22.10.05

Peça: 14. Meu Silêncio É Gregor Samsa


Não posso pensar estes dias de silêncio em que me encontro sem que recorde a imagem amedrontada e perdida, confusa de Gregor Samsa a dormir gente e acordar-se besouro na palavra virtuosa de Kafka.

É para mim dificílimo crer que algum de nós não tenha, em um dia sequer, ainda em uma hora absurda, se encontrado diante do espelho a rodar de costas ao chão, sem que a couraça duríssima nos permitisse virarmo-nos e pormo-nos de pé.

Pois este silêncio que me toma é o olhar de Gregor Samsa. Ponho-me diante do espelho e estou estranho a tudo: a esta aparência que carrego invariavelmente desde que nasci, a este quarto insólito por onde me entregam os pratos de comida que nem mesmo como, a esta voz surda e horrenda que se fez em minha garganta.

Sou estes dias de silêncio. Meu silêncio é Gregor Samsa.

A necessidade de encontrar um caminho que não sei onde começa, o movimento em falso, a distância que tantas vezes me golpeia no ventre, a distância de mim e dos meus: isto é meu silêncio, estas madrugadas inteiras a não lançar sobre os papéis uma palavra fértil sequer. A voz séssil, ainda que momentaneamente, ainda que dêem a esse calar absurdo o nome delicado e inteligente de “hiato”.

Não é hiato. Não é fenda. Nem abismo. É silêncio. Assustador e asqueroso como Gregor Samsa e, como ele, ainda vivo e amedrontado, essencialmente humano.
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Texto publicado originalmente no blogue O Centenário e no livro A Casa Miúda
Ilustração de A Metamorfose pelo argentino Scafati
Este post é dedicado ao amigo Milton Ribeiro
Para mais, visite o Museu de Tudo no Multiply

12 comentários:

Milton disse...

Muito obrigado, Theo.

Muitas vezes me encontrei como Gregor Samsa, a rodar de costas pelo chão, muitas vezes me acordei vendo muitas perninhas fora de sincronia mexendo-se no ar e soube que aquilo era eu e muitas vezes não soube o que fazer com pratos de comida e silenciei.

Não sei como adivinhaste que Kafka era um de meus escritores preferidos e sempre relidos. Ficou especialmente agradecido a ti pela dedicatória e ainda mais pelo conteúdo, tão pertinente a minha (nossa) compreensão (incompreensão) do mundo.

Olhe pela janela e veja minha gratidão atravessando o país de Rio Grande a Rio Grande.

Mutatis Mutante disse...

Taí um dos próximos livros que pretendo ler... e essa ilustração me lembrou aquela música infeliz da barata da vizinha...

Um abraço!

Celso disse...

Belíssimo, théo. Se cada silêncio teu nos brindará com um texto deste nível, talvez compense. Mas ainda assim, poeta, escritores do teu nível precisam escrever mais, a literatura carece disso.

E por falar em hiato, há um texto meu com este título no cárcere, acho que semana passada.

Saudações do Cárcere

camilo disse...

Oi Théo, finalmente heim? Já não sabia mais o que fazer na net sem a leitura obrigatória que é seu blog.
Vc sabe sempre o que dizer, mesmo quando é pra falar do silêncio...
abraço meu:
camilo

Moacy disse...

Theo: Há dias em que acordamos Gregor Samsa. Há dias em que o silêncio que nos domina é puro Gregor Samsa. Há dias em que não somos nada. Um abraço.

pedro pan disse...

theo, até de teu silenciar, consegue extrair palavras-frases-letras, muito bom vir aqui e te ler, mesmo que em silêncios, os quais sempre gritam... abraços

Glória disse...

O que posso te dizer a não ser que teu silêncio é completamente tomado de palavras imprescindíveis, pq o que é silêncio para uns pode ser tbm barulho p/ outros e vice-versa. Quem não se sentiu um Gregor Samsa, eu acho que sempre fui, e ainda sou, talvez nunca deixarei de ser... Tô com saudades, apareça!!!! Beijo silencioso de inseto... Rs, rs, rs...

Maria Odila disse...

Como todos disseram.. há dias assim. E outros onde é bom, muito bom, voltar a ter vc perto, vc em letras
saudades e beijos, muitos
Odila

carla disse...

nao conheco Gregor Samsa, mas confesso que fiquei fascinada como vc escreve bem! É dificil, sobretudo nestes dias de internet e rapidez as pessoas se preocuparem tanto. Um grande abraço, continue fazendo isso por todos nós!
:)

Claudinha disse...

Ai... Demoro a ver suas linhas, mas quando as encontro surge um misto de algodão doce com nuvem, deserto e lagoa... Sinto falta de O Centenário, mas posso reler aqui. Todas as metamorfoses são imprescindíveis! Beijos Théo!

Marco Santos disse...

Salve, Theo! Gregor Samsa é forte, heim? Mas todos passamos por nossas metamorfoses. Veja estes teus silêncios como o que envolve a lagarta em seu casulo antes dela se transformar em borboleta. Ou aquele que é presente na semente do trigo, que, entretanto, há de germinar, romper a escuridão, cumprir sua vocação de ser pão. Um forte abraço.

fernando cals disse...

Oi, Théo,
Belo texto e bela republicação!
Linda declaração de momentos que passam em nossas vidas e que, na maioria das vezes, nem conseguimos perceber. Ou os soterramos, momentos inoportunos!
Um belo domingo pra você e repita doses como essa.
Abração
fernando cals