29.3.18

A desumanização nossa de cada dia

“A Desumanização” é o título de um dos mais bonitos romances do português Valter Hugo Mãe e trata da história de uma menina cuja irmã gêmea morreu nos exóticos fiordes da Islândia. Na história, a jovem se expõe a alguns dos grandes questionamentos da humanidade, aos quais todos estamos – ou deveríamos estar – propensos a levantar em algum momento de nossas vidas: a vida, a morte, o amor, o tempo, o outro, deus... ao longo de sua vida, esses questionamentos não são necessariamente respondidos – como a quase todos nós também sucede – e a maneira de lidar com eles é a própria vida, isso vale tanto para a onírica Islândia quanto para o Seridó potiguar ou qualquer outra parte do mundo.
Mas este texto não é sobre a belíssima literatura de Valter Hugo Mãe nem sobre a Islândia. É sobre nós, todos nós. E sobre minha necessidade de escrevê-lo diante de tantas coisas que me têm feito calar e pesar, especialmente nas redes sociais às quais estamos conectados e que nos conectam, pois é nelas que temos passado parte significativa de nossos dias.
A intolerância que reina nessas redes não é novidade já há muito. A intolerância entre nós, cara a cara ou punho a punho, também não. No entanto, é fato que as personas que apresentamos nesses ambientes virtuais são escudos para exercermos o que temos de pior com mais facilidade e impunidade.
Temos vivido tempos difíceis. Nossas ferramentas democráticas andam ameaçadas, qualquer acontecimento político, social, econômico, etc. é sempre tomado como pessoal e a maior parte das discussões se resume à troca de ofensas gratuitas que lembram as brigas da época de escola, ainda que lá a mediação moral fosse mais decente. Não discutimos ideias como os civilizados que fingimos ser. Tudo nos afeta, nos comove e nos impele à gritaria, às ofensas pessoais, ao esculacho, às mentiras deslavadas que propagamos descaradamente, às toneladas de bobagens que somos capazes de engendrar ao outro: ou seja, ao que temos de pior.
Tanta energia, no entanto, raras vezes obedece as regras do bom senso, da inteligência, da análise dos argumentos, da fundamentação ideológica e do respeito ao outro. Especialmente do respeito ao outro. As arengas entre esquerdistas, direitistas ou ambidestros têm enchido nossas redes sociais de tudo isso. Não há entidade, instância ou manifestação que passe ao largo dessas brigas. Parecemos torcidas fanáticas em um jogo de futebol, em que o melhor só precisa vencer se o melhor for nosso time.
Chegamos ao ponto da desumanização com imensa facilidade: se nos referimos a quem pensa diferente de nós, os outros são sempre os idiotas, os burros, os estúpidos e que tais. Não ouvimos suas ideias e não há espaço para respostas ou perguntas, apenas acusações e achincalhamento. A burrice ou a inteligência não são monopólios partidários ou de sistemas, ainda que muitas vezes nos comportemos como asnos porque nosso caráter ruim e mal intencionado nos conduz a isso. Temos excedido o desrespeito ao outro, à vida, à segurança e à decência.
Chacoteamos com a execução de uma mulher politicamente representativa, ou buscamos uma justificativa para sua morte em seu passado, ainda que precisemos falseá-lo para enfiar nele nossos argumentos, como se houvesse alguma justificativa plausível para um assassinato. Ridicularizamos a Constituição, as leis, a política. Criamos a festa da miséria humana, da falta de solidariedade e do excesso de desrespeito. Validamos o linchamento daquilo ou de quem discordamos, justificamos a violência, atentados e crimes contra a segurança baseados na Lei de Talião. Rimos da execução de nossos adversários, lamentamos a sobrevivência de nossos opositores, pisoteamos os direitos humanos como se pertencêssemos à outra espécie. Ainda que nenhuma outra espécie seja ridícula o suficiente para precisar de leis e organismos que a defendam de si mesma.
Chegamos a um ponto da barbárie que desenhamos aos poucos, linha por linha, em que somos mais massa do que sujeitos. Promovemos linchamentos virtuais, amarramos bandidos em postes, atiramos em comitivas, defendemos a morte de quem nos contraria, pomos o direito à propriedade acima do direito à vida, ensurdecemos ante os anseios e angústias dos outros e parecemos rolos compressores jogados sobre o público em passeatas. Não nos perguntamos mais as questões que nos fazem essencialmente humanos. Essas respostas não nos interessam mais porque vivemos a ilusão de que o outro nos atrasa, de que nossa caminhada é solitária e de que somos cercados por inimigos, estejam em nossas casas ou no vilarejo em que vive uma menina cuja irmã está morta nos exóticos fiordes da Islândia.

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