5.3.06

Peça: 23. Um Silêncio Germinado

Vejo nascer um silêncio de dentro para dentro, mais dentro ainda; profundamente. E a boca vai devorando por fora o rosto que a sustenta, alimentando-se do corpo, não para o corpo. Saciada, devora a boca a boca; engole-se. Devora a si mesmo e põe-se miúda, miúda como um universo retraído que não se expandisse nunca. A boca condenada ao silêncio.

Sem voz alguma, percebo que a distância maior para dentro do mundo que alcanço é a longitude de meu braço estendido através das grades por onde assisto à vida. Desejo tocar o mundo mais adiante e não o alcanço: minha alegria e minha discórdia. Desejo o mundo que não tenho e a alegria do universo que é meu, estas grades que me cabem, afunda minha carne dolorida na angústia de exigir o inalcançável.

Nascido o silêncio em mim, percebo que a vida não aconteceu ontem à noite, que não acontece agora e que amanhã já não será. A vida, o mundo, são todo o tempo todo o tempo: sempre. Mas a boca devorada já não dirá uma palavra que possa ser decifrada.


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Algumas explicações: o tempo tem sido um tanto cruel comigo nestas últimas semanas, culpa destes dias muito pequenos, cheios de horas muito miúdas. Por isso tenho visitado tão pouco os visitantes tão estimados deste museu, ou até mesmo respondido particularmente a cada comentário, como é hábito por aqui. Tenho esperanças de que o tempo volte a rodar da maneira certa por aqui. Quanto aos comentários, me esforçarei mais para poder respondê-los prestamente.
Um abraço.
Theo
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a foto é de uma cena do belo Tão Longe, Tão Perto, do alemão Wim Wenders, sempre presente neste museu

56 comentários:

Claudinha disse...

Quantas vezes a boca nos trai e nos atropela com sua voz. Talvez melhor seja o silêncio gritante, ensurdecendo nossa alma e arrancando de nós palavras mudas de sabedoria. A sabedoria está intimamente ligada ao silêncio... Beijo e boa semana!

Theo G. Alves disse...

claudinha,
oxalá estes silênciso seculares sejam sinal de alguma sabedoria, minima que possa ser.

beijo e q a semana seja boa a todos nós!

_Maga disse...

Que lindo Theo. Mesmo trabalhando tanto tens tempo de escreves essas perolas de delicadesa? A boca. Essa parte do corpo mtas vezes esquecida em sua beleza poetica se revelou mais uma vez em poesia. Um abraço

Theo G. Alves disse...

Marcela,
muito obrigado. mesmo com todas as ocupações do mundo, tento vez em quando "roubar" pra mim um tempinho, que dedico principalmente à escrita e às nadezas...
Embora este não seja um texto recente, tem já algum bom tempo, continuo tentando escrever, devagar como sempre, com toda calma, com toda lentidão que a palavra me obriga.
Fico muito contente que tenhas gostado!
Um grande abraço!

Marilena disse...

Ah ... este silêncio grande e ensurdecedor, sempre presente n' alma ... Entendo tanto e tanto o que ele é e como ele vem e como ele se instala sempre maior e maior ... Lindo e vibrante texto . Beijos.

Francisco Sobreira disse...

Theo: Eu entendo essa falta de tempo, pela qual já passei quando era um trabalhador. Hoje, aposentado, tempo é que não me falta. E por falar nele, parabéns por mais um texto bem escrito, com o valor que você dá à palavra, trabalhando-a com denodo. Um abraço.

Mut disse...

Hello darkness my old friend... :D

Um abraço!

marcos pardim disse...

theo, meu caro, cada vez mais me convenço da inesgotável capacidade de comunicação do silêncio. em mãos e em palavras escritas por tão hábil artesão então... 1 abraço, velho.

Theo G. Alves disse...

Marilena,
muito obrigado... o silêncio é uma enorme boca às avessas... sou devorado por ela tanto e tanto, como bem entendeste...
beijo grande!

Theo G. Alves disse...

Sobreira,
você tem então um imenso tesouro: andamos absurdamente loucos em busca de tempo para nos livrarmos da armadilha terrível q nós mesmos construimos: diminuimos o dia até q nele nem nós cabessemos mais...
quanto a gentileza de seu comentário, agradeço de todo o coração.
Um grande abraço!

Theo G. Alves disse...

Mut, meu velho,
I've heard the sound of silence...
:)
Um grande abraço, missionário!
:)

Theo G. Alves disse...

marcos, meu caro, o silêncio é mesmo de uma rara prolixidade-condensamento: é ferramenta encantadora...
este artesão vive a acinzelar estas peças que só ganham forma definitiva nos bons olhos dos curadores que me vêm ler...
um grande abraço, meu velho!!

p.s: o meu corinthians :(
o seu santos :)

Ivã Coelho disse...

As grades do silêncio talvez sejam as mais vorazes. Essa prisão interna a que nos submetemos transfigura-nos. Exemplarmente. Belíssimo trecho, caro Theo. Congratulções.

Abçs

Theo G. Alves disse...

Ivã,
você tem toda razão. toda.
eu agradeço sua generosidade.
um grande abraço!!

Glória disse...

Theo, meu caro, há qto tempo né...sei que entende a minha ausência neste espaço, já que tem o mesmo problema em relação ao tempo, correria e + correria... Seus textos sempre maravilhosos, imbuídos da profundidade do silêncio, esse imenso silêncio no qual estamos imersos... Belíssimas fotos (desse post e do anterior, a CN antiga e sempre atual...), só uma dúvida: é ilusão de ótica ou a moça da foto possui uma asa? Será que estou vendo demais...Rsrsrsrs.
Beijo Grande!!!!!!!

Theo G. Alves disse...

Glória,
entendo teu sumiço e a falta de tempo sim... mas a gente sente sempre falta dos amigos... por isso não suma tanto tempo :)

também adoro essa foto da currais novos tão diferente que é sempre igual... quanto a moça da foto, não é ilusão: a danada tem mesmo asas: ela interpreta um anjo nesse filme: o anjo mais bonito que já vi, a bela Natsja Kinski...

grande beijo!!!

Nirton Venancio disse...

Theo,
cheguei aqui através do Outubro17, do Ivã! Parabéns pelos textos, pelos poemas, pelos escritos!
Convido-lhe a passar pelo meu pedaço, www.nirtonvenancio.blogspot.com
Um abraço!

Moacy disse...

Meu caro: Parabéns pela Menção Honrosa no Prêmio Otoniel Menezes, da Capitania das Artes. Você merece. Um grande abraço. Em tempo: Já iniciei a minha contagem regressiva para a volta ao Rio, não sei mais se ainda irei ao Seridó. O meu erro foi deixar para viajar no final das minhas férias natalenses; as coisas ficaram complicadas, até porque estou cuidando da edição do livro 'Almanaque do Balaio', a sair na próxima semana. Mas será que você viria a Natal no dia 14 de março, para receber a premiação da Funcarte? Outro abraço. Ah, sim, gostei do mais recente texto postado no seu Museu. Como Sobreira, também estou aposentado. Só que faço mil coisas e o meu tempo é relativo.

Celso disse...

silêncio e dor: inseparáveis.

venha a Natal para o dia 14, cara. Deve ser interessante.

Saudações

Theo G. Alves disse...

Nirton,
quando se chega através de bons caminhos a trajetória é sempre gloriosa...
agradeço sua vinda e certamente passarei por sua "casa"...

uim grande abraço e obrigado!

Theo G. Alves disse...

Moacy, meu bom amigo, muito obrigado.
acho uma pena que a sua vinda por estas bandas do Seridó esteja rareando. seria otimo encontra-lo por aqui.
não estava sabendo desse Almanaque do Balaio, mas agora tenho a certeza de que vem coisa muit boa por aí.

quanto à ida a Natal dia 14, tenha certeza: irei sim. estarei aí e certamente nos encontraremos para o café. será certamente muito bom!

sobre o tempo, moacy, sempre que penso nele relembro Borges... o tempo é mesmo uma incógnita...

um grande abraço e até o dia 14, in loco!!

Theo G. Alves disse...

Celso,
irei a Natal dia 14, sim... e espero poder encontra-lo por aí... pelo que vejo será um grande dia pra encontrar amigos.
Vamos nos ver por lá, sim!

Um grande abraço!

Milton disse...

Um texto triste e muito bonito. O efeito das repetições que usas é muito interessante, é um recurso expressivo e muito inteligente.

Pelo visto somos dois sem tempo e melancólicos. Se tiveres tempo, leia uma visão de carnaval muitíssimo moderada que escrevi em meu blog. Mas, por favor, tudo sem estresse ou cobranças. Vá quando puder, hoje ou no mês que vem. Há uma tela de De Chirico no popst, que te enviará para o endereço correto.

O tempo é tudo que nos falta.

(Digamos que um pouco de grana também...)

Gigantesco abraço.

Theo G. Alves disse...

Milton, meu bom amigo,
fico contente por reparares nestas miudezas do texto que, enfim, são todo o texto...

quanto ao tempo, Milton: às vezes a vida é tão complicada que temos dificuldades até em sermos simples, sermos cotidianos: andar devagar, ouvir boa música, não pensar em nada, esquecer-se de tudo, envelhecer uma tarde bebendo cerveja num boteco engraçado... o tempo: tudo está no tempo...

da crônica, Milton, já a tinha lido antes de vir até o Museu. continuo a ser habitué de sua casa (sem cobranças, mas por prazer), ainda que passe p lá mts vezes em silencio de contemplação...

Dizem que tempo é dinheiro, Milton, e esse é o problema. do que vivemos a reclamar? de falta de tempo, logo...

é cartesiano!

um imenso abraço, meu bom amigo, imenso abraço!

Madame disse...

Querido, também sofre destas quireras de tempo, vivo me desculpando com os amigos, eles até já acostumaram com os sumissos... De vez enquando sento-me ao lado da rotina e discuto nossa relação, quem sabe a você também não chegou a hora...rsrsr beijos de mim

Valéria disse...

estamos assim...tão longe tão perto sempre...
teu texto ecoa sabia?
um abraço

Manoela Afonso disse...

Oi Theo! Que sensação platônica-antropofágica me deu seu texto! Um grande abraço e que o seu tempo/segundo seja cada vez maior e prazeroso, beijos!

Theo G. Alves disse...

Madame,
a verdade é que eu e o tempo das horas já nao nos entendemos há muito.
Malmente nos falamos, menos ainda discutimos nossa relação: esta nao restiu ao tempo... :)
beijo!

Theo G. Alves disse...

valéria,
a ditância, como o tempo, é desses mistérios pouco solúveis...
espero que o eco dessas minhas palavras te cheguem confortavelmente...
obrigado!
beijo!

Theo G. Alves disse...

Manoela,
oxalá o tempo seja sempre agradável a todos nós: esta sera sim uma imensa dádiva...
beijo grande!!

célia musilli disse...

com tempo escasso ou não, seu texto é soberbo..um grande beijo, bom fim de semana e tente girar a seu favor a máquina do tempo..eu sei que é difícil,raramente consigo...,rss.

Glória disse...

Meu caro Theo, parabéns pela menção honrosa, estão fazendo justiça ao seu talento na burilação silenciosa e miúda dos vocábulos, que maravilha, estou mto feliz por vc.
Sabe que depois dos seus textos o que é melhor de ler e apreciar neste Museu são os comentários sempre inteligentes dos seus leitores e ainda melhor que isso, as respostas sábias e carinhosas que vc dá a cada um em especial.
Oh my God! (lembra-se), sou sua fã!!!!! Rsrsrsrs
PS: Tá lembrado da "mardita" solenidade de formatura dia 17/03.

Theo G. Alves disse...

célia,
com tempo escasso ou não, estou sempre contente em ler palavras tão gentis como as tuas...
oxalá o fim de semana seja ótimo para nós todos.

jurava saber que girava a máquina do tempo a meu favor até entender que eu a girava para o lado errado: ultimamente tem sido ela a me girar...
:)
um grande beijo!!

Theo G. Alves disse...

Glorinha,
muito obrigado! fiquei um bocado contente e surpreso com a premiação... confesso que nao esperava. estamos sempre a jogar nossas cartas sem saber a mão que teremos: assim as vitórias (como as derrotas) são sempre mais empolgantes.
estou principalmente contente porque vou poder encontrar muita gente boa no dia da premiacao... será fabuloso!
quanto aos comentários aqui no Museu, também eu fico contentíssimo com tudo o que leio, com o carinho e a atenção que os amigos me transmitem. assim só posso responder a eles com todo o carinho que recebeo...
ter um fã de alto gabarito como você é sempre uma ótima responsabilidade :)
grande beijão!!
p.s.: Gian tinha me informado da tal solenidade e eu tinha esqeucido... vou ver se de hoje a amanhã passo na facul pra descolar uma beca... eu e minhas desorientações :)

Marco Santos disse...

Somos prisioneiros do silêncio, somos reféns do tempo. Caro Théo, assim vamos tocando a vida. Sempre é bom te ler. Um forte abraço.

Theo G. Alves disse...

Marco, meu amigo,
é verdade q somos prisioneiros... ainda bem que há bons companheiros de cela por aqui :)
um grande abraço e obrigado!

Paulinho Patriota disse...

Caro Theo:

Como o próprio mundo se repete,teus silêncios se repetiram em mim para que eu o repita em voz alta ou apenas sussurando.

Não existem palavras no perau da minha emoção para descrever o que senti ao ler este assombrosamente conciso texto.

Abraço pernambuquês.

wescley j. gama disse...

é bom ve-lo voltar ao que poderíamos chamar de 'ativa'. meu caro. a poesia continua...

Celso disse...

Caro theo, como vc vai estar em natal para o café da manhã do dia 14, onde receverá sua justa premiação, pensei em marcarmos um chope na segunda à noite. já combinei com a Márcia Maia (do Tábua de Marés). mando meu celular pro teu email.

um abraço

Celso

Victor Rodrigues disse...

Esse tempo nos assonbra, nos deixa calados no sua passada rápida e em nota nossas deixas...
Um bju grande meu amigo

Vinícius Mendes disse...

parabes pelo blogger. belos textos.
abraço

Anônimo disse...

Essa angústia de incomunicabilidade que você expressa tão bem fala a mesma linguagem dos quadros de seu querido Munch. Sempre um texto de grande beleza, Theo. Um beijo. PS: Não se preocupe muito com a falta de tempo, ela afeta praticamente a todos e a gente sabe que você é um amigo. Adelaide

Theo G. Alves disse...

Paulinho,
fico por demais contente que meu texto tenha encontrado algum abrigo em tua casa.
Um grande abraço

Wescley, meu caro, é melhor ainda ve-lo aqui por estas bandas. apreça aqui em casa. ando com saudades.
abraço

Celso, meu querido amigo, só agora estou encontrando o seu e-mail e seu recado. estive desde domingo sem internet. hj de manha estive pelas bandas da capital e fiquei triste em nao poder encontra-lo. a presenca de marcia e antoniel foram agradabilissimas.
mas isso me rende outro compromisso: marcaremos um dia pra que eu va aí e possamos nos encontrar com bastante tempo livre, já que hj, cheguei as 9 e sai as 11 e 30...
nos acertaremos.
Um grande abraço!!


Vinicius,
muito obrigado! Um abraço!

Adade, suas palavras sao sempre dotadas de uma generosidade ímpar. Fico imensamente feliz que vc entenda estas minhas ausencias. são compulsorias, mas tenho sempre a intensao de ameniz-las.
um enorme beijo!

CeciLia disse...

Há no silêncio esta vontade enroscada de uma voz que clame.

Gostei do teu texto, poeta.

Theo G. Alves disse...

Cecilia,
obrigado, muito obrigado!
abraço!!

_Maga disse...

Saudades... saudades das tuas palavras... beijos

Theo G. Alves disse...

Marcela, querida, confesso que também têm me feito alguma falta...
beijo!!

ODON JR disse...

Théo entra no:

http://www.cnagitos.com/juventude_poesia/
Postaram por lá. Valew um abraço. E eu falei sei nome na TV a cabo no dia da Poesia! Por telefone! Valew

Theo G. Alves disse...

Odon,
vou dar uma olhada por lá sim...
e valeu pelo incentivo.
um abraço!

marcos pardim disse...

Theo, meu velho, corre à porta. Tem alguém a bater. Prestando bem atenção, creio não ser um só a lhe chamar. Espere, são muitos mesmo... Anda, corra a atendê-los. com deus, velho. 1 abraço.

Theo G. Alves disse...

marcos, meu velho, tenho ouvido o belo chamado dos amigos e minha ansia em responder-lhes é enorme... minha "inspiração" é que nao supera meu silencio...
mas o carinho e a amizade, estes sim, superam tudo...
um grande abraço!!!

Anônimo disse...

bonita foto!
manoela

Theo G. Alves disse...

manoela,
tens toda razão...
abraço!

Márcia disse...

a-do-rei nosso ecnontro! pena que tão breve.
depois, mando as fotos.
todos os beijos e mais um.

Theo G. Alves disse...

Márcia querida,
foi mesmo uma ótima manhã... da proxima vez tentarei ir com mais tempo e calma...
otimo sempre ver o Antoniel, que é figura das melhores, Moacy, Livio, tanta gente boa...
pena mesmo foi nao ter podido encontrar o Celso...
mas haveremos de nos ver, todos, e espero q em breve...
grande beijo!!
p.s.: seu livro é, como sempre, ótimo!

Claudinha disse...

Vim desejar uma ótima semana, você está muito sumido, mas sei que aproveitando bem o seu tempo! Beijo!