11.11.09

Peça: 60. A Máquina de Avessar os Dias de Minha Avó

minha avó
inventou uma máquina
de avessar os dias:

antes de sua morte
pôs-se a engendrar
memórias
xxxxxxx - gente com asas
xxxxxxx - estranhas histórias do tempo
xxxxxxx - cães de nomes improváveis
xxxxxxx xxxxxxx xxxxxxx xxxxxxx e lindos

eliminou
de seus dias as
pessoas reais -
xxxxxxx que pode
xxxxxxx haver de mais tedioso
xxxxxxx que gente
xxxxxxx concreta
xxxxxxx ou tijolos e barro e pedras?

minha avó
xxxxxxx com sua máquina de
xxxxxxx avessar os dias
acordava
a casa no meio da noite
ironizava
a invenção do vento
esquecia
os nomes inúteis das filhas
recriava
o absurdo nãolinear do tempo.

era uma máquina
de costurar avessos -
retalhos
coloridos do tempo:

guardei-a para mim
xxxxxxx - minha avó
xxxxxxx e sua máquina de aventuras -
para usá-la
quando for
meu tempo.

_______________________________________________
Em sinal de luto, as portas e cortinas deste museu estão cerradas, assim como eu. Um dia voltaremos.

23.10.09

Peça: 59. O Avesso da Memória

mas
não recordar o nome deste animal
que conheço?

xxxxxxxx<< a dureza de sua carne
xxxxxxxx<< a hirteza de seu pelo

mas
qual é o nome deste
animal
que conheço?

xxxxxxxx<< a ferrugem de sua mandíbula
xxxxxxxx<< a aspereza de sua ossatura

tendão
por
tendão
que devora

xxxxxxxx<< a lentidão de seu passo
xxxxxxxx<< a angústia de sua fome

sua
vítima dos intestinos
para fora:
um câncer

xxxxxxxx<< a robustez de suas patas
xxxxxxxx<< a escuridão de seus destinos

mas
não recordar o nome deste
animal
que fui?

12.10.09

Peça: 58: A Anatomia do Espelho

fenece
a musculatura de minhas
sensações

enverga
o esqueleto de minhas
esperanças

o corpo
servil de que sou feito
degenera
diante do espelho

a máscara
tênue da face imemorial
esmaece
frente à casa miúda

xxxxxxxhomem
xxxxxxxpersona
xxxxxxxmemória

xxxxxxxquem,
pergunta
xxxxxxxa voz

xxxxxxxquem?

21.9.09

Peça: 57. O Avesso dos Dias

de que matérias
se constrói um dia?

quanto de
aço vidro concreto madeira
é necessário para
erguer
as paredes sólidas
de um dia?
xxxxx- 24 horas
xxxxx que descabem nos dedos.

não sei.

quero antes
a matéria negra de seu
avesso
as iluminuras de seu
avesso
xxxxx - a palavra nenúfares
xxxxx - as chuvas insólitas de janeiro
xxxxx - a ausência dos carros na madrugada
xxxxx - os céus isentos de aviões e impostos
xxxxx - a lama
xxxxx - o cadáver já frio dos relógios

de que matérias
se constrói um dia -
um mísero número
no calendário silencioso?

não sei:
só dos dias o
avesso
me comove.

5.9.09

Entrevista

Esta é uma entrevista que respondi para o site do Franklin Jorge (que tem link aqui ao lado). Ela nunca foi publicada lá, mas para não alimentar uma ausência ainda maior aqui no museu, resolvi mostrá-la.



NOME Theo G. Alves
DADOS BIOGRÁFICOS escritor, professor, revisor, redator e inventor de coisas inúteis

QUESTIONÁRIO

Quando nasceu?
Em um dia de dezembro, 14 para ser mais preciso, em 1980

Onde?
Nasci em Natal


Como se chamam seus pais?
Só tenho mãe. Mães, aliás: Socorro, Guilhermina, Eurides e Elza

De onde são?
Gente de Currais Novos, da Mina Brejuí e Sítio Jurupaiti

O que você herdou do seu pai?
Inicialmente certo rancor, depois disso uma vontade tranqüila de não o encontrar, de não ser encontrado

E de sua mãe?
Muito. Especialmente de minha avó, de quem tenho o humor e a ironia. Muitos valores morais que tento honrar, nem sempre com sucesso, também me foram entregues por elas.

Dê-me fatos para esclarecimento de heranças.
O esquecimento é minha melhor qualidade. Passei anos sem falar com um amigo de escola e um dia ele me pediu desculpas pelo que me tinha feito e eu pude perdoá-lo verdadeiramente, pois já não me lembrava do que ele fizera, ou mesmo se me tinha feito alguma coisa.

Quem é você?
Eu sou ninguém na maior parte do tempo. Mas às vezes também sou outras coisas. Coisas de fato. Uma vez acreditei ser Dom Quixote, mas nunca Don Alonso Quijano.

Mais fatos.
Me agrada faltar a solenidades, me agrada quando alguém finge lembrar quem sou, quando esquecem meu nome. E tenho certo prazer em não constranger as pessoas publicamente quanto a isso.

E sua infância?
Minha lembrança mais viva de infância é minha avó me levando para brincar na areia do Rio Seridó. Também me lembro de como ela me ensinou a dizer a palavra “tigre”

Como brincava?
Só. Gostava de ter os amigos por perto apenas por pouco tempo, depois levava os carrinhos para longe, alegava que meus personagens iam viajar. Às vezes eu voltava, noutras eu me esquecia.

Quando deixou sua terra?
Nunca tive um lugar para um dia poder deixá-lo

Que coisas tem feito?
Umas coisas inúteis: literatura, por exemplo. Trabalho feito um escravo, ganho como um escravo. Tenho sido feliz. Vejo filmes. Ouço menos música do que gostaria. Quase não tenho lido, o que muito me maltrata. Mas tenho, sobretudo, tentado ser uma pessoa melhor por mim, minha esposa e minha filha.

20.8.09

Peça: 56. Uma Memória do Futuro Antigo

mateus, 9:29.

– então ele tocou-lhes nos olhos, dizendo: seja-vos feito segundo vossa fé.


ao fim da tarde, displicência de sol-posto, minha avó olhava o tempo e pregava:

“relampejando...”

lacônica, não era a mim que falava, mas a si mesma. continuava:

“bonito. daqui uns dias, vai chover...”

e eu pensava na beleza de um dia de chuva, na beleza maior de um dia de chuva. eu acreditava.depois de uns dias, às vezes dois ou três, outras vezes duzentos ou trezentos, chovia. sob o sorriso de minha avó, lacônica, dizendo:

“eu sabia...”

minha fé nunca precisou de mais que isso.

13.8.09

Peça: 55. De Um LIvro À Estante


Com certa tristeza devolvo à estante um livro do José Gomes Ferreira, cuja poesia humana e viril faz conforto a quem sou, a quem creio ser.

Com certa tristeza devolvo à estante o livro do Zé Gomes, a quem reencontrarei (o livro, por óbvio, não o Zé) sempre de passagem e brevemente, como quem reencontra um amigo de longo tempo em uma esquina currais-novense e que se não pode demorar porque a velocidade do dia não lhe permite viver decentemente.

E como a este amigo reencontrado, direi distraidamente: não percebera o quanto senti saudades suas. E voltarei a andar, pelas ruas ou pelas estantes-livrarias-bibliotecas, apressadamente, mas com o coração cheio e reanimado.
_____________________________
E se não é a cara do Zé Gomes aí na foto!

5.8.09

Peça: 54. Duas Estórias

pacto

- ofereço minha alma a ti, senhor das moscas, pai de todo o mal, em troca de toda fortuna que um homem pode ter.

- infelizmente sua proposta não foi aceita. nesses tempos de crise, meu caro, temos de ser muito seletivos com nossos novos negócios.



heideggeriano


- para o Thiago, depois de uma boa conversa sobre criação e silêncio


Angustiado, empunhou o telefone. Ela atendeu. Ele não disse nada. O telefone mudo, assim como seu coração.
___________________________________
Essas estorietas foram publicadas no Pequenitudes e agora são parte de minha quarta-feira adoentada e modorrenta.
O quadro é "Agonia", do Schiele

30.7.09

Peça: 53. O insone

A caneca quase transbordava de um café frio e amargo. Não dormiria outra vez, como já não dormia há anos: sem sherazades, sem grandes aventuras. Insone, reconstruindo a memória de seus dias, nada mais. E assim seria, será. Até sua última noite, que talvez não chegue jamais.

28.7.09

Blog de Ouro


Recebi de Miss Eme, do Espartilho de Eme, a honraria de ter o Museu como Blog de Ouro.


E obedecendo as regras da premiação, lá vai:

1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”;

2. Poste o link do blog de quem te indicou;

3. Indique 4 blogs de sua preferência;

4. Avise seus indicados;

5. Publique as regras;

6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo.


Os meus indicados são:





24.7.09

EXPOSIÇÕES NO MUSEU: Antony & The Johnsons: The Crying Light


Em meio a tantas sensaborias, ouvir a música autoral e dramática de Antony & The Johnsons é algo de que não nos devemos privar. Há quem ache sua carga dramática excessiva, há quem ache que sua música é sublime. Particularmente, sinto a música de A&J como um retrato dos que não conseguem se perceber num mundo confuso e caótico que, paradoxalmente, requer regras de conduta e receitas de fácil execução para tudo.


Em seu novo disco, The Crying Light, A&J há esperança, medo e beleza a cada acorde. Não é possível tirar os ouvidos e atenções mais demoradas da voz de Antony, sentir nela a presença de Nina Simone e Jeff Buckley, perceber como seu dono soube trabalhá-las até que se tornassem algo novo em sua garganta. A poesia de Antony, que remete a Poe, Rimbaud e Baudelaire, é também peculiar, especialmente no que chamam hoje de nomes confusos e de pouca significância, como “pop”, “indie” ou “alternativo”.


A morte, os mortos, a infância, a esperança, o desespero a sensação de estar-se perdido, tudo compõe a poesia de Antony. O ar soturno e dramático de discos como I Am a Bird, anterior a The Crying Light, permanece, desta vez trabalhado com mais sutileza e mais “luz”: uma vela num profundo posso de horrores.


Tenho a sensação de que a música de A&J encontra-se no nível em que a melancolia e tristeza presentes foram sublimadas, transformando-as em beleza e a arte: uma tristeza que não adoece, que comove e alegra por ter se tornado mais que apenas dor.

As canções:

THE CRYING LIGHT

1. Her Eyes Are Underneath The Ground

2.Epilepsy is Dancing

3. One Dove

4. Kiss My Name

5. The Crying Light

6. Another World

7.Daylight and the Sun

8. Aeon

9. Dust and Water

10. Everglade



Kiss my name


Kiss my name
Mama in the afterglow
When the grass is green with grow
And my tears have turned to snow


I’m only a child
Born upon a grave
Dancing through the stations
Calling out my name


Oh mama kiss my name
I am trying to be sane
I’m trying to kiss my friends
And when broken, make amends


Kiss my name, the curtains white
The turtle doves embroider light
As I lie, murdered in ground
The rain compacting sodden sound
Of songs I sang the years before
When it was time to rain
Upon the coal that I became

21.7.09

Currais Novos vista de longe

Sempre acreditei carregar o Seridó em mim, filho pretensioso: pele, veias, músculos, intestinos. Mas se o Seridó sou eu, por que me faço tanta falta agora?

22.5.09

Peça: 52. A Primeira Vez Em Que Vi Eva*


Ela vinha nos visitar sem avisos prévios, sem dias marcados. Aparecia e deixava-se estar, como quem nasce do nada. Como quem nascesse de uma concha em meio ao nada. Chegava sempre ao entardecer e jantava conosco nas primeiras horas de nossas noites potiguares em família. Havia para ela sempre um lugar e um carinho em nossa pequena casa no alto da ladeira da rua de barro.
A visita inesperada dormia sempre em meu quarto, numa cama estreita ao lado da minha. A pouca idade que ostentava àquele tempo era uma bandeira de meu corpo inofensivo.
Ao fim das noites, quando já deitado esperava meu sono tranqüilo de todas as crianças, via-a chegar. Ao primeiro movimento, tímido como todo bom menino, eu abandonava o quarto para que ela pudesse vestir suas roupas de sono, ainda que jamais me tivesse pedido. Minha imaginação do outro lado da porta engendrava geometrias para o corpo feminino ainda desconhecido para mim. Dava-lhe curvas e texturas à minha maneira, guiado sempre pelos meus primeiros desejos, pelos primeiros sinais de luxúria em meu corpo frágil.
Não me esconderia de minhas vontades para sempre. Não me escondi.
Vi-a chegar por entre a porta, girando levemente a maçaneta para não despertar a casa. Não disse nada, não dissemos. Vi-a tocar a ponta da blusa e logo seu corpo seminu. Mesmo sua pouca beleza era melhor que a geometria que criara. A cor seridoense da pele não encontrava nome em meus poucos conhecimentos. Vi-a vestir suas roupas de sono. Eu ainda menino, tão menino. Meu corpo frágil ainda, diante do corpo pronto de uma mulher às minhas vistas.
Ela sorriu e deitou-se. Não compartilhava de meus desejos, certamente. Abracei-a ainda antes do sono, sem motivo aparente. Meu corpo era uma única chaga aberta pelo desejo não correspondido. Seu corpo era meu desejo e não mais que isso. Abraçou-me com um carinho maternal do qual não precisava. Abracei-a como deve ter o primeiro homem abraçado Eva em sua primeira noite de sono, ao senti-la deitar a cabeça em seu peito. Desta vez, Eva sob o olhar inquieto de uma lanterna colorida de papel, à moda das lanternas chinesas, que sempre iluminara meu quarto.

_______________________________
*in A Casa Miúda. A imagem é do Klimt

5.5.09

Peça: 51. O Avesso das Coisas

o corpo íntimo das coisas
compõe seus
avessos:
XXXXXcomo o ventre mineral
de uma pedra
XXXXXcomo a musculatura em farrapos
de uma porta.

o avesso das coisas
é a natureza
de suas verdades -
XXXXXcomo as raízes frágeis
de uma nuvem
XXXXXcomo os ossos rijos
de uma parede.

XXXXXo útero
XXXXXos músculos
XXXXXintestinos
XXXXXe ossos
das coisas expostos
constroem seus avessos:
XXXXXcomo as nuvens
do ventre de um cão
XXXXXcomo o concreto
do ventre de uma casa.

20.4.09

Peça: 50. O Avesso da Triste Figura

às
5 da manhã
o quixote me desperta:

sua triste figura
e sua cavalaria
são
o avesso
de sua fealdade
e inépcia.

às
5 da manhã
o dia começa

por seu inverso -
avesso -
inverno temporão
das madrugadas
de janeiro.

e
o quixote
batendo às portas
de meu sono:

dulcinéa na ribanceira
de seu cavalo sem asas
e as raízes da noite
feitas pó
sob meus olhos
de madeira

13.4.09

Um Poema de Walt Whitman

Quem visita este museu sabe que não costumo publicar textos de outras pessoas, mas hoje abro uma exceção. Um poema de Walt Whitman que revela um tanto da esperança e beleza que tanto aprecio.

As Adam, Early In The Morning

AS Adam, early in the morning,
Walking forth from the bower, refresh'd with sleep;
Behold me where I pass--hear my voice--approach,
Touch me--touch the palm of your hand to my Body as I pass;
Be not afraid of my Body.

- Walt Whitman

30.3.09

Peça: 49. O Retrato de Um Cão Furioso

O cão furioso finalmente pesa-lhe sob as patas, atira-o ao chão. A mandíbula voraz enche-lhe o focinho irascível e faz jorrar sangue sobre si, sobre sua vítima. As patas pesam como o corpo de um elefante em mármore, esmagam-lhe a ossatura frágil, sua musculatura cede como de espuma. A boca infernal morde-lhe, arranca-lhe os membros, chafurda entre seus intestinos. O cão furioso devora-lhe centímetro após centímetro, ao avesso, de dentro para fora.

23.3.09

Peça: 48. O Poema (ou A Criação do Poema)

construto
em pedra bruta
a mão crua
tece
lima
brita
o verso

dá-lhe
cores novas
uma tessitura
cremosa
e inútil:

como uma
alma em ferrugem
ou
o ventre de um besouro.

20.3.09

uma segunda casa

o amigo thiago leite me convidou para participar de um blogue em que se publicam textos curtinhos. gostei da casa. posso também ser encontrado por lá agora.

o endereço é: pequenitudes

10.3.09

Peça: 47. Uma Paisagem Curraisnovense

pedra do caju II

sob o sol
um caju de manhã
aplaca a fome

fim de tarde
e a sombra constrói
a cara de um homem.


_________________________________
a foto da pedra do caju, no sítio totoró, é do site www.cnagitos.com

3.3.09

Peça: 46. Outra Página de Um Caderno de Viagens

O tempo não há de durar. Mal sobrevivo aos dias e, por certo, não estenderei esta luta inglória. As ruas são cada vez mais escuras e mesmo o dia, sob este calor infernal, não é capaz de mostrar uma luz entre nuvens, ainda que haja sol.

Meus olhos estão confusos e não saberei dizer agora se é o corpo desta cidade ou a anatomia cansada de mim que desmorona esquina por esquina.

Somos feitos de becos, ela e eu.

_____________________________
a foto, obviamente, é do Sebastião Salgado

25.2.09

às vezes estamos tão perdidos que não há nada a escrever. mesmo o que já está escrito não nos diz nada.

paciência.

19.2.09

Peça: 45. Outra Página do Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis

um fim de tarde


aos pés da noite

a tarde

descansa

sua musculatura

cansada

erigida em

fogo

e

espuma -

como um cão

feito

de nuvens

ou uma alegria

feita

de tempo

11.2.09

Peça: 44. O Índice do Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis

índice:

este pequeno manual contém estas coisas
de pouca ou nenhuma utilidade:

1. o tempo

2. 8 ou 9 anos
vividos em 12 ou 13 dias

3. 12 ou 13 ou dias
vividos neste mês de junho

4. as fotos da menina morta
e do cachorro jalidisse ao seu lado

5. uma mecha de pêlos pubianos
da menina louca que beijou meu primeiro corpo

6. algumas memórias inventadas

7. algumas memórias esquecidas

8. as flores murchas
depostas aos pés de meu pai

9. meus amigos imaginários
e suas cartas a mim endereçadas

10. a lista dos 107 melhores filmes
que jamais vi ou verei

11. todos os sonhos em que eu acordava
dizendo "sim, fellini"

12. o sorriso de melinda

13. uma lágrima de melinda

14. um bilhete escrito por minha mãe
em que ela assina como meu pai

15. meu caderno de desenhos inúteis
em que a primeira página é o retrato de uma porta fechada

16. a invenção de meu esquecimento

17. dois livros de etiqueta e códigos de comportamento social
que jamais li, lerei ou mesmo tenha cogitado ler

18. poeira

19. a cor amarela

20. a minha ausência perene

21. um pente de osso

22. um espaço entre a palavra "fim" e seu ponto final.

5.2.09

Peça: 43. As Tardes de Futebol

Os onze soldados de armadura listrada invadiam o campo de lutas, o gramado sofrido das batalhas. Carregavam nos pés suas armas lustradas, de um negro indefectível, de uma precisão inequívoca. Nós, espectadores do combate, recebíamos nossos soldados sob aplausos calorosos e nossos inimigos, sob vaias desconcertantes. Éramos poucas dezenas, menos de uma centena, por certo. Mas ninguém era mais fiel que nós.

Nos tempos de minha infância, era assim que via o Portyguar entrar em campo, impávido. Era assim que eu via a camisa imponente de Valderi, com seus gols de cabeça, com sua habilidade incomum. O mesmo Valderi que eu via bater bola com os meninos de uma rua próxima da minha. Era assim que eu via a rebeldia cerebral e etílica do jovem Paulinelly, melhor que Sócrates, que Mário Sérgio, afogado em garrafas de cachaça. Era assim que eu via Ossada sob as traves, certamente o maior goleiro de todos os tempos: maior que Yashin, Dassaev, Taffarel ou Barbosa. Ossada, que vestia negro no campo de guerra, a cor do algoz sem misericórdia debaixo dos postes, e que hoje atende pelo nome burocrático de Givanildo e trabalha medindo terras para a prefeitura: a inglória recompensa dos heróis vivos após o combate.


O tempo e o olhar de quem cura a febre com banho gelado tiraram de mim a inocência que o futebol me oferecia nos tempos de criança. As tardes de domingo passadas no estádio Coronel José Bezerra – que triste nome para um campo de alegrias e batalhas honestas – não se repetirão, jamais terão o mesmo fervor, a mesma alegria. Hoje a crônica futebolística me atrai muito mais que o esporte, para minha tristeza. Gostava da época em que se dizia “jogo de bola”, não “esporte”. A alegria irresponsável daqueles rapazes que punham em campo a miudeza de seus destinos, a alegria de suas infâncias sem peso.


Meus amigos e eu brincávamos na rua, jogávamos nos nossos campos de terra a magia de nossos heróis. Eu, um cruel tratante da bola, era designado para as metas. E que lições de sofrimento e redenção pude tirar daquela área inglória do campo! Não éramos jogadores milionários, não vestíamos camisas de longe, não queríamos as seleções burocráticas: queríamos repetir as tardes fervorosas de Potyguar e Cruzeiro, um clássico currais-novense infinitamente maior que os Fla-flus de Nelson Rodrigues, que os Corinthians-Palmeiras de Alberto Helena, que os Gre-nais de Eduardo Bueno.


Quem nunca viu uma peleja de guerra e sorte numa tarde perdida no tempo, sob o sol currais-novense do estádio Coronel José Bezerra, não sabe o que é o futebol por inteiro. Quem não viu Belarmino suceder Ossada na crueldade das traves, quem não viu a aposentadoria ainda em campo de Valderi, quem não assistiu aos longos zero-a-zeros de nossas jornadas futebolísticas não compreenderá jamais este relato. Ou compreenderá, dada a glória da camisa do Leão do Seridó? Tem de compreender.


Hoje não ouso mais ir ao estádio. Abandonei a visão privilegiada ao lado das cabines de rádio, abandonei o cheiro de éter que ascendia dos vestiários no intervalo das contendas, abandonei a alegria daquelas tardes lançadas nos álbuns de fotografia de minha memória claudicante. É minha despedida do campo, das arquibancadas, saudosa despedida.


Minha infância e memória me presentearam com as mais lindas pelejas que o futebol já testemunhou. O futebol e nossa dezena de torcedores, fiéis, nas arquibancadas dos anos 80 e começo dos 90. Agora o árbitro pode erguer a mão e apontá-la para o meio de campo: a partida está encerrada e o futebol foi quem perdeu.

______________________________

A foto do Estádio Cel. José Bezerra em dia de Potyguar
é do blogue www.escretedeouro.blogspot.com

26.1.09

Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis


Edições Flor do Sal convidam para o lançamento do livro Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis, do poeta Theo G. Alves, dia 3 de fevereiro, a partir das 18h, no Nalva Melo Salão Café (Av. Duque de Caxias, 110 - Ribeira, ao lado do jornal Tribuna do Norte).

21.1.09

Uma Homenagem Ímpar

Ainda não tenho muitas palavras que agradeçam o carinho e a generosidade de Iara, recebidos no que ela escreveu a respeito de alguns de meus poemas e de mim.

Por isso, apenas agradeço repetidamente.


Aqui está o que ela escreveu:

http://casaraodepoesia.blogspot.com e aqui também http://colunas.digi.com.br/iara/theo-e-a-invencao-das-coisas

18.1.09

Exposição: Win Mertens, After Virtue

A peça de hoje não traz comentários, dados relevantes ou análises musicais. É uma indicação, uma sugestão: um disco que está entre os meus favoritos, dentre tudo o que é música neste mundo. Win Mertens, compositor belga, dono de uma obra que ultrapassa os 70 álbuns e que me comove especialmente com este After Virtue, de 1988. Não se deve ir embora deste mundo sem ouvi-lo.

As virtudes:
1. Justice
2. Prudence
3. Temperance
4. Courage
5. Humility
6. Faith
7. Hope
8. Charity

http://www.amazon.com/After-Virtue-Wim-Mertens/dp/B0012OVELM
_____________________________________________________________
Agradeço ao meu amigo Denis, que há alguns anos, me apresentou esse disco. Este é também um pedido de desculpas por ter sido tão relapso com meus amigos a quem tanto amo.

7.1.09

Discutindo a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa

É verdade que as coisas mudam e que não é possível parar no tempo sem ser atropelado pelo caminhão das horas. A língua é, por natureza, um construto humano, uma ferramenta de comunicação social e por isso fadada a mudar continuamente. Dessa forma, querer barrar as mudanças de uma língua – dentro de si mesma e a partir de suas várias linguagens possíveis – é sempre uma tentativa vã.

Outra verdade indiscutível é que a língua muda primeiro na boca de seus falantes, que é dinâmica, viva e instável. A língua escrita é imóvel, um latifúndio, ainda que produtivo. Na modalidade escrita as mudanças são lentas, muito lentas, embora sejam cada vez mais freqüentes. Seria absurdo escrever hoje uma carta para um amigo distante como Caminha escreveu para El-Rei. Escrever uma carta nestes tempos de e-mails, messengers e celulares já parece por si só um absurdo. É por isso que as mudanças que a língua sofre na rua, em casa, nos bares, nas escolas, etc., chegam muito tardiamente aos documentos escritos. Em verdade, são sempre inovações velhas.

Foi dado início ao processo de padronização da escrita em todos os países de expressão portuguesa: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor Leste e São Tomé e Príncipe. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, nome oficial do documento, começou a ser discutido ainda em 1990 e só agora recebeu anuência por parte dos integrantes do pequeno grupo de lusófonos (com o perdão da má palavra) mundo afora. Esta mudança é menos radical e traumática que outras, como a de 1971, no entanto o acesso às mídias e a discussão do tema parecem ter ampliado a repercussão dos fatos.

Segundo as estatistícas divulgadas pela Folha de São Paulo, as alterações não devem atingir mais que 2% do vocabulário da língua portuguesa, no entanto há mudanças que poderão ser sentidas de forma muito direta, como nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas (“assembléia” e “panacéia”, por exemplo, passarão a ser “assembleia” e “panaceia”). Há também a oficialização de mudanças que já ocorreram na escrita do dia-a-dia, caso da abolição oficial do trema (o que não quer dizer que quem comeu “lingüiça” a vida inteira vá precisar mudar a maneira de falar ao pedir o prato numa churrascaria).

Um dos pontos a serem discutidos sobre a reforma é sua utilidade, bem como sua necessidade. O argumento – para não chamar de desculpa – para justificar a mudança é que a uniformização da língua permitirá uma troca de informações maior entre os países que falam português. Mas não há quem me faça crer que o fluxo de informações aumentará porque, tanto brasileiros quanto portugueses, por exemplo, terão um mesmo “objetivo”, em vez de um deles ter um “objectivo” próprio. Para mim, a desculpa é fraca.

Imagina-se que as mudanças precisem de pelo menos mais dois anos para serem absorvidas pelo mercado editorial, mas na prática algumas delas já estão em uso, outras jamais estarão. E, podem ter certeza, a língua pode ser a mesma, mas a linguagem jamais será: brasileiros, portugueses, angolanos, cabo-verdianos, etc., têm cada um sua própria lógica, sua maneira peculiar de pensar e arrumar a língua. E não há reforma que ponha abaixo a diversidade cultural.