25.2.09

às vezes estamos tão perdidos que não há nada a escrever. mesmo o que já está escrito não nos diz nada.

paciência.

19.2.09

Peça: 45. Outra Página do Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis

um fim de tarde


aos pés da noite

a tarde

descansa

sua musculatura

cansada

erigida em

fogo

e

espuma -

como um cão

feito

de nuvens

ou uma alegria

feita

de tempo

11.2.09

Peça: 44. O Índice do Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis

índice:

este pequeno manual contém estas coisas
de pouca ou nenhuma utilidade:

1. o tempo

2. 8 ou 9 anos
vividos em 12 ou 13 dias

3. 12 ou 13 ou dias
vividos neste mês de junho

4. as fotos da menina morta
e do cachorro jalidisse ao seu lado

5. uma mecha de pêlos pubianos
da menina louca que beijou meu primeiro corpo

6. algumas memórias inventadas

7. algumas memórias esquecidas

8. as flores murchas
depostas aos pés de meu pai

9. meus amigos imaginários
e suas cartas a mim endereçadas

10. a lista dos 107 melhores filmes
que jamais vi ou verei

11. todos os sonhos em que eu acordava
dizendo "sim, fellini"

12. o sorriso de melinda

13. uma lágrima de melinda

14. um bilhete escrito por minha mãe
em que ela assina como meu pai

15. meu caderno de desenhos inúteis
em que a primeira página é o retrato de uma porta fechada

16. a invenção de meu esquecimento

17. dois livros de etiqueta e códigos de comportamento social
que jamais li, lerei ou mesmo tenha cogitado ler

18. poeira

19. a cor amarela

20. a minha ausência perene

21. um pente de osso

22. um espaço entre a palavra "fim" e seu ponto final.

5.2.09

Peça: 43. As Tardes de Futebol

Os onze soldados de armadura listrada invadiam o campo de lutas, o gramado sofrido das batalhas. Carregavam nos pés suas armas lustradas, de um negro indefectível, de uma precisão inequívoca. Nós, espectadores do combate, recebíamos nossos soldados sob aplausos calorosos e nossos inimigos, sob vaias desconcertantes. Éramos poucas dezenas, menos de uma centena, por certo. Mas ninguém era mais fiel que nós.

Nos tempos de minha infância, era assim que via o Portyguar entrar em campo, impávido. Era assim que eu via a camisa imponente de Valderi, com seus gols de cabeça, com sua habilidade incomum. O mesmo Valderi que eu via bater bola com os meninos de uma rua próxima da minha. Era assim que eu via a rebeldia cerebral e etílica do jovem Paulinelly, melhor que Sócrates, que Mário Sérgio, afogado em garrafas de cachaça. Era assim que eu via Ossada sob as traves, certamente o maior goleiro de todos os tempos: maior que Yashin, Dassaev, Taffarel ou Barbosa. Ossada, que vestia negro no campo de guerra, a cor do algoz sem misericórdia debaixo dos postes, e que hoje atende pelo nome burocrático de Givanildo e trabalha medindo terras para a prefeitura: a inglória recompensa dos heróis vivos após o combate.


O tempo e o olhar de quem cura a febre com banho gelado tiraram de mim a inocência que o futebol me oferecia nos tempos de criança. As tardes de domingo passadas no estádio Coronel José Bezerra – que triste nome para um campo de alegrias e batalhas honestas – não se repetirão, jamais terão o mesmo fervor, a mesma alegria. Hoje a crônica futebolística me atrai muito mais que o esporte, para minha tristeza. Gostava da época em que se dizia “jogo de bola”, não “esporte”. A alegria irresponsável daqueles rapazes que punham em campo a miudeza de seus destinos, a alegria de suas infâncias sem peso.


Meus amigos e eu brincávamos na rua, jogávamos nos nossos campos de terra a magia de nossos heróis. Eu, um cruel tratante da bola, era designado para as metas. E que lições de sofrimento e redenção pude tirar daquela área inglória do campo! Não éramos jogadores milionários, não vestíamos camisas de longe, não queríamos as seleções burocráticas: queríamos repetir as tardes fervorosas de Potyguar e Cruzeiro, um clássico currais-novense infinitamente maior que os Fla-flus de Nelson Rodrigues, que os Corinthians-Palmeiras de Alberto Helena, que os Gre-nais de Eduardo Bueno.


Quem nunca viu uma peleja de guerra e sorte numa tarde perdida no tempo, sob o sol currais-novense do estádio Coronel José Bezerra, não sabe o que é o futebol por inteiro. Quem não viu Belarmino suceder Ossada na crueldade das traves, quem não viu a aposentadoria ainda em campo de Valderi, quem não assistiu aos longos zero-a-zeros de nossas jornadas futebolísticas não compreenderá jamais este relato. Ou compreenderá, dada a glória da camisa do Leão do Seridó? Tem de compreender.


Hoje não ouso mais ir ao estádio. Abandonei a visão privilegiada ao lado das cabines de rádio, abandonei o cheiro de éter que ascendia dos vestiários no intervalo das contendas, abandonei a alegria daquelas tardes lançadas nos álbuns de fotografia de minha memória claudicante. É minha despedida do campo, das arquibancadas, saudosa despedida.


Minha infância e memória me presentearam com as mais lindas pelejas que o futebol já testemunhou. O futebol e nossa dezena de torcedores, fiéis, nas arquibancadas dos anos 80 e começo dos 90. Agora o árbitro pode erguer a mão e apontá-la para o meio de campo: a partida está encerrada e o futebol foi quem perdeu.

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A foto do Estádio Cel. José Bezerra em dia de Potyguar
é do blogue www.escretedeouro.blogspot.com