5.3.06

Peça: 23. Um Silêncio Germinado

Vejo nascer um silêncio de dentro para dentro, mais dentro ainda; profundamente. E a boca vai devorando por fora o rosto que a sustenta, alimentando-se do corpo, não para o corpo. Saciada, devora a boca a boca; engole-se. Devora a si mesmo e põe-se miúda, miúda como um universo retraído que não se expandisse nunca. A boca condenada ao silêncio.

Sem voz alguma, percebo que a distância maior para dentro do mundo que alcanço é a longitude de meu braço estendido através das grades por onde assisto à vida. Desejo tocar o mundo mais adiante e não o alcanço: minha alegria e minha discórdia. Desejo o mundo que não tenho e a alegria do universo que é meu, estas grades que me cabem, afunda minha carne dolorida na angústia de exigir o inalcançável.

Nascido o silêncio em mim, percebo que a vida não aconteceu ontem à noite, que não acontece agora e que amanhã já não será. A vida, o mundo, são todo o tempo todo o tempo: sempre. Mas a boca devorada já não dirá uma palavra que possa ser decifrada.


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Algumas explicações: o tempo tem sido um tanto cruel comigo nestas últimas semanas, culpa destes dias muito pequenos, cheios de horas muito miúdas. Por isso tenho visitado tão pouco os visitantes tão estimados deste museu, ou até mesmo respondido particularmente a cada comentário, como é hábito por aqui. Tenho esperanças de que o tempo volte a rodar da maneira certa por aqui. Quanto aos comentários, me esforçarei mais para poder respondê-los prestamente.
Um abraço.
Theo
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a foto é de uma cena do belo Tão Longe, Tão Perto, do alemão Wim Wenders, sempre presente neste museu

24.2.06

Peça: 22. Paisagem Ouvida Entre a Matriz de Sant’ana e os Currais

4 horas:

dobram
sinos
dobram
sinos

na igreja matriz
e no pescoço das cabras:
que se assombram
no cio.


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Na foto, centro de Currais Novos em 1937. Quae tudo mudou, mas pouquíssima coisa está diferente. Coisas destas terrras. O fotógrafo, infelizmente, é desconhecido.
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Este é um post dedicado especialmente a alguns amigos com quem converso, vez em quando, a respeito desta peculiar Currais Novos. Entre eles: Fabio e Ana Ulanin, Moacy Cirne, Anne Frichenbruder, Marcos Pardim, Milton Ribeiro

10.2.06

Peça: 21. Trecho da já conhecida história de Cido Marinheiro

Dizia sempre que nesta vida, neste mundo, não havia lâmina melhor que a sua, que entrasse mais rente, que saísse mais limpa. Dizia que, de tão afiada, sua faca cortava um homem ao meio e esse ainda vivia mais dois três dias sem saber que se desconjuntava o de baixo do de cima.

Tinha essas coisas de homem brabo, de cabra-da-peste: era fulano mordedor. Sangue de jagunço, eu acho. Eu sei. Por estas bandas todos havemos de ter um traço de jagunçaria no corpo ancestral, nos galhos da árvore de linhagens.


Cido Marinheiro era o homem da lâmina. Manuseava a faca como um mágico de feira: seus movimentos eram circo de lâminas. Dizia que era cigano também. Não lia mão, não sabia do futuro de ninguém, senão do seu: fácil saber o futuro de quem não tem futuro algum, de quem é feito só de hojes, de ontens.

Cido Marinheiro me ensinou o circo das facas; a escola delas como chamou João. Cido era um homem só lâmina, era sua essência como essência de faca é só lâmina só. Cido era marinheiro e nem conhecia mar, nem daqui nem de lonjuras. Cido Marinheiro era um engodo, senão pelo que das facas sabia: era lâmina, só lâmina. Cortava gentes pelos caminhos, deitava orelhas de homens grossos nas feiras potiguares.

Cido era só lâmina. Era o sangue de jagunço. Sangue de cigano não tinha mesmo. Não lia mão, não roubava, tomava a bênção e morava no mesmo chão desde o nascimento seu. Era o sangue de jagunço. Homem destas bandas tem parte com jagunçaria, seja em que tempo, seja que homem. Mas o jeito de Cido com a faca, isso não se vê de muito por aqui nem por aí. Cido era só lamina, só.

Meu pai, ele também era Cido. Mais eu era seu filho que fosse ele meu pai. Entendi sempre que sua voz, assim como sua faca, ordenava as coisas em minha casa, casa de meu pai. Pouco usei meu nome em meu tempo, era O Filho de Cido Marinheiro, nome demais para um menino só: uma existência de cada vez é o que se necessita, o que se deve.

Quase em nada Cido meu pai me deu ensinamento. O manejo da faca aprendi só e em segredo, que minha mãe proibia o uso de corte para arte, senão pelo trato da carne. Cido Marinheiro nunca me desvendou o segredo da melhor empunhadura: aprendi no sangue, pelo sangue, que o sangue nas veias de Cido meu pai era o mesmo das veias de seu filho, das minhas. Antes de aprender a falar, antes até do primeiro choro, a minha lembrança mais antiga é a do cabo da lâmina nas mãos: a empunhadura. Como um brinquedo vermelho, uma esperança de outra cor eu me lembrava dela; a faca é meu primeiro espelho. Mais do que me ver, eu estava nela.

A manobra da lâmina está no sangue dos meus, coisas da jagunçaria, jagunçagem, como João Rosa ensinava a chamar. Soube sempre que sangue de ciganos eu não tinha, mas também mentia. Dizia que eram artes das Índias, manuches, coisas do povo que inventou o andar para frente, o parafuso e a alma de quem vive, de quem morre: o que é quase o mesmo. Entanto, verdade era a de jagunço, sangue de quem faz tocaia, de quem morre em tocaia.

Na casa de meu pai nada houve, jamais, que me pertencesse. A casa era sua, a comida só cabia na boca à chegada de Cido Marinheiro à mesa, mesmo minha mãe não era minha: era antes a mulher de Cido. Também ela não tinha nome, senão esse. Não tínhamos. Éramos quase todos feitos de silêncios por dentro e por fora, só as histórias de Cido faziam som em nossa casa. E Cido meu pai não contava histórias, não era disso: as histórias é que o contavam: verdade em quase tudo, o que não era ainda verdade é porque se demorava a acontecer: gente é feita de muitas metades nestas terras.
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in A Casa Miúda

4.2.06

Peça: 20. Flores para um funeral

A sala está escura e mal se podem ver dois homens: um está sentado e cabisbaixo, o outro deitado sobre a mesa.

A porta abre-se subitamente e outro homem acende a luz. Prontamente o que estava sentado levanta-se e apaga-a. Diz irritado:
- Por favor, não acenda esta luz.
- Desculpe-me, mas é que tudo estava tão escuro...
- Sim. Estava e ainda está. Por favor, mantenha-a apagada e não fale alto. Não percebe que o homem está morto? Convém não incomodá-lo.

O homem que acendera a luz logo se ajoelha ao pé da mesa que mal pode enxergar, prostra as mãos e reza. O outro o repreende erguendo-o.
- Não faça isso, senhor. Já lhe pedi para que não incomode o morto.
- Eu estava rezando apenas.
- Ele está morto. Não percebe que seu ranger de dentes de nada lhe vale?
- Me desculpe... apenas pensei...
- Diga-me: para que pode servir uma reza a um morto?
- Não sei, senhor. Ao certo, não sei.

Os dois sentam-se. Um continua na cadeira, com o novo companheiro sentado a seu lado, no chão negro e frio da sala. O outro está deitado ainda sobre a mesa.

Depois de um longo silêncio, ele pergunta:
- De que morreu este homem?
- Isso faria alguma diferença?
- Não sei, senhor.
- Apenas não o incomodemos. Isso já é suficiente.
- Quando ele acordará, senhor?
- Ele está morto.
- E não acordará por isso?
- Não lhe parece um motivo razoável?
- Talvez...

O homem levanta-se de sua cadeira, arrasta alguns móveis na sala ainda escura. Pega pela mão seu novo companheiro e pergunta serenamente:
- O que se faz quando se está vivo?
- Ora, senhor... que estranha pergunta...
- Pode me responder?
- Senhor, quando se está vivo se está vivo e só...
- E que grandes feitos há nisso?
- Eu não sei ao certo...

Diante da ansiedade de seu companheiro, o homem toca-lhe o ombro, ao que diz:
- Calma. Venha até aqui e deite-se sobre esta mesa. Não se preocupe: não deixarei que acendam a luz.
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Foto do Duane Michaels, como sempre

22.1.06

Peça: 19. Trecho de Um Caderno de Viagens

Mal cheguei à cidade e meus olhos já se cansaram como os de Adão, ao fim do primeiro dia. Os corpos se multiplicam ao longo das ruas, empilhados como o entulho das construções mais recentes. Não estão mortos ao certo.

No entulho das gentes, mulheres e crianças choramingam a morte pouca e a vida escassa. Os homens não reclamam. Embora também não aceitem. Permanecem calados como sempre viveram.

Uma mulher depositou numa das pilhas infinitas de gente, trinta, talvez trezentos mortos, um par de moedas opacas. Depositou-as e deitou-se sobre os outros. Tinha a esperança de que o Barqueiro Sombrio aceitasse a barganha. Mas não aceitará, eu sei.
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A foto é novamente de Nabor Kisser

15.1.06

Peça: 18. Um Homem Em Chamas

um homem em chamas
não acorda a cidade
como
uma bomba
ou
um relógio

um homem em chamas
ateia fogo à casa vazia
como a
um calabouço
ou um deserto

um homem em chamas
faz silêncio
e seu couro
duro
desmancha o fogo
silencioso

um homem em chamas
dorme desfigurado
como
um cão
ou
uma lembrança morta
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foto de Lee Lanier
Vá também ao Museu de Tudo no Multiply

9.1.06

Ainda os 10 Melhores de 2005 - 3. My Morning Jacket – Z

Z é o quarto álbum da banda de Louisville, Kentucky, nos Estados Unidos, My Morning Jacket. Os vocais de Jim James são parte do motivo que alçam o disco Z ao terceiro lugar desta lista. Porém o MMJ é muito mais que isso: uma boa linha de contrabaixo (Two-Tone Tommy), ótimas guitarras (Jim James e Carl Broemel), o bom acompanhamento dos teclados (Bo Korster) e uma bateria muito bem acertada (Patrrick Hallahan) conduzem o som do disco Z à uma fluência encantadora que vai de riffs roqueiros como Lay Low à vocalizações maravilhosas como as de Wordless Chorus.

O MMJ vem mantendo os mesmos padrões de qualidade musical desde seu disco de estréia Tennesse Fire, de 1999. Depois disso já vieram At Dawn (2001), It Still Move (2003) e neste ano Z. Qualquer lista de melhores de qualquer um desses anos deveria contar com a presença do MMJ.

É bom prestar atenção no solo de Lay Low, que revela algumas das influências da banda e na belíssima e delicada Knot Comes Loose, que me remete diretamente à músicas como Through My Sails, de Neil Young (no disco Zuma, de 1974).

Knot Comes Loose:
“b.b. can't you see that i'm smiling???
can't you see - there's a part of me that's brand new???
used to be - was a part of me felt like hidin - but now it comes thru!
deep in my heart - that's where the knot comes loose.”

Faixas:

1. Wordless Chorus

2. It Beats 4 U
3. Gideon
4. What A Wonderful Man
5. Of The Record
6. Into The Woods
7. Anytime
8. Lay Low
9. Knot Comes Loose
10. Dondante

Gravadora: ATO/RCA Records
Data de lançamento: 04/10/2005
Mais informações: http://www.mymorningjacket.com

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Na foto a capa de Z

4.1.06

Peça: 17. A Paisagem Íntima Destas Ruas

Foi diante de nós. Já nada havia a ser feito. Estavam mortas e o corpo fatídico das ruas enternecia a cidade.

Cada pedra secular destas ruas é feita de silêncio ancestral e solidão. A solidão que endurece as pedras mais macias.

Estavam diante de nós. Eram o corpo silencioso das ruas.

Nada foi dito e continuamos nossa caminhada nesta procissão de silêncios.

Eram o corpo silencioso das ruas. Já estavam mortas antes mesmo de nascer o tempo ou Deus, eu sei.


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Foto de Nabor Kisser

2.1.06

10 Melhores de 2005 - 2. Arcade Fire – Funeral


Relutei em classificar Funeral, do Arcade Fire, entre os melhores do ano por uma razão das mais simples: Funeral foi lançado originalmente em 2004, porém só chegou ao Brasil neste ano, juntamente com a passagem da banda canadense pelo Tim Festival. Mas a verdade é que gosto tanto deste disco que arranjaria quaisquer justificativas para ajuntá-lo nesta lista.

O Arcade Fire é dessas novidades que surgem na música e que, mesmo sem grandes divulgações ou concessões, consegue espalhar seu som por boa parte do mundo. Me arriscaria a dizer que o Arcade Fire não cairá na mesma armadilha em que caíram bandas como Coldplay, que depois de um belíssimo disco de estréia caíram nas tediosas repetições. Verdade é que o AF nada tem a ver com o Coldplay.

Funeral é um disco ambíguo, no melhor dos sentidos: toda sua dose de sarcasmo e tristeza é compensada com um som pulsante e generoso, com letras intrigantes e um tanto sádicas.

Não se contagiar ouvindo este “Funeral” é missão quase impossível.

Neighborhood #4 (7 Kettles)
“I am waitin’ ’til I don’t know when,
cause I’m sure it’s gonna happen then.
Time keeps creepin’ through the neighborhood,
killing old folks, wakin’ up babies just like we knew it would.

All the neighbors are startin’ up a fire,
burning all the old folks the witches and the liars.
My eyes are covered by the hands of my unborn kids,
but my heart keeps watchin’ through the skin of my eyelids.”

Faixas:
1. Neighborhood #1 (Tunnels)
2. Neighborhood #2 (Laika)
3. Une Annee Sans Lumiere
4. Neighborhood #3 (Power Out)
5. Neighborhood #4 (7 Kettles)
6. Crown Of Love
7. Wake Up
8. Haiti
9. Rebellion (Lies)
10. The Backseat

Gravadora: Merge Records
Data de lançamento: 14/09/2004 (lançamento oficial; o disco só chegou ao Brasil em outubro de 2005)
Mais informações:
www.arcadefire.com
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Foto do Arcade Fire/divulgação