
Ela vinha nos visitar sem avisos prévios, sem dias marcados. Aparecia e deixava-se estar, como quem nasce do nada. Como quem nascesse de uma concha em meio ao nada. Chegava sempre ao entardecer e jantava conosco nas primeiras horas de nossas noites potiguares em família. Havia para ela sempre um lugar e um carinho em nossa pequena casa no alto da ladeira da rua de barro.
A visita inesperada dormia sempre em meu quarto, numa cama estreita ao lado da minha. A pouca idade que ostentava àquele tempo era uma bandeira de meu corpo inofensivo.
Ao fim das noites, quando já deitado esperava meu sono tranqüilo de todas as crianças, via-a chegar. Ao primeiro movimento, tímido como todo bom menino, eu abandonava o quarto para que ela pudesse vestir suas roupas de sono, ainda que jamais me tivesse pedido. Minha imaginação do outro lado da porta engendrava geometrias para o corpo feminino ainda desconhecido para mim. Dava-lhe curvas e texturas à minha maneira, guiado sempre pelos meus primeiros desejos, pelos primeiros sinais de luxúria em meu corpo frágil.
Não me esconderia de minhas vontades para sempre. Não me escondi.
Vi-a chegar por entre a porta, girando levemente a maçaneta para não despertar a casa. Não disse nada, não dissemos. Vi-a tocar a ponta da blusa e logo seu corpo seminu. Mesmo sua pouca beleza era melhor que a geometria que criara. A cor seridoense da pele não encontrava nome em meus poucos conhecimentos. Vi-a vestir suas roupas de sono. Eu ainda menino, tão menino. Meu corpo frágil ainda, diante do corpo pronto de uma mulher às minhas vistas.
Ela sorriu e deitou-se. Não compartilhava de meus desejos, certamente. Abracei-a ainda antes do sono, sem motivo aparente. Meu corpo era uma única chaga aberta pelo desejo não correspondido. Seu corpo era meu desejo e não mais que isso. Abraçou-me com um carinho maternal do qual não precisava. Abracei-a como deve ter o primeiro homem abraçado Eva em sua primeira noite de sono, ao senti-la deitar a cabeça em seu peito. Desta vez, Eva sob o olhar inquieto de uma lanterna colorida de papel, à moda das lanternas chinesas, que sempre iluminara meu quarto.
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*in A Casa Miúda. A imagem é do Klimt
A visita inesperada dormia sempre em meu quarto, numa cama estreita ao lado da minha. A pouca idade que ostentava àquele tempo era uma bandeira de meu corpo inofensivo.
Ao fim das noites, quando já deitado esperava meu sono tranqüilo de todas as crianças, via-a chegar. Ao primeiro movimento, tímido como todo bom menino, eu abandonava o quarto para que ela pudesse vestir suas roupas de sono, ainda que jamais me tivesse pedido. Minha imaginação do outro lado da porta engendrava geometrias para o corpo feminino ainda desconhecido para mim. Dava-lhe curvas e texturas à minha maneira, guiado sempre pelos meus primeiros desejos, pelos primeiros sinais de luxúria em meu corpo frágil.
Não me esconderia de minhas vontades para sempre. Não me escondi.
Vi-a chegar por entre a porta, girando levemente a maçaneta para não despertar a casa. Não disse nada, não dissemos. Vi-a tocar a ponta da blusa e logo seu corpo seminu. Mesmo sua pouca beleza era melhor que a geometria que criara. A cor seridoense da pele não encontrava nome em meus poucos conhecimentos. Vi-a vestir suas roupas de sono. Eu ainda menino, tão menino. Meu corpo frágil ainda, diante do corpo pronto de uma mulher às minhas vistas.
Ela sorriu e deitou-se. Não compartilhava de meus desejos, certamente. Abracei-a ainda antes do sono, sem motivo aparente. Meu corpo era uma única chaga aberta pelo desejo não correspondido. Seu corpo era meu desejo e não mais que isso. Abraçou-me com um carinho maternal do qual não precisava. Abracei-a como deve ter o primeiro homem abraçado Eva em sua primeira noite de sono, ao senti-la deitar a cabeça em seu peito. Desta vez, Eva sob o olhar inquieto de uma lanterna colorida de papel, à moda das lanternas chinesas, que sempre iluminara meu quarto.
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*in A Casa Miúda. A imagem é do Klimt