9.2.07

Peça: 31: Todo Sempre É Por Agora

Todo sempre é por agora. E a hora inevitável é sempre esta e esta e nunca outra e não a próxima. A hora inevitável, por ora, este caminho de tempo feito de estrelas e pó, de miudezas e esquecimento.

A boca semi-aberta pelo tempo ainda rebrilha como a chaga recém aberta a brotar sangue jovem e ainda viscoso. O tempo é este relógio morto à faca na calçada de casa às quatro horas da manhã. Já quase arborecia um sol de raízes secas e voláteis. As raízes em barro seco são para sempre efêmeras como a voz dos galos.

Todo sempre é por agora como foi infinito o dia de ontem, a hora vazia dos relógios moles de Dali e a mala ainda não feita de Álvaro de Campos: o cansaço do corpo finito no tempo infinito de agora.


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Aproveito para agradecer ao Milton Ribeiro por ter me enviado o famoso questionário do Proust e por ter publicado minhas simplórias respostas em seu espaço, que é dos melhores do universo dos blogues.

29.1.07

Peça: 30. Uma Primeira Lembrança

Hoje algumas de minhas primeiras lembranças me afligem e me alegram brevemente, como toda lembrança.

Relembro a imagem de Deus ao tocar meu ombro e dizer, quando adormecia o dia, "descansa, Adão, amanhã haverá o tempo".


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Mais uma nota de minhas desculpas inaceitáveis: tanta coisa tem me confundido, me acontecido, que tenho exercido muito poucamente a minha escrita ainda imatura. Quase nada tenho escrito de muito novo. Em verdade, estou a recuperar esboços destes últimos dois anos e que nunca foram utilizados. Por isso a escrita tão esgarçada e ainda me tem faltado competência para visitar os amigos sempre tão queridos. Continuo repetindo interiormente André Gide e dizendo "Se não puderes dizer 'tanto melhor', dize 'não faz mal'; há nisso grandes promessas de esperança".

16.1.07

Um Homem é Feito de Silêncios

Um homem é feito, sobretudo, de silêncios. É o silêncio a matéria que precede o barro, o silêncio da criação. E é desse silêncio que retomamos nossas forças, nossos impulsos.

Os primeiros esboços de um novo ano começam a ser traçados. Já se podem perceber algumas formas por trás destes primeiros dias: o esboço ainda é tímido, no entanto. Assim começam todos os anos: lentamente.

Esse começo lento é precedido por silêncio. O mesmo silêncio que precede o tempo e que a ele sucederá, provavelmente. O silêncio mesmo que havia antes do Nada e antes da ordem de se fazer a luz.

Desse silêncio sou feito. Cada um de nós e eu.

Este ano que já não é foi carregado de silêncios. Um calar profundo, de me fazer quase esquecer quem sou. O silêncio desse ano que já não é foi pesado, embora recompensador. Não consigo ainda recordar de todo meu nome e meu rosto diante do espelho: não os recordo exatamente ou já não são mais os mesmos. Pouco importa, aliás. Afinal, que importa o nome e a cara que temos? Não são nada de fato. O silêncio sim, o silêncio é.

Este ano que agora começa, lentamente eu disse, me traz algum som e o primeiro são estas linhas, enigmáticas talvez ao ponto de nada significarem senão para mim. Que seja, as primeiras palavras são quase sempre incompreensíveis. Só os silêncios são suficientemente claros e suficientemente eloqüentes.

As ruas sob o véu denso das madrugadas, a praça, a feira, as estátuas todas dormentes na madrugada: pode-se tocar com as mãos sujas no silêncio que as doma e é possível entender o que dizem, cada rua, cada beco, cada voz inaudível. É um convite: andem pela cidade nas madrugadas, sobretudo as raras madrugadas que sucedem as chuvas. São poucos os lugares em que se ouvirá melhor o silêncio das coisas. É nessas horas que só as coisas reais existem de fato.

De fato existe o silêncio.

O silêncio que principia estes primeiros sons. O silêncio que precede e sucede tudo, desde o sopro de Adão até o fim de todas as coisas, que precede e sucede o tempo, a música, a vida e o esquecimento. Que precede e sucede o riso, a angústia, o choro e a ventura. O silêncio que é.

Que tudo recomece. Que saibamos ouvir o que nos diz nosso silêncio criativo.
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Oito ou dez coisas para começar bem 2007

O livro Ó Serdespanto, do paraense Vicente Franz Cecim
A comédia sensível e despretensiosa A Vida Marinha com Steve Zissou
O profundo e belo filme Nossa Música, de Jean-Luc Godard
Um disco de Noel Rosa
Uma visita ao tenebroso site de fantasias Celebration Complex (
www.celebrationcomplex.com.br)
Uma visita aos bons e velhos amigos
Qualquer poema do Manoel de Barros
Ter um cachorro
Encurtar a memória para que a vida não pese demais
Desligar os telefones
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Este ano, para garantir algumas publicações aqui no museu, vou publicar as colunas que escrevo para o Jornal do Seridó, jornal aqui de Currais Novos. Essa é a primeira coluna do ano.

3.1.07

Notre Musique



Para nos redimir de nossos próprios erros, devemos começar pelo olhar sublimado sobre eles.

2007 para mim começa com um filme de 2004: "Nossa Música", do genial Jean-Luc Godard, com um olhar cinematográfico além da beleza sobre nossos tempos de guerra. Assim é o cinema, como diz o diretor a interpretar-se no filme: o cinema é a luz a iluminar nossa noite.

Comecemos o ano com nosso olhar atento sobre nós, para a beleza.

Um grandfe abraço e o desejo de felicidades aos amigos que sempre passam por aqui, por estas peças de pó.

Alvíssaras!

27.11.06

teu riso escasso -
penumbra de catedrais -
te veste por fora
e o silêncio das ruas
é tua casa
por dentro

1.10.06

Museu de Tudo: Serviços


Para os bons amigos que tanto se dedicam à leitura, o Museu de Tudo traz a indicação do ótimo Estante Virtual, sítio que reúne sebos e livreiros de todo o Brasil. O sítio fornece informações acerca dos acervos e livreiros de maneira fácil, além de diversos mecanismos de busca.

Os preços também são um atrativo interessante.

A dica me foi passada anteriormente pelo Mut, da famosa Padoca do Mutante (link aqui ao lado).

Encontre o sítio Estante Virtual em www.estantevirtual.com.br

21.9.06

Exposições de Tudo: Cinema e Belas Mulheres

Dois belos filmes para duas belas mulheres


A Doce Vida, de Federico Fellini, com a bela Anita Ekberg.





Duas belas mulheres em dois belos filmes

Dogville, de Lars Von Trier, com a bela Nichole Kidman



A beleza muitas vezes não me deixa dormir.

31.7.06

Exposição: Jards Macalé no Movimento dos Barcos

Sem muito a dizer. Caiu em minhas mãos, hoje, esse lindíssimo disco, estréia de Jards Macalé, de 1972. E como falam da tal angústia da influência, para minha surpresa, publico um poema meu ao lado de uma bela letra de Capinam... para me matar de inveja...

Um disco absolutamente perfeito. Maiúsculo. Esse deve ser discografia básica de cada cidadão neste mundo.

Jards Macalé – Jards Macalé (1972)
1 Farinha do desprezo (Capinan - Jards Macalé)
2 Revendo amigos (Jards Macalé - Waly Salomão)
3 Mal secreto (Jards Macalé - Waly Salomão)
4 78 Rotações (Capinan - Jards Macalé)
5 Movimento dos barcos (Capinan - Jards Macalé)
6 Meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata (Capinan - Jards Macalé)
7 Let's play that (Jards Macalé - Torquato Neto)
8 Farrapo humano (Luiz Melodia)
9 A morte (Gilberto Gil)
10 Hotel das estrelas (Duda - Jards Macalé)


meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata (jards macalé-capinam)

meu amor é um tigre de papel
range, ruge, morde
mas não passa de um tigre de papel
numa sala ausente meu amor presente
me esconde entre os dentes
depois me abandona e vai definitivamente
definitivamente volta ilude desilude
range ruge rosna
velho tigre de virtudes

nas selvas de seu quarto entre florestas cartas
frases desesperadas lençóis
onde me ama
furiosas garras
meu amor me agarra & geme & treme & chora & mata
um tigre de papel perdido no lençóis da casa


os tigres de papel

o meu poeta
é um menino que
recorta tigres de papel –
sempre a aparar arestas
que geram
arestas – e as apara
apara-as muitas vezes –
vê-las surgir
sempre

o meu poeta
é um menino que
amputa versos –
como quem arrancasse as patas
de seu tigre de papel –
sempre a aparar arestas
que geram
arestas – e as apara
apara-as muitas vezes

o meu poeta
é um menino
sempre a aparar arestas
que geram
arestas – e as apara
apara-as muitas vezes –
até ver surgir
seu tigre ínfimo
quase impossível.

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Para mais, sobre este disco e Jards Macalé, acesse o sítio oficial do Jards Macalé

Infelizmente não consegui fazer o carregamento da capa do disco para cá... mas há de passar... dêem uma olhadinha no sítio do Macalé. Para a página principal, clique aqui.

20.7.06

messias

sozinho
ele está despido
no deserto

escreveu seu coração
na areia
para não carregar a angústia
pétrea de seu medo
até os últimos dias

quando o povo vier ao seu encontro
ele fugirá
para mais longe ainda
continuará despido e


sozinho
ele estará despido
no deserto

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Este museu tem estado abandonado, relegado à poeira e a um breve esquecimento. Mal lembrava-me a última vez em que estive aqui. Trago então este poema - queria dizer "que tem a forma do teu seio", como escreveu Quintana - frágil, rápido, feito da lama que ainda resta do barro de que sou feito. Volto melhor em breve, sobretudo, para revisitar os amigos. Grande abraço.

Hoje, sem fotos.