19.4.12

Melancolia: O Mundo Acaba em Nós

Não hesito em dizer que o dinamarquês Lars Von Trier é um dos melhores e mais interessantes diretores de cinema dos últimos anos. Mesmo tendo a fama de diretor cruel e detestado por seus atores, tendo feito e dito coisas – muitas vezes – deploráveis, cinematograficamente Von Trier é dos mais criativos e interessantes diretores e roteiristas de hoje. Em Melancolia, ele reafirma suas qualidades e se resigna do quase intragável O Anticristo, marca negativa em sua carreira – ainda que o filme tenha aspectos cinematográficos e semióticos muito bem construídos.

Melancolia é um filme sobre o fim do mundo, um filme-catástrofe, no entanto não se trata de “mais um” filme sobre o fim dos tempos. Diferentemente de coisas como O Dia Depois de Amanhã ou o remake de Guerra dos Mundos, o cinema-catástrofe de Von Trier é profundo e foge do lugar comum.

A história se dá a partir da ostentosa festa de casamento de Justine, belissimamente interpretada por Kirsten Dunst. O evento é o plano de fundo para que possamos conhecer seu personagem: uma publicitária promissora que já não reconhece mais seu lugar no mundo prático do trabalho, das relações familiares ou amorosas. O dia do casamento é uma metáfora para o fim do mundo. Os momentos que o sucedem apresentam Justine em uma profunda melancolia, ponte muito bem desenvolvida pelo diretor/roteirista. Entenda-se também que não há aqui uma postura frívola de Von Trier deliberadamente contra o casamento, como aquelas que acusam o matrimônio de “instituição falida” ou outros clichês. Ainda que os pais divorciados da noiva representem visões antagônicas sobre o destino da filha e, no caso da mãe, radicalmente contra o casamento, ambos representam muito mais o desejo desregrado pela vida (o pai, interessante atuação de John Hurt) e o desprezo por ela (a mãe). Há, talvez, uma sugestão de que o ser humano está fadado ao fracasso ou à insatisfação em qualquer instância.

Aliás, duelos como esse são uma constante no filme: o principal deles entre as irmãs Justine e Claire (muito bem vivida por Charlotte Gainsbourg, que empresta as doses milimétricas e precisas de dor e agonia aos personagens criados por Von Trier, tanto em O Anticristo como em Melancolia). O medo de Claire diante da possibilidade do fim do mundo é um paralelo para sua excessiva preocupação com o sucesso da festa de casamento de sua irmã mais nova oferecida por seu marido John (vivido por um Kiefer Sutherland felizmente distante do policial durão que costuma interpretar na tevê).

A partir do comportamento dos personagens durante a festa de casamento, passamos a conhecê-los bem e podemos perceber o estofo que se cria para suas futuras ações diante da ameaça iminente. Por isso, a primeira hora de filme, que pode parecer solta e sem propósito para espectadores mal acostumados com a narrativa rápida e linear do cinema americano, encontra plena justificativa com o desenrolar dos acontecimentos, que dão conta da assombrosa aproximação de um planeta até então desconhecido da Terra. O risco de colisão entre ambos e o consequente fim do mundo em que vivemos é real e, a partir dele, mergulhamos num pequeno nicho isolado do resto das populações para entendermos a catástrofe por uma ótica microcósmica: Justine, Claire, John e o filho do casal.

Von Trier foge do clichê filme-sobre-o-fim-do-mundo de maneira interessante: não há furacões, terremotos, prédios gigantescos sendo engolidos pela Terra, crateras e tsunamis arrasadores; também não há populações desesperadas, saques, grandes heróis ou cientistas homéricos que se dispõem a lutar para salvar o planeta. O que há são quatro pessoas vivendo em uma casa de campo, afastadas das cidades e de suas populações, compreendendo o fim do mundo de maneira particular e humana. A menção de fatos exteriores é breve: uma página na internet, um comentário na televisão e um empregado da casa, que não aparece para trabalhar.

Embora distante da apresentação ampla da catástrofe, Von Trier consegue fazer o espectador entender as sensações e ambiguidades dos comportamentos humanos diante da tragédia, e faz isso com três elementos que o cinema blockbuster parece desconhecer ou não dominar: ótimas interpretações (embora por métodos terríveis, o diretor sempre obtém grandes interpretações dos atores que dirige), um roteiro muito bem escrito e uma câmera nervosa que lida sem cansaço com planos-sequência.

 O conflito estabelecido entre Justine e Claire oferece momentos de reflexão dos mais interessantes a respeito de como nós somos diferentes ou de como recebemos e atuamos complexamente na vida. E uma coisa não escapa ao espectador: o amor excessivo à vida é tão detestável quanto o total desprezo por ela.