4.2.06

Peça: 20. Flores para um funeral

A sala está escura e mal se podem ver dois homens: um está sentado e cabisbaixo, o outro deitado sobre a mesa.

A porta abre-se subitamente e outro homem acende a luz. Prontamente o que estava sentado levanta-se e apaga-a. Diz irritado:
- Por favor, não acenda esta luz.
- Desculpe-me, mas é que tudo estava tão escuro...
- Sim. Estava e ainda está. Por favor, mantenha-a apagada e não fale alto. Não percebe que o homem está morto? Convém não incomodá-lo.

O homem que acendera a luz logo se ajoelha ao pé da mesa que mal pode enxergar, prostra as mãos e reza. O outro o repreende erguendo-o.
- Não faça isso, senhor. Já lhe pedi para que não incomode o morto.
- Eu estava rezando apenas.
- Ele está morto. Não percebe que seu ranger de dentes de nada lhe vale?
- Me desculpe... apenas pensei...
- Diga-me: para que pode servir uma reza a um morto?
- Não sei, senhor. Ao certo, não sei.

Os dois sentam-se. Um continua na cadeira, com o novo companheiro sentado a seu lado, no chão negro e frio da sala. O outro está deitado ainda sobre a mesa.

Depois de um longo silêncio, ele pergunta:
- De que morreu este homem?
- Isso faria alguma diferença?
- Não sei, senhor.
- Apenas não o incomodemos. Isso já é suficiente.
- Quando ele acordará, senhor?
- Ele está morto.
- E não acordará por isso?
- Não lhe parece um motivo razoável?
- Talvez...

O homem levanta-se de sua cadeira, arrasta alguns móveis na sala ainda escura. Pega pela mão seu novo companheiro e pergunta serenamente:
- O que se faz quando se está vivo?
- Ora, senhor... que estranha pergunta...
- Pode me responder?
- Senhor, quando se está vivo se está vivo e só...
- E que grandes feitos há nisso?
- Eu não sei ao certo...

Diante da ansiedade de seu companheiro, o homem toca-lhe o ombro, ao que diz:
- Calma. Venha até aqui e deite-se sobre esta mesa. Não se preocupe: não deixarei que acendam a luz.
_________________________
Foto do Duane Michaels, como sempre

53 comentários:

Marilena disse...

Uaau !! Valeu a pena esperar, pois, como diz o Marcos, seu texto é de uma "beleza que dói". E seu blog está bonito assim, nesta nova cor.

marcos pardim disse...

bom acordar de domingo esse em que, ao passear pelo museu, pude ver e ler uma peça nova. bom retorno, theo. e que os reparos no museu perdurem. abraço.

Marco Santos disse...

Theo, muito bom!
Tem um componente dramático neste conto muitíssimo interessante.
Olha, além de jornalista eu também sou ator. Na companhia teatral onde eu atuo às vezes a gente faz umas mostras de cenas. Sem compromisso. Só montar uma cena para mostrar para os outros.
Estou pensando em chamar alguém para encenar este teu conto comigo numa delas. Permitirias?
Um forte abraço.

Theo G. Alves disse...

marilena,
você e o marcos são de extrema gentileza e generosidade: eu agradeço!

fico contente que tenha gostado da nova cor do Museu: aquelas paredes brancas estavam a me cansar um tanto...

beijo grande e ótimo domingo!

Theo G. Alves disse...

Marcos, meu querido,
eu é que fico contente em chegar neste domingo ao museu pra encontrar suas palavras sempre tão generosas!

quanto aos reparos, ainda estou arrumando as coisas, empurrando estantes, abrindo portas, derrubando paredes: ainda faltam links, ainda preciso renomear algumas sessões... coisa pra quando houver tempo...

tenha um ótimo domingo, meu caro!!
um grande abraço!

Theo G. Alves disse...

Marco,
fico feliz que tenha gostado do conto: ando tentando brincar, no pouco que tenho escrito, com as texturas do texto dramático e da narrativa do conto... me faltam ainda um tanto de talento e outro tanto de experiência...

sobre encenar este texto, marco, eu não apenas permito como ficaria muito feliz com tal honra. e se vc realmente o fizer, vou querer saber como foi, como ficou... me sinto mesmo honrado!!

um grande abraço!!

Augusto M. Paim, vulgo Augustóteles disse...

Théo!
Eu já conheço o Moacy do núcleo de pesquisa de HQ da Intercom e dos livros que ele escreveu sobre. Em todo caso, nunca trocamos palavras.
Agora, o que tu disse dele me parece que vale pra ti: gente finíssima!
Abração!
Teu blog é de alto nível!

Theo G. Alves disse...

Augusto,
o Moacy é da mesma região do mundo que eu: o Seridó, no interior potiguar. Ele é mesmo das figuras mais brilhantes e agradáveis: uma grande figura.
Obrigado e o Museu está sempre aberto!
Apareça!

um abraço!

Claudinha disse...

Théo, quantas vezes estamos mortos para as janelas que a vida nos abre! Quantas luzes deixamos acesas ou apagamos e nem percebemos. Mas as flores, estas deixam seus perfumes impregnados na memória de nossas ações. Gostei muito!E concordo com Augusto, alto nível!Um beijo.

célia musilli disse...

ah! agora sim e apesar do texto sobre a morte o museu ressuscitou com tudo..rss, um grande beijo.

Theo G. Alves disse...

Claudinha,
obrigado por suas sempre tão gentis palavras... viver, não viver, todas essas coisas têm lá seus mistérios.
beijo!

Theo G. Alves disse...

célia,
parece que o museu agora é mesmo ressurrecto, embora nunca saiba ao certo quando será o proximo post... :)

é sempre ótimo vê-la aqui...

grande beijo!

Ivã Coelho disse...

Putz, muito forte esta estória. Que diálogo! Theo, conheci-o agora, seu Museu, ao qual farei muitas visitas. Matenha as portas escancaradas.

Abçs

Ronaldo disse...

Grande Theo! esse museu tá cada vez melhor, e seus textos cada vez mais belos. Um grande abraço!

Theo G. Alves disse...

ivã,
seja sempre bem vindo. manterei as portas abertas e espero podermos trocar dois dedos de prosa nestas galerias cheias de silêncio.

um abraço

Theo G. Alves disse...

ronaldo, meu caro,
na verdade são os amigos que estão cada vez melhores!

um grande abraço!!

p.s.: vamos ver se a gente se encontra pra botar a conversa em dia

Mut disse...

Entendi pouco , mas acho que entendi. Achei engraçado o penúltimo parágrafo. Mórbido e inusitado. A vida é assim.

Um abraço!

Theo G. Alves disse...

Mut,
a vida e a morte têm dessas coisas: mórbidas e inusitadas, geralmente ao mesmo tempo...
abraço!

_Maga disse...

Comentando comentário comentado comentando comentado... de um outro blog: se bem vindo a roda de não alcoolizados... afinal alguem tem que pedir alguma coisa antes que o garçon peça para que nos retiremos do bar... beijos

_Maga disse...

Desculpe o incomodo, mas... será que dava pra aumentar um pouquinho a letra?? sabe o que quê é... eu queria chegar aos 100 anos lendo... rs... beijos

Theo G. Alves disse...

Maga,
pode deixar que mantenho o pedido da cerveja... pedeirei uma depois outras e outras, apenas par aque o garçom nao se chateie...

quanto a letra, vou aumentá-la sim... acho que por usar a visualizacao de texto em "maior" aqui não percebo que esteja tão pequena...

farei isso em nome de nossos olhos.

beijo!!

Francisco Sobreira disse...

Theo: Vc mostra, como sempre numa muito boa escrita, como vida e morte são indissociáveis. Não sei quem disse que se começa a morrer quando nasce. Algo assim, cito de memória. E como diz a sabedoria popular, para se morrer, basta se estar vivo. É isso aí. Grande abraço.

Glória disse...

Theo, vc tem idéia do qto teus textos penetram e escancaram a alma humana com tdas as suas limitações e infinitudes? Teu texto me remeteu ao grande Borges: enigmático e instigante. Abraço grande!!!!

PS1:Não vejo a hora de ler "A casa miúda"...
PS2:Adorei nossa conversa relâmpago, espero que façamos a especialização juntos.
PS3:A cara nova do Museu tá ótima!
PS4:Chega de tanto PS...rsrsrsr
Beijo!!!!!

Theo G. Alves disse...

Sobreira, é isso que tenho visto sempre neste meu tempo pouco: vida e morte são coisas de mesma monta. a estranheza está sempre no não-viver.
Fico sempre agradecido por suas palavras que melhoram muito este museu.
um grande abraço seridoense!

Theo G. Alves disse...

Glorinha querida,
as limitações são mais minhas que das almas. Sou um "escritor" cocho. Minha palavra é manca. Eu tento arrumar uns calços para ela a ver se toma jeito. Não toma. Quem melhora meu texto é você, são os amigos que me vêm ler aqui neste museu.
Beijo bem grande!

p.s.1: em breve recomeçará a manufatura de mais uma tiragem de A Casa Miúda, uns 5 exemplares. Você terá o seu, certamente.
p.s.2: você precisa aparecer mais demoradamente pra podermos conversar.
p.s.3: obrigado! espero que ela continue arrumadinha (tem parada do blogspot prevista de novo)
p.s.4: :)

Celso disse...

Excelente texto, theo. Diálogos muito bem escritos e trama ágil. Uma pequena peça pronta. Vale investir nessa seara, cara, você tem talento.

Vou me atrever a discordar de outros: acho que existem templates melhores para o museu no próprio blogspot. Este não me pareceu a melhor escolha. Desculpe o atrevimento!

Saudações

Anônimo disse...

Theo querido, você me lembra Sócrates com esse diálogo, com a vantagem de pôr as idéias em movimento. Muito bom. Beijo. Adelaide

Dona Estultícia disse...

Théo, blog bom esse aqui hein? E quanto ao texto, pronto para ser encenado como já disse o Celso. Vou voltar, pode ter certeza. Abs.

_Maga disse...

Que presente foi este que tu me destes a comentar um comentario? Texto bem escrito, palavras precisas, seres humanos em humanas duvidas, despertando humanos medos... afinal, quem sois tu, ser humano? Que palavra é essa???
De resto só te agradeço por ter aumentado a letra!!! Realmente a leitura ficou muito mais facil... um grande abraço e pode acreditar que eu volto...

Marco Santos disse...

Valeu, Theo. Quando chegar a época, te dou notícias. Não tem essa de "falta de talento"! Você o tem e muito!
Um abração!
Ah, sim. A sua "falta de talento" conquistou um link no meu blog.
Quero que meus amigos venham te ler. Recomendarei.

Moacy disse...

Gostei do novo visual. Quanto ao texto: a qualidade (literária) de sempre. Com final surpreendente. Um grande abraço.

claudia disse...

Interessante.
Muito bom.
O Marco do Antigas Ternuras me indicou e, gostei mesmo.
( tudo bem, tive que ler umas duas vezes para entender melhor da "morte"...rs) mas...
Adorei

beijo

Theo G. Alves disse...

celso, meu caro, fico contente que tenhas gostado destas linhas desarrumadas. Ando fazendo umas experiencias deste tipo tem já algum tempo, embora estejam elas um tanto silenciosas.

quanto a discordar a respeito das cores novas do Museu, tens todo o direito e te digo pra ficar à vontade. sua opinião tem para mim muita importância.
sou semi-analfabeto digital, confesso, e nao consigo encontrar um template q me satisfaça por inteiro, como tinha O Centenário... enquanto isso vou experimentando pra ver o que é que acho pelo mundo.
um grande abraço!

Theo G. Alves disse...

Adelaide,
fico contente de vc ter voltado das longas férias. e se te faço lembrar de Sócrates fico todo orgulhoso, porque houve poucos jogadores como o "Doutor", sobretudo para um corintiano... :)
grande beijo!

Theo G. Alves disse...

D. Estultícia, é uma honra tê-la por estas bandas seridoenses da virtualidade. Volte sempre mesmo, assim como voltarei à sua casa.
Um abraço!

Theo G. Alves disse...

Maga, o presente é você que está a me dar com palavras tão generosas. Para dizer quem sou, repito Ulisses e digo: "sou Ninguém" e isto é o mais de mim que consigo perceber, o que já é muito para essa minha existência árida e musculatura breve.
Agradeço pela sugestão da letra, pois aqui não a percebia tão miúda.
Volte mesmo e certamente nos encontraremos nestes corredores empoeirados do museu e na sua bela casa, porque estarei sempre por lá também.
É sempre um prazer tê-la por aqui.
Beijo!

Theo G. Alves disse...

Marco, agradeço muito pelo link no Antigas Ternuras, que leio sempre e que tanto me agrada. Sei que quem vier das bandas de lá vem de coração ameno e generosidade em punho.
Um abraço e me mantenha informado!!
Um forte abraço!

Theo G. Alves disse...

Moacy, cada uma das tuas generosas palavras me faz sempre acreditar mais no que escrevo. Sabes bem o quanto gosto de sua literatura e de você. Cada boa palavra sua é um presente que minha literatura miúda me traz.
Grande abraço.

p.s.: meados de fevereiro chegando, te mandarei um e-mail com meu telefone para que possamos nos achar mais facilmente em sua passagem pelo Seridó.

Theo G. Alves disse...

Claudia,
quem vem das bandas do Antigas Ternuras é muito bem vindo a este museu. Agradeço sua visita e torço pra você apareça sempre.
Beijo!

Paulinho Patriota disse...

Caro Theo:

E foi assim,envolto em fértil afeto,que entrei aqui,alumiado pela lanterna do Grande Marco,plural em nobreza,ternurante.

Que conto fantástico,este!

Certos desfechos ficam impreganados na memória para todo o sempre. Linguagem cifrada, primor maior.

Nada sei da morte,escuro enigma,mas viver é um amontoado de coisas...

Me tenha,desde já,como teu devoto.

Naturalmente que um link desta mansão já foi inaugurado no meu pálido chatô.

Abraço pernambuquês.

Sonia Marini disse...

Voltei.
Que belo conto!Fica ressoando...
Só que eu, não me deito!
beijos

Theo G. Alves disse...

Paulinho,
como tenho dito, quem vem das bandas do Antigas Ternuras é muito bem vindo. Fico duplamente feliz: uma vez porque o Museu parece ter te agradado um bocado, outra porque o Marco sempre indica boa gente pra vir aqui.
Não deixe de voltar por estes lados!
Muito obrigado!

Um abraço seridoense!!

Theo G. Alves disse...

Sonia,
muito obrigado!! é bom vê-la por aqui de novo.
E nao se deite!
um grande abraço!!

Anônimo disse...

Theo... passeando pelo museu ao som do S.W.,me deparo com
...um homem em chamas...nada mais eloquente para esta madrugada.
Belissimo! é sempre um prazer te ler. Bjo ggrande.

Theo G. Alves disse...

Anne,
o prazer é sempre meu de ter suas leituras.
A eloquência, ah... a eloquência.
Beijo!!

CeciLia disse...

Theo,

não é à toa que tens este nome. Não mesmo! (eu que o diga)

Cheguei agora por aqui, gostei demais deste primeiro conto. Parabéns!

Abraço

Theo G. Alves disse...

cecilia,
os nomes devem ter motivos profundos para nos virem a cair ao colo. confesso que ainda não conheço os meus.

fico contente de sua chegada e te convido a voltar sempre.

obrigado!

Um abraço!

Vivi disse...

Muito bacana o seu blog. Gostei mesmo!
Um abraço!

Theo G. Alves disse...

vivi,
fico contente que tenhas gostado.
o Museu está sempre aberto.

abraço!

Vivi disse...

Theo,
Coloquei um link no meu blog!
Um abraço!

Thaty disse...

Oi Theozinho, acho que desde os tempo de "O Centenário" que não lhe visitava, aliás foi graças á homenagem que o Pera fez para ti no blog dele que resolvi aparecer aqui. E de entrada percebo que o tempo e as demais mudanças só fizeram melhorar a tua já fantástica capacidade de escrever.
Quanto a mim, ando num total ócio criativo, nem mesmo meus rabiscos tenho postado...
Beijinhos querido.

Theo G. Alves disse...

vivi,
fiz a atualização dos links do Museu e também abri uma vereda até tua casa...
obrigado!
beijo!

Theo G. Alves disse...

thatynha,
fazia muito tempo mesmo que você não aparecia por estas bandas. Ainda bem que o Pera te apontou o caminho de volta.
Fico muito agradecido por suas palavras tão generosas... e tenho de confessar a ti que às vezes gostaria de estar num delicioso ócio criativo. ócio, sobretudo :)
beijo!!