30.3.09

Peça: 49. O Retrato de Um Cão Furioso

O cão furioso finalmente pesa-lhe sob as patas, atira-o ao chão. A mandíbula voraz enche-lhe o focinho irascível e faz jorrar sangue sobre si, sobre sua vítima. As patas pesam como o corpo de um elefante em mármore, esmagam-lhe a ossatura frágil, sua musculatura cede como de espuma. A boca infernal morde-lhe, arranca-lhe os membros, chafurda entre seus intestinos. O cão furioso devora-lhe centímetro após centímetro, ao avesso, de dentro para fora.

23.3.09

Peça: 48. O Poema (ou A Criação do Poema)

construto
em pedra bruta
a mão crua
tece
lima
brita
o verso

dá-lhe
cores novas
uma tessitura
cremosa
e inútil:

como uma
alma em ferrugem
ou
o ventre de um besouro.

20.3.09

uma segunda casa

o amigo thiago leite me convidou para participar de um blogue em que se publicam textos curtinhos. gostei da casa. posso também ser encontrado por lá agora.

o endereço é: pequenitudes

10.3.09

Peça: 47. Uma Paisagem Curraisnovense

pedra do caju II

sob o sol
um caju de manhã
aplaca a fome

fim de tarde
e a sombra constrói
a cara de um homem.


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a foto da pedra do caju, no sítio totoró, é do site www.cnagitos.com

3.3.09

Peça: 46. Outra Página de Um Caderno de Viagens

O tempo não há de durar. Mal sobrevivo aos dias e, por certo, não estenderei esta luta inglória. As ruas são cada vez mais escuras e mesmo o dia, sob este calor infernal, não é capaz de mostrar uma luz entre nuvens, ainda que haja sol.

Meus olhos estão confusos e não saberei dizer agora se é o corpo desta cidade ou a anatomia cansada de mim que desmorona esquina por esquina.

Somos feitos de becos, ela e eu.

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a foto, obviamente, é do Sebastião Salgado