: o livro é "Tudo se Ilumina", do Jonathan Safran Foer.

"Eu estava enganando o herói, e tenho certeza que ele desejava ser enganado. Portanto traçamos mais círculos nas estradas poeirentas."

Repasso a corrente para:
Wescley J. Gama, da Taberna
Milton Ribeiro, que sempre lê ótimos livros
Miss Eme, do Espartilho de Eme
Glorinha, do Receptaculum
Claudinha, do Transmimentos de Pensações

20.9.07

Exposição: Branford Marsalis: Romare Bearden Revealed


Sempre preferi o trompete ao saxofone, é fato. Esse foi um dos motivos principais para ter chegado primeiro à música de Wynton Marsalis e só depois a de seu irmão Branford. Gosto particularmente da música deste primeiro, apesar de algumas de suas ásperas opiniões a respeito do presente e do futuro do jazz, no entanto nestes últimos meses tenho variado quanto a certeza de quem é meu irmão Marsalis preferido.

Mas é sobre a música de Branford que me detenho para a leitura de hoje.

O disco da vez é Romare Bearden Revealed, de 2003. Neste álbum Branford aparece bem amparado por seu ótimo quarteto, formado pelo ótimo Joey Calderazzo, no piano; por Eric Revis, competentíssimo, no baixo; e por Jeff “Tain” Watts, que tanto me agrada, na bateria; Branford Marsalis aparece nos saxofones, obviamente.

Esse ótimo quarteto, capaz de fazer belos discos por si só – é o caso da bela homenagem a John Coltrane, no dvd/cd A Love Supreme – recebe ainda o reforço de Harry Connick Jr., no piano; Reginald Veal, no baixo e Doug Wamble, guitarra; além dos demais Marsalis: o pai, Ellis, no piano; os irmãos Delfeayo (trombone), Jason (bateria) e Wynton (trompete).

O mote de Romare Bearden Revealed não pode ser deixado em segundo plano: como diz o próprio título, a música deste disco é o resultado de um olhar profundo de Branford e seus músicos sobre a obra do pintor americano Romare Bearden.

Lançado em parceria com a fundação The Art Of Romare Bearden, o álbum não paira apenas sobre a superfície da obra de Bearden, ou mesmo do próprio Branford: o mergulho se aprofunda na ótima escolha de repertório, que traz de Duke Ellington (I’m Slappin’ 7th Avenue) a Jelly Roll Morton (Jungle Blues), visitando Wynton (J Mood) e apresentando uma composição de Branford (B’s Paris Blues) e outra de Jeff “Tain” Watts (Laughing and Talking). Uma das curiosidades do disco é o tema Seabreeze, quase uma valsa, composta por Bearden em parceria com Freddy Norman e Larry Douglas. Seabreeze não é a composição mais bonita do disco, mas a sonoridade adoçada de Branford faz dessa faixa um belo convite ao relaxamento.

Talvez a grande música deste álbum seja a bela Jungle Blues, de Jelly Roll Morton, que traz de volta o bom blues/jazz do início do século XX. A execução de Branford nesta faixa encontra um encaixe perfeito na sempre primorosa e soberba performance de Wynton, responsável pela recriação deste tema. Nesta execução de Jungle Blues merece ainda um belíssimo destaque a participação precisa e criativa de Watts na bateria.

O casamento entre a execução de cada tema e a obra de Romare Bearden não se perde em momento algum do disco e seria possível dizer que tanto a obra de Bearden quanto a realização deste disco caminharam sempre juntas.

É prova do talento de um (Bearden) e de outro (Branford), que tem gosto especial por projetos ousados. Sobre Bearden, o release do disco informa:

The affinity that Romare Bearden (1911-1988), one of the most vibrant and visionary American painters of the 20 th century, felt for jazz music has been well documented. A native of North Carolina whose family relocated to Harlem when he was three years old, Bearden was a true child of the Harlem Renaissance whose circle of friends included many of the community’s leading musicians and authors as well as painters. Frequent visits to relatives who remained in the South also sustained Bearden’s fascination with the rural as well as the urban strains in African-American culture. By the 1940s, jazz musicians and jazz scenes had begun to appear in his work; and as time passed he began to employ titles of favorite jazz performances for his paintings and collages. In his later years, Bearden created specific works for albums by Charlie Parker, Donald Byrd and Wynton Marsalis; and, since his death, musicians such as Sonny Fortune and Robin Eubanks have also employed images created by Bearden for their recording projects.

Verdade é que estes dois artistas, Romare Bearden e Branford Marsalis, merecem ser vistos de maneira mais aproximada e atenciosa. As pinturas de Bearden fotografam um mundo peculiar que o tempo tenta esconder; a música de Branford revive e reinventa um novo organismo sonoro que o tempo ainda não aprendeu a diminuir.

Está feito o convite.

28.8.07

Peça: 36. ...

Esta breve narrativa foi escrita alguns anos atrás numa oficina de contos da qual participei com alguns amigos. O exercício nos obrigava a escrever pequenos trechos narrativos que fugissem um tanto de nossas tendências naturais. Aí vai o resultado que muito me divertiu à época.

“Não vou botar minha boca aí”, eu disse para ele. E disse assim mesmo, na lata, na cara dele. Ele ficou sem ação, tentou me segurar pelo braço, mas me livrei. Ele insistia, dizia que ia ser bom, que eu levava jeito e que isso ia fazer de mim uma menina mais interessante. “‘Menina’ um caralho”, eu gritei. Gritei e saí correndo, sem olhar para trás. Corri. Corri muito. Pensei que ele fosse me alcançar, que fosse me empurrar para eu cair de cara no chão. Eu chorei até. Não sou de chorar, mas eu chorei. Nessa hora eu chorei. Ficava me lembrando daquela coisa imunda e dele me pedindo, mandando, botar a boca, assoprar, com força. Imundo. Eu corria mais ainda. Tinha a sensação de que ele ia me alcançar. Quando cheguei perto da praça fiquei mais tranqüila. Olhei para trás e ele não estava. Não tinha a certeza de que ele tivesse me seguido, mas eu o sentia perto de mim, correndo. Sentada no banco da praça, sobre o sovaco branco do cristo, me lembrei daquele negócio. Eu não ia botar a boca naquilo jamais, nem morta. Decidi naquela hora, ali mesmo, na praça, que eu só tocaria piano: isso de saxofone é coisa para quem não tem higiene.

30.7.07

Em silêncio


O silêncio sempre me apeteceu, sempre me foi comum. Mas apenas em Bergman eu pude compreendê-lo melhor.

Hoje Ingmar Bergman está morto.

Fico com as palavras do Milton Ribeiro neste momento.

10.7.07

Corrente Literária

É com atraso que eu chego, mas chego. E chego para repassar a corrente em que fui chamado pelo amigo borogodoso Moacy Cirne.

A tarefa não é das mais simples: indicar 5 livros que devem ser lidos por 5 blogueiros, e que devem renovar a corrente ao enviá-la para outros 5 escolhidos. O espaço/escasso de tempo é de uma semana.

Minhas indicações são:

1) Uma Vida Iluminada, de Jonathan Safran Foer

2) Afetos Tombados, de Camilo Rosa

3) Ó Serdespanto, de Vicente Franz Cecim

4) Ciência com Consciência, de Edgar Morin

5) História Social do Jazz, de Eric Hobsbawn

Repasso a tarefa para os blogueiros:

Miss Eme, do Espartilho de Eme http://espartilhodeeme.blogspot.com

Wescley J. Gama, da Taberna http://tabernaculo.blogspot.com

Marcos Pardim, do Caraminholas http://mslppardim.blog.uol.com.br

Célia Musilli, do Sensível Desafio http://sensivelldesafio.zip.net

Marco, do Antigas Ternuras http://antigasternuras.blogspot.com

12.6.07

Peça: 35. Uma Página do Futuro Manual Prático de Coisas Inúteis

instruções para se inventar um besouro

uma cor improvável
é a matéria primeira da carapaça
de pedra/vime

convém dar ao besouro
costas titânicas
e um ventre cremoso

um alicate
não o resolve
menos ainda o reinventa

que voe
mas sem exageros -
o infinto é para os graúdos

convém dotá-lo
de um desejo pelo chão
se é de escombros feito o tempo

não se deve dar ao besouro
memória: que os erros de deus
só se cometem uma vez.

20.4.07


Let’s Play It Loud, Good Ol’ Charlie Bown!

Uma Audição Particular de Joe Cool’s Blues


Eu sempre fui um perdedor. Um perdedor convicto. Lento, excessivamente tímido, quase xucro, frágil, ausente, desde os tempos de eu menino. E estive sempre acompanhado de um olhar delicado sobre minhas derrotas: isso me permitiu ser alegre, feliz até, mesmo diante dos resultados mais pífios.

Assim, como poderia eu não reconhecer meu outro, meu alter ego, meu duplo, no menino Charlie Brown, criado por Charles M. Schulz nas famosas tirinhas dos Peanuts?

À época de minha infância, Charlie acompanhava minhas estranhas descobertas de menino esquisito – minha garotinha ruiva e o fracasso amoroso, meus amigos sempre melhores em tudo – com a mesma disposição e interesse que eu aos dele. Assim vivemos metade da década de 80 e começo da seguinte um em companhia do outro.

Hoje, penso que lá estiveram minhas primeiras lições de interesse musical. A imagem do menino Charlie Brown rodopiando um contrabaixo é a caricatura de minhas esperanças de felicidade. Eu poderia também rodopiar ao som do que ainda desconhecia enquanto jazz, mas que já sabia ser também a música para a alegria dos que sofrem. Compreendo cada vez melhor que o jazz encontre na dor, na melancolia, a matéria de seu contentamento.

Era a música dos Peanuts que regia minha infância. Mas nem o piano de Schroeder e seu amor por Beethoven conseguiram me atingir como os ragtimes em direção ao campo de beisebol. Gostava da música engendrada na infância daqueles meninos em que eu me repetia.

Anos mais tarde, talvez mais de uma década, reencontro o menino Charlie, as composições de Vince Guaraldi, as execuções fascinantes de Wynton e Ellis Marsalis e suas bandas, e a mim mesmo num único disco: Joe Cool’s Blues (1995), gravado por Wynton e Ellis, com temas escritos por Guaraldi para as trilhas sonoras dos Peanuts.

Sou um ouvinte comum de jazz. Alguém que ainda está começando a conhecer nomes e peças e por isso o nome de Wynton (o dele em especial, mais que o de Ellis, e agora o de Branford, devido à minha predileção por trompetes) ainda era mais comum em minha lista de “Músicos a Serem Pesquisados” que em minha lista de favoritos. Descobrir então sua execução soberba e esse disco especialmente fizeram valer as emoções de algumas vidas mais. Ouvi-lo é reviver um pouco de minha infância tragicômica, do que fui e ainda sou, do que perdi de mim.

Um dia, que provavelmente jamais virá, hei de comentar a música de Wynton Marsalis, sua técnica perfeita e a volta às raízes do jazz tradicional, mesmo o que lhe faz controverso, mais detidamente. Talvez o faça quando um dia tenha competência para tanto, se o tiver. Mas hoje escrevo sobre meu tempo ao som do septeto de Wynton e do trio de seu pai Ellis, e à imagem do good ol’ Charlie rodopiando aquele contrabaixo para tocar o tema Linus & Lucy.


Joe Cool’s Blues (1995)

Wynton & Ellis Marsalis

Composições de Vince Guaraldi

Músicas:

1. Linus And Lucy - WYNTON MARSALIS SEPTET

2. Buggy Ride - WYNTON MARSALIS SEPTET

3. Peppermint Patty - Ellis Marsalis Trio

4. On Peanuts Playground - WYNTON MARSALIS SEPTET

5. Oh, Good Grief! - Ellis Marsalis Trio

6. Wright Brothers Rag - WYNTON MARSALIS SEPTET

7. Charlie Brown - Ellis Marsalis Trio

8. Little Red-Haired Girl - WYNTON MARSALIS SEPTET

9. Pebble Beach - Ellis Marsalis Trio

10. Snoopy And Woodstock - WYNTON MARSALIS SEPTET

11. Little Birdie - Ellis Marsalis Trio

12. Why, Charlie Brown - WYNTON MARSALIS SEPTET

13. Joe Cool's Blues (Snoopy's Return) - WYNTON MARSALIS SEPTET

Wynton Marsalis Septet:

Wynton Marsalis (trumpet); Wessell Anderson (alto & soprano saxophones); Victor Gaines (tenor saxophone, clarinet); Wycliffe Gordon (trombone); Eric Reed (piano); Benjamin Wolfe (acoustic bass); Herlin Riley (drums).

Ellis Marsalis Trio:

Ellis Marsalis (piano); Reginald Veal (bass); Martin Butler (drums).

Como curiosidade, o que está escrito na página oficial dos Peanuts a respeito de Charlie Brown:

“Charlie Brown wins your heart with his losing ways. It always rains on his parade, his baseball game, and his life. He's an inveterate worrier who frets over trifles (but who's to say they're trifles?). Although he is concerned with the true meaning of life, his friends sometimes call him "blockhead." Other than his knack for putting himself down, there are few sharp edges of wit in his repertoire; usually he's the butt of the joke, not the joker. He can be spotted a mile away in his sweater with the zig zag trim, head down, hands in pocket, headed for Lucy's psychiatric booth. He is considerate, friendly and polite and we love him knowing that he'll never win a baseball game or the heart of the little red-haired girl, kick the football Lucy is holding or fly a kite successfully. His friends call him "wishy-washy," but his spirit will never give up in his quest to triumph over adversity.”


Eu também torço para que meus amigos me amem, também sabendo que nunca empinarei uma pipa com sucesso.

O disco: http://www.amazon.com/Cools-Blues-Wynton-Marsalis-Ellis/dp/B000002AYO

Peanuts: http://www.snoopy.com/comics/peanuts/index.html

31.3.07

Peça: 34. Um Poema de (des)Amor

As Faces Mortas


- Há no primeiro encontro, ó debilidades,
o poder da marca do punhal!

Francisco Ivan da Silva

Uma face
morta
em cada amor
despedaçado.


Um traço de espelho
falso
em cada amor desarranjado,
em desalinho:
uma face morta em cada amor
despedaçado.

A cada verso novo
nova angústia:
uma a cada novo amor
despedaçado.


(In Loa de Pedra)

4.3.07

Peça: 33. Notas Avulsas de Um Caderno de Viagens

Dia quarto

A vida acontece em grandes torrões de riso e sal nesta cidade. Hoje pela manhã, perto de uma das ruas principais, um monturo de crianças arrastava um cão morto por uma corda. Gritavam como pequenos selvagens. Havia nelas a violência explosiva de seus pais e dos homens que habitam as esquinas escaldantes destas ruas. Quase devoravam vivo o pobre cão morto.

As mulheres avistavam de longe seus filhos multiplicados no mundo. Uma delas sorria quase. Era por certo a mãe do menino que empunhava a corda no pescoço do cão. Era um troféu, eu sei: era um troféu.


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Dia décimo nono

Aqui o sol se põe ao avesso, entreva as mãos antigas de meninos ainda muito jovens. A foice que corta a cana mal se equilibra em suas mãos destroçadas, entrevadas por um sol mal posto.

Mas a noite há de durar, eu sei.

Cadernos de Viagem

Inicio agora neste museu adornado de pó uma série de anotações avulsas de um caderno de viagens.

São anotações desencontradas de um viajante acidental que, provavelmente, jamais saiu das paragens que descreve. Notas de uma viagem vaga e estéril, como estéreis têm sido meus dias, meus anos, minha ausência.

Peço desculpas pela viagem que ofereço.

3.3.07

Um Convite

O Celso me convidou para escrever sobre discos no Deadmen and Lollypops. Evidentemente aceitei, honrado.

Hoje faço minha "estréia" por lá com Zuma, do Neil Young. Inclusive com link para download do disco.

Aqui está o Deadmen and Lollypops

22.2.07

Peça: 32. Uma Carta Escrita ao Longo dos Anos

Currais Novos, janeiro de ...

Tudo está como sempre. Sabes bem que as coisas por aqui nunca mudam e são sempre as mesmas e é sempre o mesmo tempo, prenúncio e ataúde de um heráclito fracassado. Sabes bem que aqui o tempo não existe: ou nós não somos de fato: nem as coisas reais existem de verdade nestas terras. Nunca se pode compreender por inteiro. Fato é que tudo está igual, afora as coisas sempre diferentes.
Esperamos a chuva. Há boas promessas para fevereiro e os donos dos dias já falam em adiantar algumas semanas para a chegada de março, assim garantem que chova certamente no dia da ciência de São José. Sabes bem que por aqui o tempo é sempre distinto.
Nossa mãe fala cada vez menos. E escuta menos cada vez mais, está sempre a confundir nossos nomes e esquecer-se de tudo. Ainda insiste na máquina de costura que, se não costura nada, embala meu sono no chilrear antigo de nossas roupas ainda mais antigas. Em breve nossa mãe morrerá e tudo continuará igual, afora as coisas sempre diferentes.
Nosso pai, sabes bem, foi embora. E isso já é oferecer notícias demais.
Os meninos. Os meninos estão quase todos mortos. Ou quase mortos todos. Não mais de sede, como alguns estrangeiros desavisados possam ainda imaginar, mas de tédio e cansaço. O cansaço nos toma a todos invariavelmente, sobretudo a gente miúda como nós, sem vocação para as grandiosidades do tempo e da vida. Às vezes penso que não estar aqui seja mesmo o melhor lugar em que se possa ser. Sinto medo, eu confesso, confessamos, não do que nos espera, mas da ausência que nos toma. Temos nos distanciado tanto e de tudo que, de quando em vez, apenas ao não me ser é que me encontro. Confusas estas frases, no entanto, as mais sinceras. Confusas ainda mais: falo de nós, falamos de mim.
Tens notícias de Deus?
Por aqui já não aparece há tempos, sabes bem. Tudo está igual, afora as coisas sempre diferentes. Ainda esperamos, sebastianamente, por Ele, é verdade. Mas, também sebastianamente, temos a quase certeza de que já não virá. Deve andar ocupado com gente maior, que é sempre mais importante. Gente miúda como nós sobrevive bem à espera. Que mais poderíamos nós fazer que diferente fosse de esperar. Esperar até brotarem os prefixos e apodrecer-se o verbo.
Penso que, em breve, pouco restará do que temos sido todo este tempo. Descobrimos esta maneira profilática de nos exterminarmos limpa e lentamente. Não haverá sangue nas ruas, nem mesmo gente morta. O que morrerá são nossas particularidades, nossas pequenas diferenças. O que sempre fez de nós o que somos, agora não é nada, senão poeira de tempo e amarelo.
Do que te importarão essas coisas, pensamos. Talvez de nada. Talvez nem mesmo chegues a ler esta carta confusa em que falamos de mim, falo de nós. Talvez desdenhes estas terras, não sei. Mas aqui ainda mantemos o costume de dar notícias. Espero que tu já não tenhas mais o costume de não as receber.
Digo, dizemos, que em pouco não mais te escreverei, escreveremos. Não pela falta de respostas tuas, que isso jamais foi obstáculo, nem mesmo pela ausência nossa, mas porque nosso dia de se aproxima e, rezamos, não haja mais necessidade de enviar ou receber recados de onde estaremos.
Ainda que nossas casas estejam sempre abertas para ti, pedimos que não voltes. A distância há de tornar nossa imagem mais bonita.

Adeus.
Nós assinamos esta carta.

15.2.07

Feed

Para os bons amigos que visitam este museu quase sempre tão empoeirado, estou aderindo ao tal "feed", coisa que brutos como eu custam a entender.

O feed avisará aos amigos que utilizam esta ferramenta quando houver novas peças e velhas almas neste museu.

Oxalá isso funcione.

9.2.07

Peça: 31: Todo Sempre É Por Agora

Todo sempre é por agora. E a hora inevitável é sempre esta e esta e nunca outra e não a próxima. A hora inevitável, por ora, este caminho de tempo feito de estrelas e pó, de miudezas e esquecimento.

A boca semi-aberta pelo tempo ainda rebrilha como a chaga recém aberta a brotar sangue jovem e ainda viscoso. O tempo é este relógio morto à faca na calçada de casa às quatro horas da manhã. Já quase arborecia um sol de raízes secas e voláteis. As raízes em barro seco são para sempre efêmeras como a voz dos galos.

Todo sempre é por agora como foi infinito o dia de ontem, a hora vazia dos relógios moles de Dali e a mala ainda não feita de Álvaro de Campos: o cansaço do corpo finito no tempo infinito de agora.


_______________________________________
Aproveito para agradecer ao Milton Ribeiro por ter me enviado o famoso questionário do Proust e por ter publicado minhas simplórias respostas em seu espaço, que é dos melhores do universo dos blogues.

29.1.07

Peça: 30. Uma Primeira Lembrança

Hoje algumas de minhas primeiras lembranças me afligem e me alegram brevemente, como toda lembrança.

Relembro a imagem de Deus ao tocar meu ombro e dizer, quando adormecia o dia, "descansa, Adão, amanhã haverá o tempo".


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Mais uma nota de minhas desculpas inaceitáveis: tanta coisa tem me confundido, me acontecido, que tenho exercido muito poucamente a minha escrita ainda imatura. Quase nada tenho escrito de muito novo. Em verdade, estou a recuperar esboços destes últimos dois anos e que nunca foram utilizados. Por isso a escrita tão esgarçada e ainda me tem faltado competência para visitar os amigos sempre tão queridos. Continuo repetindo interiormente André Gide e dizendo "Se não puderes dizer 'tanto melhor', dize 'não faz mal'; há nisso grandes promessas de esperança".

16.1.07

Um Homem é Feito de Silêncios

Um homem é feito, sobretudo, de silêncios. É o silêncio a matéria que precede o barro, o silêncio da criação. E é desse silêncio que retomamos nossas forças, nossos impulsos.

Os primeiros esboços de um novo ano começam a ser traçados. Já se podem perceber algumas formas por trás destes primeiros dias: o esboço ainda é tímido, no entanto. Assim começam todos os anos: lentamente.

Esse começo lento é precedido por silêncio. O mesmo silêncio que precede o tempo e que a ele sucederá, provavelmente. O silêncio mesmo que havia antes do Nada e antes da ordem de se fazer a luz.

Desse silêncio sou feito. Cada um de nós e eu.

Este ano que já não é foi carregado de silêncios. Um calar profundo, de me fazer quase esquecer quem sou. O silêncio desse ano que já não é foi pesado, embora recompensador. Não consigo ainda recordar de todo meu nome e meu rosto diante do espelho: não os recordo exatamente ou já não são mais os mesmos. Pouco importa, aliás. Afinal, que importa o nome e a cara que temos? Não são nada de fato. O silêncio sim, o silêncio é.

Este ano que agora começa, lentamente eu disse, me traz algum som e o primeiro são estas linhas, enigmáticas talvez ao ponto de nada significarem senão para mim. Que seja, as primeiras palavras são quase sempre incompreensíveis. Só os silêncios são suficientemente claros e suficientemente eloqüentes.

As ruas sob o véu denso das madrugadas, a praça, a feira, as estátuas todas dormentes na madrugada: pode-se tocar com as mãos sujas no silêncio que as doma e é possível entender o que dizem, cada rua, cada beco, cada voz inaudível. É um convite: andem pela cidade nas madrugadas, sobretudo as raras madrugadas que sucedem as chuvas. São poucos os lugares em que se ouvirá melhor o silêncio das coisas. É nessas horas que só as coisas reais existem de fato.

De fato existe o silêncio.

O silêncio que principia estes primeiros sons. O silêncio que precede e sucede tudo, desde o sopro de Adão até o fim de todas as coisas, que precede e sucede o tempo, a música, a vida e o esquecimento. Que precede e sucede o riso, a angústia, o choro e a ventura. O silêncio que é.

Que tudo recomece. Que saibamos ouvir o que nos diz nosso silêncio criativo.
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Oito ou dez coisas para começar bem 2007

O livro Ó Serdespanto, do paraense Vicente Franz Cecim
A comédia sensível e despretensiosa A Vida Marinha com Steve Zissou
O profundo e belo filme Nossa Música, de Jean-Luc Godard
Um disco de Noel Rosa
Uma visita ao tenebroso site de fantasias Celebration Complex (
www.celebrationcomplex.com.br)
Uma visita aos bons e velhos amigos
Qualquer poema do Manoel de Barros
Ter um cachorro
Encurtar a memória para que a vida não pese demais
Desligar os telefones
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Este ano, para garantir algumas publicações aqui no museu, vou publicar as colunas que escrevo para o Jornal do Seridó, jornal aqui de Currais Novos. Essa é a primeira coluna do ano.

3.1.07

Notre Musique



Para nos redimir de nossos próprios erros, devemos começar pelo olhar sublimado sobre eles.

2007 para mim começa com um filme de 2004: "Nossa Música", do genial Jean-Luc Godard, com um olhar cinematográfico além da beleza sobre nossos tempos de guerra. Assim é o cinema, como diz o diretor a interpretar-se no filme: o cinema é a luz a iluminar nossa noite.

Comecemos o ano com nosso olhar atento sobre nós, para a beleza.

Um grandfe abraço e o desejo de felicidades aos amigos que sempre passam por aqui, por estas peças de pó.

Alvíssaras!