26.12.13

A tradicional lista de discos favoritos do ano. 2013!

como é tradicional, sempre faço listas dos discos que mais gostei no ano. não há aqui nenhuma preocupação com a responsabilidade, pois essa é uma lista irresponsável de um sujeito que gosta de música, nada mais. não sou conhecedor do assunto, não sou estudioso, nem músico, jornalista, pesquisador, exegeta ou evangelista musical. é uma lista, injusta e irresponsável como todas as listas.

estrangeiros

1. reflektor - arcade fire
2. psychdelic pill - neil young
3. post tropical - james vincent mcmorrow
4. killing days - american thread
5. the hand that thieves - toh kay
6. pale green ghosts - john pale grant
6. vari colored songs - leyla mccalla
7. mala - devendra banhart
8. ghost on ghost - iron & wine
9. the coincidentalist - howe gelb
10. we partyin' traditional style - kermit ruffins


nacionais

1. vazio tropical - wado
2. o tempo faz a gente ter esses encantos - alvinho lancelotti
3. cavalo - rodrigo amarante
4. sem despedida - paes
5. fregata magnificens - lício
6. seridolendas - wescley j. gama
7. coitadinha bem feito - vários
8. bixiga 70 - bixiga 70
9. o mais feliz da vida - a banda mais bonita da cidade
10. antes que tu conte outra - apanhador só




17.4.13

a volta das aventuras do homem-invisível

- na escola, minha vida era um inferno: quando faziam algo errado e o diretor perguntava: "vocês viram quem fez isso?" eu já sabia que era comigo.

11.4.13

O Caos da Violência Urbana e seu Combate Caótico



Sou quase um estrangeiro em Santa Cruz. Na verdade, moro aqui há menos de quatro anos, embora já trabalhe na cidade há seis, mas ainda não me sinto muito à vontade para criticar a casa, como quem reluta em dizer ao anfitrião que o molho servido é desagradável. No entanto, não é possível calar diante do horror que tem se instalado sobre a cidade a partir das mais recentes manifestações de violência.
Os acontecimentos estão cada vez mais próximos ao caos urbano: uma cidade com menos de 40 mil habitantes que se dá ao luxo de ter assaltos e assassinatos diários, roubos e pequenos furtos a qualquer hora do dia, arrastões em plena feira-livre e o mais absurdo: um arrastão dentro de uma escola pública. Os cidadãos já relutam em sair de casa, há um toque de recolher não oficial instaurado, a inversão da prisão das grandes cidades já chegou aqui: as pessoas se trancam para o mundo por não poderem impedir que o mundo invada suas casas, mães e pais temem pelo presente de seus filhos, escondem-se, protegem-se, anulam-se.
É preciso dizer que a situação não é nova. Desde minhas primeiras passagens pela cidade, o cenário já estava desenhado, embora a intensidade fosse menor. Mas problemas como este, se não solucionados corretamente, tendem a crescer e a devorar quem os alimenta. Não é diferente em Santa Cruz.
Diante do caos, os famosos “jogos de empurra” do poder público se intensificam: a administração municipal culpa o estado, enquanto o estado finge não ter culpa. Tolo é o cidadão que acredita na inocência de alguém nesta história. O problema da violência urbana por aqui vem de longe, passou por administrações públicas diferentes e desemboca na atual. Uma coisa em comum há entre todas elas: a apatia. As discussões e transferências de responsabilidade se repetem e nenhuma resposta digna é dada aos cidadãos, que também não a exigem.
No momento, a prefeitura fala em mais policiamento. Fala apenas. Efetivamente, nada foi feito. O governo estadual não fala nada: é característica do governo Rosalba ignorar problemas, esquivar-se deles em lugar de solucioná-los. Aliás, pelo que se diz, a impressão que tenho é que o problema não será resolvido principalmente por um detalhe: as administrações públicas não sabem o que fazer, limitam-se à repetição do velho clichê “mais policiamento, mais viaturas, mais armas...” Esquecem-se de que mais policiamento é apenas parte da solução, a parte mais imediata e superficial, simplória. Policiamento mais equipado e maior efetivo permitirão o combate direto às formas de violência estabelecida, porém não resolverá suas causas.
É um paliativo que se permite cobrir a ferida, mas não o câncer que a causou. Faltam ações sociais, culturais, educativas e de lazer, além da possibilidade de uma vida decente, de um trabalho decente, decentemente remunerado; faltam perspectivas de uma vida mais justa e menos excludente, menos humilhante e mais honesta. Faltam porque são uns poucos grupos ou pessoas que ainda exercem de forma hercúlea e altruísta alguma força para amenizar problemas sociais. E fazem isso não com o auxílio do poder público, mas apesar dele.
Outra atitude se faz imediatamente necessária: frequentemente vejo o desprezo espalhado por várias camadas sociais – inclusive por parte da administração pública – em relação aos bairros periféricos. Tratam-nos como se fossem um expurgo, um rejeito da cidade. A população lida com bairros como Paraíso e Maracujá como se os problemas de lá não fossem seus também. A violência passou a incomodar quando invadiu o centro da cidade, entretanto pouquíssimo tem sido feito para amenizar as angústias de segmentos sociais absolutamente destratados, como alguns dos que sobrevivem nesses bairros.
Para amenizar os problemas que geram violência em Santa Cruz são necessárias duas coisas: estratégias e tempo. Estratégias de combate imediato e em longo prazo, tempo para que as mudanças, que precisam haver, possam surtir efeito. Se nos limitarmos ao aumento do efetivo policial, teremos mais presos, mas não teremos menos violência. É preciso saber agora quem se dispõe a participar da mudança.

25.2.13

Peça: O Libertador

Antes de ser morto meu pai, ensinou-me que ao homem é preciso sempre superar-se, romper seus limites, como um Raslkónikov capaz de relevar a culpa, de não ceder às pressões que se abatem sobre o homem que fraqueja. Antes de ser morto meu pai, disse-me tantas coisas a respeito da vida e da necessidade de não ser passageiro, de eternizar-se.

Disse-me, antes de ser morto meu pai, da glória de Caim: explicava-me que a Abel restou a inanidade dos mártires, cujo feito maior é deixar-se abater. Dizia-me que o irmão a ser celebrado era aquele capaz de quebrar a apatia em que Deus mergulhara seus pais, a quem a subserviência deveria ser uma condição inquestionável. Caim fora sempre o libertador, o que estilhaçou as amarras a com que o Criador atara suas crias: Caim desfez a escravidão de seus pais e pôde fazer-se, de fato o primeiro homem, pois que seu pai era um arremedo, a pantomima de um homem incompleto.

Antes de ser morto meu pai, contou-me que era preciso ser único em seu tempo, desenhar marcas indeléveis a seu redor, ser insuperável, destroçar a apatia, o imobilismo que tende a acomodar-se, primeiro na alma, depois nos músculos do corpo do homem.

Compreendi suas lições e, por isso, nunca precisei que ele me perdoasse por tê-lo matado.

8.2.13

Peça: Anúncio de Chuva


O uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva: os varais eram despidos imediatamente pelas mãos hábeis das mulheres crivadas de sol; os gritos dos meninos ecoavam nas ruas feitas de barro e ermo; os homens apinhavam as latas e baldes debaixo das bicas, cheios apenas de esperança; a avó reunia no quarto grande toda a família e, em minha rede, eu prestava silêncio à mecânica sutil daquela tarde, em que o uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva.
Não falávamos: a televisão, finalmente, calava; não havia música nem conversas de pés-de-parede; a avó interrompia qualquer tentativa inconveniente de voz com um olhar austero, dado o respeito atávico pela raridade das chuvas; as cinzas da fogueira morta de são-joão dormiam de sobreaviso numa lata ao pé da cama, para prevenir o exagero violento das águas de deus; esperávamos silenciosos e solenes enquanto o uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva.
A chuva, anunciada pelo uivo gelado do vento nas calhas. Anunciada pelo uivo gelado do vento nas calhas, não choveu àquela tarde.

22.1.13

Amor (Amour), de Michael Haneke: Amor e Dignidade?


“Cuidado”, “resignação”, “paciência” e “humanidade”. Estes são substantivos que poderiam figurar como o nome do último filme do cineasta austríaco Michael Haneke, mas “Amor” é mesmo o mais apropriado à película, posto que todos os outros estão compreendidos neste. É esse o sentimento que Haneke encontra como justificativa para nos contar a história de Georges e Anne, casal octogenário de ex-professores de piano que precisa lidar com um dos mais cruéis e implacáveis obstáculos para o amor: o tempo.
Diante da nova configuração familiar a que chegamos, o enredo nos leva a confrontar o lado árduo da independência dos filhos, do isolamento, do fim das famílias numerosas, que é a decrepitude beirando a solidão. Georges e Anne moram sozinhos, raramente visitados pela filha do casal e por outros poucos terceiros que fazem parte desse novo mercado que a velhice em seus novos contornos nos legou: enfermeiros, cuidadores, empregados domésticos, carregadores, médicos, etc. Diante da saúde debilitada de sua esposa, Georges cuida dela pacientemente: seu companheiro, seu cuidador, seu amigo, seu amor.
Enquanto a filha esporádica aparece vez ou outra para requerer cuidados e meter-se no destino de sua mãe, o marido perene é quem toma as rédeas de suas necessidades em seu apartamento silencioso, cercado de livros e jornais matinais e de um espírito musical que agora está calado. O filme, aliás, não tem cenas externas: todas as situações se passam no apartamento do casal, com exceção de uma. A trilha sonora é absolutamente escassa, pois o silêncio diário de seus personagens é suficientemente ruidoso para não passar despercebido.
Se os silêncios de Amor são plenamente audíveis, isso se deve em grande parte a atuações irretocáveis de seus dois personagens principais: Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Os closes em Trintignant são um momento mágico do cinema: quando se diz tudo, de maneira absolutamente precisa, sem excessos e sem faltas, sem que palavra alguma precise ser dita. Quanto à Riva, os prêmios que a atuação lhe rendeu e a indicação ao Oscar de melhor atriz dão os contornos a seu desempenho em Amor.
Haneke conseguiu dar voz à complexidade do amor ao fugir dos perigosos clichês que envolvem o tema ao permitir que seus protagonistas fossem humanos, sofressem, errassem, perdessem a cabeça e retomassem o rumo, como acontece na vida de seus expectadores, que são conduzidos à cumplicidade máxima, contestadora da ética e da ordem estabelecida. Se é apenas na vida que se pode ter dignidade, a morte constrangedora e embaraçosa nos faz carecer verdadeiramente de amor, sem concessões.

8.1.13

Peça: não era um leão



o bicho enjaulado não era um leão. era antes disso um arremedo, pantomima do animal que deveria ser, mas não era. o bicho enjaulado era pouca coisa. as patas pesadas e preguiçosas desaprenderam a correr e a mandíbula desamparada se refestelava sem fúria na carne morta de outros bichos desgraçados. o bicho enjaulado não era um leão. a memória antiga do animal pereceu. seu corpo arqueja a sombra de quem poderia ser. o bicho enjaulado não é um leão. e feroz sou eu, a alimentá-lo por trás das grades.