30.7.10

Peça: 63. Exposições: All Days Are Nights: Songs For Lulu, de Rufus Wainwright


Rufus Wainwright: All Days Are Nights: Songs for Lulu

É a felicidade o que estamos a buscar sempre. É por ela que abrimos portas, escancaramos janelas, forçamos sorrisos e até, de vez em quando, somos genuinamente sinceros. No entanto, pouca coisa é menos frutífera para a arte do que a alegria.

Exagero meu, eu sei. Talvez a tentativa frustrada de buscar uma frase de efeito. Talvez uma leitura exageradamente pessoal do universo, da arte, da vida. Talvez efeito dessas raras tardes cinzentas de que eu tanto gosto e que sempre aparecem em junho/julho por estas bandas.

Fato é que a tristeza de Rufus Wainwright, mais especialmente seu luto pela morte da mãe, me faz companhia. E que bela e triste companhia. O disco “All Days Are Nights: Songs for Lulu”, foi produzido no ano passado e traz Rufus para as canções de piano e voz, que sempre ganham floreios elegantes por sua maneira singular de entoá-las. As letras abandonaram a política rebelde e descolada do “gay messiah” e a música fugiu do estilo cabaré de performances de antes. É um disco para exorcizar as dores, para acolher gentilmente os fantasmas, canções para permitir que o caminho seja seguido. Rufus não canta apenas a morte de sua mãe, mas músicas que ela certamente gostaria de ouvir.

Lindas todas as canções, de “Who are you New York?”, que abre o disco e passeia pelos tipos nova-iorquinos que são a cara de Rufus (ainda que este seja canadense), até “Zebulon”, que narra os momentos de sua mãe no hospital enquanto a vida teimava em acontecer do lado de fora (certamente a mais bela e comovente canção de todo o álbum) e encerra o disco. Esse ínterim preenchido com outras belas peças, caso de “Martha”, em que o compositor apresenta o recado deixado na secretária eletrônica de sua irmã, pedindo que ela ligue para mãe. É necessário também citar "A Woman's Face", poema de Shakespeare belissimamente musicado para o disco.

“All Days...” é um disco sublime, que transforma sofrimento em arte e fazem lembrar Nietzsche ao dizer que toda arte é em favor da vida, mesmo quando depõe contra ela. Rufus purifica seu sofrimento a ponto de permitir a empatia sem cair no voyeurismo doentio de quem se deleita com a dor alheia. É, na verdade, ao permitir a identificação com nossas próprias mágoas que o disco se torna mais belo. Impossível ouvi-lo e não lembrar de figuras com esse mesmo talento: Billie Holiday, Nick Drake, Van Morrison, etc.

“All Days Are Nights: Sogs for Lulu” é um disco que não pode ser esquecido ou ignorado.

All Days Are Nights: Sogs for Lulu

Who are you New York?
Sad with what I have
Martha
Give me what I want and give it to me now
True loves
When must I wink?
A woman’s face
Shame
The dream
What I would ever do with a rose?
Les feux d’artifice t’appellent
Zebulon

Zebulon, de Rufus Wainwright

Where you been, Zebulon?
What you doin' in this song?
Skating on the ice of song, about to go under

My mother's in the hospital, my sister's at the opera
I'm in love, but let's not talk about it
There's so much to tell you

I believe in freedom
Freedom's apparently all I need
But who's ever been free in this world?
Who has never had to bleed in this world?

All I need are your eyes
Your nose was always too big for your face
Still, it made you look kinda sexy
More like someone who belongs in the human race

Where you been, Zebulon?
Let's meet up, why not tonight?
In the lane behind the schoolyard
And we'll have some tea and ice cream

Rufus comenta o disco

4.7.10

Peça: 62. O Torcedor na Copa do Mundo

Para os torcedores do futebol diário, cotidiano, da arraia-miúda boleira, a Copa do Mundo tem por obrigação confirmar tendências, apresentar novidades, potencializar disputas, metaforizar a existência humana, as disputas territoriais, os movimentos bélicos e enxadristas, e outras tantas coisas mais.

No entanto, a Copa do Mundo não é apenas o alimento desse torcedor que rói as entranhas da madeira de um Corinthians X Flamengo ou de Potyguar X Santa Cruz. A Copa do Mundo é o ambiente do torcedor de futebol que não torce pelo futebol, e que por muitas vezes desconhece ou nem se interessa de fato pelo tal esporte bretão. O torcedor que a Copa do Mundo nos apresenta – especialmente o brasileiro – é aquele que se interessa muito mais pela festa, pela farra, pela agregação e pela vitória do que pelo jogo. Boa parte dos torcedores sazonais – de 4 em 4 anos é seu movimento de translação – não tem a menor ideia de quem é o atual campeão brasileiro de futebol ou mesmo quem são os campeões na história das copas.

O torcedor sazonal é sempre aquela figura ufanista que bota a mão no peito na hora do hino nacional e jura ódio eterno aos argentinos porque Galvão Bueno e seu pessoal manda fazer isso. É esse torcedor que pinta as unhas de verde e amarelo, que usa gritos de torcida como toque de chamada para o celular, que veste camiseta canarinho como grife e outros que tais.

Ao torcedor sazonal vale apenas a alegria, a festa da vitória. A tática, as soluções, o adversário ou o futebol são o que menos importa. Importa mesmo é gritar gol, beber cerveja, se reunir com os amigos, xingar o juiz, acreditar que o adversário é ridículo e que sempre houve injustiça nas derrotas brasileiras ou que o técnico é sempre o culpado – técnico que, antes de perder, é invariavelmente o sujeito que vai “resgatar a alma do futebol brasileiro”. Esse torcedor não que saber de bastidores, não repudia as figuras infecciosas do futebol, não sente raiva por quem deveria sentir.

Para dizer a verdade, não gosto do torcedor sazonal. Sinto-me agredido, usurpado, vilipendiado até, ao ver o torcedor sazonal roubar para si aquela que deveria ser a celebração de meu amor cotidiano pelo futebol. Claro, egoísmo de minha parte. Puro e simples. É o sentimento do jogador que se esforçou mais que todos nos treinamentos e que vê em seu lugar na hora do jogo alguém que faltou aos treinos e com seus compromissos. Mais terrível ainda: é ver esse jogador comemorar o gol que eu deveria ter marcado. E digo isso porque a impressão que me dá é a de que o torcedor sazonal se diverte e vive muito mais que eu esse momento sublime que é a Copa do Mundo. Talvez o torcedor sazonal compreenda melhor do que eu essa apoteose futebolística e do esporte como metáfora da humanidade.

Assim como não vibrei freneticamente com os gols brasileiros nesta copa, não chorei ao ver o Brasil ser eliminado pela Holanda. Em verdade, o primeiro comentário que fiz a minha esposa e repeti a minha mãe, logo após a partida foi: “venceu quem jogou melhor, quem mereceu. Perdemos esse jogo à época da convocação”. E, algumas horas mais tarde, pude compreender o quão sério e bem analisado era esse comentário. Essa sobriedade acabou comigo, pois eu preferia a agonia da derrota, o choro da decepção, a angústia de alguém que se porta como quem acabou de perder a mãe. Sobrou-me apenas o senso arrazoado, a tristeza resignada de quem gosta do futebol como esporte, como metáfora da vida.

E assim senti mais inveja e mais raiva do torcedor sazonal, a quem a distância do futebol arraia-miúda ainda permite enxergar com cegueira profunda as emoções – ainda que fabricadas – de um futebol que deveria ser meu.