23.3.12

Peça sem número: Peixe Podre



- para Leão Neto, que me apresentou respeitosamente este homem

A faca rasgava a barriga do peixe como se abrisse nuvens, de onde escorreria uma chuva vermelha e viscosa. A arte das facas, a sorte lida nas vísceras, infortúnios em lugar de fortuna. As mãos tingidas do vermelho sangue-chuva-viscosa das entranhas dos peixes. O cheiro impregnado no corpo, no couro, no osso, na origem da alma. O odor ancestral dos peixes arrebatados pela rede de seu pai, do pai de seu pai, e do pai deste e do outro até o início dos tempos, como se Adão carregasse no ombro sua vara de pesca.
Peixe Podre o chamavam, desde antes, de sempre. A caixa de isopor amarrada ao bagageiro da bicicleta e um cordão de cinco peixes raquíticos presos pelas bocas. “Peixe podre”, ele gritava pelas ruas, como a cidade o chamava. Vendia-os por uma pequena miséria amealhada, suficiente apenas para um tanto de feijão e outro tanto de cachaça. O cheiro fétido do isopor era também o cheiro de seu corpo e da cama de rosas mortas em que se deitava aquele homem miserável e sua mulher miserável ocupada do miserável legado que seus filhos receberiam.
O sol havia-lhe furtado a cor da barba, refeito o tom de sua pele e entalhado os veios de sua musculatura-osso. “Peixe Podre”, as pessoas o chamavam pelas ruas. “Peixe Morto” talvez fosse o nome mais preciso. A podridão dos peixes mortos mastigou os ossos de seu juízo. Peixe Podre empurrava ao braço de mar sua canoa: só o mar podia abraçá-lo: peixe podre, pobre peixe. E o mar convidou-o às suas entranhas, as do mar. Em sua canoa rasa, Peixe Podre deixou-se carregar ao ventre oceânico, ao ventre de água do mar. Deitou-se sozinho em seu barco miserável, como miserável era seu destino. Encolheu-se, refeito o menino de antes de nascer, no ventre de sua mãe verdadeira, no ventre marinho de sua mãe verdadeira.
Peixe Podre deixou-se arrefecer, deixou-se engolir, sem pensar no destino corroído de seus filhos, na podridão que empesteou o útero de sua mulher companheira de muitos, muitos sofrimentos e mínimas alegrias esquálidas, como esquálido era o corpo de Peixe Podre, que não pensou em nada enquanto a boca do mar o devorava, lentamente.

16.3.12

Jovens Adultos: a agonia de não ter lugar


Ao assistir a Jovens Adultos (Young Adult) é difícil não criar expectativas de encontrar na tela um novo Juno, pois os dois têm em comum o diretor e o roteirista, Jason Reitman e Diablo Cody, respectivamente. Juno desperta alguma empatia por seus personagens deslocados, desorientados e um tanto perdidos num mundo complicado e de consequências duras para atos inconsequentes. A mistura de tons nerd e looser criam simpatia por seus anti-heróis, embalados por uma trilha sonora empolgante e que carrega bem o espírito do filme.
Mas Jovens Adultos não é Juno e ninguém deve ficar escravo sempiterno de uma mesma obra. A história trata de um momento na conturbada vida da autora da série Jovens Adultos, Marvis Gary – interpretada pela linda e cada vez mais talentosa Charlize Teron –, que teve enorme sucesso com o público jovem, mas se encontra em decadência no momento de seu último episódio.
Saída de um casamento fracassado e sufocada por uma vida vazia, Mavis resolve retornar à sua pequena cidade natal para reencontrar seu antigo namorado da época de escola. Ele, agora casado e pai, parece perfeitamente adaptado à vida rejeitada anteriormente por Mavis.
Nessa viagem de volta, essa anti-heroína contesta valores morais e põe em destaque o fracasso de suas relações familiares e seu egoísmo, disposta a interferir na vida de seu ex-namorado e a família que ele está construindo. Mavis entra em combate direto e constante com seus antigos colegas de escola, para os quais ela foi sempre algoz, vitimando-os com seu desprezo e ar de superioridade. Em verdade, ela é a adolescente bonita e popular que todos desejavam ser, mas que já não encontra lugar no mundo dos adultos.
Mavis reúne em seu personagem aspectos interessantes sobre o momento em que vivemos: a menina que se encontrava no topo da hierarquia de seu microcosmos social está deslocada, sem rumo, vítima de sua própria personalidade devoradora. Sua mesquinhez e ar de superioridade tentam esconder – sem sucesso – uma alma atormentada pela superficialidade e vazio do mundo ao seu redor que é, aliás, também seu universo interior. Os livros que escreve não carregam seu nome, já que a ideia original de Jovens Adultos é de outra pessoa. Sua beleza estonteante já beira à decadência e sofre, não sendo suficiente para sustentar uma posição otimista diante da vida. Sua solidão é massacrante e seu cachorro, constantemente relegado e símbolo de futilidade, garantem mais peso e desespero a esse sentimento de desencontro.
O enredo traz um interessante duelo entre Mavis e Matt Freehauf, antigo colega de escola – interpretado por PattonOswalt– de quem ela só é capaz de lembrar por conta de um fatídico e humilhante incidente: o time de futebol destruiu sua perna e genitália por acharem que o jovem era gay e não o aceitarem por isso. Vale ressaltar que este é mais um símbolo da mensagem de Reitman e Cody de que os populares tão idolatrados em outros tempos e infinitamente retratados nos produtos culturais americanos são, na verdade, elementos negativos, daninhos. Freehaufcaminha com a ajuda de uma muleta, exatamente como Mavis: a diferença é que para o primeiro o apoio é real, enquanto para ela a muleta é a expectativa de que a retomada de seu antigo relacionamento a trará de volta à vida. Ambos claudicam, cada um a seu modo.
O personagem de Charlize Teron tenta dizer a seus espectadores que se deve fazer tudo o que se deseja, que é preciso tomar para si aquilo que se quer, custe o que custar. Por isso mesmo, diferentemente dos personagens de Juno, Mavis Gary não provoca a empatia de seus espectadores, o que é claramente um objetivo dos realizadores do filme. Essa ausência de empatia leva o público a uma mistura de compaixão e desprezo pelo personagem principal. Neste momento em que o estilo de vida dos que não se adaptam ao mainstream da vida social parece estar em alta – Harry Potter e Glee não nos permitem duvidar –a mensagem é de que aqueles vistos como populares durante a adolescência são sujeitos que não acharam na vida um espaço que lhes compreenda: reis de um universo efêmero, caem por terra diante de um mundo que não se importa com quem são, mas apenas ressalta suas deformações e agora se encontra com o cabo do chicote às mãos. Talvez seja esse, aliás, o maior pecado de todo o enredo: crer que um lado é mais feliz que o outro, quando na verdade trata-se de perceber quem é incapaz ou não de conviver com sua própria infelicidade.

7.3.12

Deus: um agiota severo


Sempre compreendi a importância e a cobrança do dízimo por parte das igrejas. Sei também que há uma justificativa bíblica para sua existência e obediência. No entanto, o que me chama a atenção é a ferocidade com que as mais variadas religiões e igrejas o cobram.

É o dinheiro arrecadado a partir do recolhimento do dízimo e de outras doações – dinheiro esse livre de impostos, na maioria dos casos – que permite a manutenção e construção de novos templos, a implantação de serviços comunitários, o patrocínio de atividades de catequese e outras coisas mais. Não duvido disso.

Mas a mercantilização da fé é realmente constrangedora: é comum ver os mais variados pregadores cobrarem de maneira embaraçosa a seus fiéis, atribuindo-lhes culpa quando as arrecadações são miúdas, no que se lhes impõem os malogros do grupo religioso a que pertencem, bem como os de sua vida pessoal. Quem nunca ouviu um pregador dizer que a vida de um sujeito anda mal porque ele não observa as leis de Deus e não recolhe o dízimo como deveria?

É esse jogo de mercado, essa cobrança dura e mesquinha que me faz pensar que as religiões apresentam Deus como um agiota severo e sem compaixão. Se as pessoas querem felicidade, bons empregos, sucesso, saúde e amor, paguem o dízimo, “contribuam com a obra de Deus”. E se essas benesses não vêm, é porque faltou fé e, claro, “generosidade” no pagamento do dízimo.

Pelo jeito, Deus não faz nada de graça.

Já ouvi absurdos como “já temos o dinheiro para a reforma de nossa igreja e ele está no bolso de cada um de vocês” ou ainda “se você recolhesse o dízimo direitinho, essas coisas não aconteceriam”. Há pregadores que se comportam como os cães de aluguel divinos.

Obviamente, o dízimo é um oferecimento feito pelo seguidor de uma religião por sua própria vontade, ainda que seja constantemente impelido a fazê-lo, às vezes de maneira constrangedora.

Mas me pergunto se é mesmo necessário mercantilizar tudo, estabelecer preços para quaisquer obras: batismo a 45 reais, casamentos a 100, 10% da receita bruta, venda de missas, terrenos no céu, fogueiras santas, estabelecimento de metas comerciais, quermesses, festas de arrecadação, shows gospel, louvores e retiros pagos, etc. Há preço, cobrança e lucro em cima dessas atividades. Lucro, essencialmente. E dever às igrejas é um risco, porque a cobrança é deveras pesada e o cobrador muito poderoso.

1.3.12

Serviço Público: Um Jogo de Cartas e Um Baralho Sujo


O serviço público sempre serviu de piada para a sociedade brasileira. O excesso de burocracia, a falta de igualdade no tratamento do público, a ineficiência, a lentidão, os favorecimentos e favorecidos, as manobras inescrupulosas e a corrupção sempre foram elementos facilmente associados às atividades da máquina pública no país. Desde seu surgimento até os dias de hoje.
É verdade que todas essas características não são atribuições esvaziadas de sentido ou puramente míticas: a política brasileira, ponto máximo do serviço público, vive em quase total descrédito diante da população e ilustra perfeitamente a situação.
No entanto, se as práticas historicamente têm sido essas, também é certo que nos últimos anos tem havido uma corrida para diminuir as desigualdades e possíveis diferenciações de tratamento. Teoricamente, ao menos. Muito tem se falado em isonomia e equanimidade como metas e características do serviço público nacional. Esse novo comportamento tem diminuído, em alguma escala, a brutalidade dos escândalos a que nos acostumamos, ainda que estejam infinitamente longe de cessarem por completo.
O que se pode notar diante desse estreitamento das beiradas por onde as pequenas e grandes corrupções vazam, é que a maneira de processá-las, de permiti-las ou mesmo criá-las tem se tornado mais sofisticada: se não se pode mais nomear arbitrariamente um servidor público, por um lado, pode se criar chances e favorecimentos – quando de interesse dos membros mais graúdos dos grupos que gerem “a máquina” –de modo mais discreto, com manobras sofisticadas e legais, mesmo que imorais ou questionáveis e obscuras.
Aos que não têm “padrinhos” – palavra comum no universo do funcionalismo público nacional durante anos, e que ainda não se perdeu por completo – a lei reserva-se rigorosa e exigente, intransponível. Àqueles que têm quem lhes ache as brechas legais, reservam-se as facilidades e possibilidades dos códigos.
Por isso o jogo da imoralidade e improbidade na esfera pública está ainda muito longe de sua última cartada. Se antes, as regras eram quebradas com golpes na mesa e baralhos de cinco naipes, hoje elas têm a sutileza e os cálculos de um pôquer em que a mão sempre favorece os escolhidos.
O serviço público não joga mais truco, não grita mais, salvo em alguns momentos: as grandes instituições públicas preferem, atualmente, as possibilidades e sofisticações do 21. Sonhar com um jogo de cartas na mesa guarda ainda distância imensa da realidade, porque os jogadores sabem bem como burlar a banca.