18.10.16


Currais Novos, julho de 2015

Querida Zila,

Quantas vezes, ao longo destes tantos anos, terei engendrado estas linhas, esta carta silenciosa que se recusava à ousadia de sair do papel? Quantas vezes terei dado teu nome aos vocativos de minhas confissões, de meus mecanismos poéticos, enquanto assistia às paisagens distantes que trocavam os oceanos de canaviais pelo barro honesto e sofrido destas vias seridoenses?
Mas não é o desejo de todo poema o silêncio? Não dorme sob a arquitetura da palavra o segredo indizível, inexplicável e táctil do poema? As tuas pontes, os teus bois dormindo, a tua casa materna, mares e canaviais, a quem pertencem, senão a mim? Diante desta carta, Zila, desejo dizer-te tudo silenciosamente, nessa liturgia arquitetônica da palavra. Desejo dizer-te, Zila querida, de como os teus versos inundaram fluviais o meu corpo marinho, de como transbordaram áridos sobre o barro seco sertanejo. Eu sonho dizer-te, Zila, que vi brotar das esculturas de tuas palavras as minhas, que foram se fazendo meus músculos, adoecendo de meus olhos até serem indissociavelmente minhas, como não se separam o cão de seu dono.
Eu vi tua palavra, Zila, brotar seca e antilírica para fazer de mim menos só: o teu arado, os teus navegos foram garrafas ao mar que chegaram até minha ilha. E quando ela, a tua palavra, brotou em mim – forte a rama saudável de teus versos sobre minhas raízes daninhas – eu vi florescer o mundo em meus olhos. A tua palavra, Zila, fez de mim menos só e acalentou a febre dos meus versos, a enfermidade de minhas estrofes como mãe: dura, mas amorosa.
Respiro. Reencontro a ti.
Estive a rever o baú que deixaste, querida Zila. Os teus pertences, a tua herança, tuas memórias e o que delas tomei para mim: os campos grandes de tua voz. Lembrei-me, com algum alívio, de que os poetas contam com uma bênção que não se pode ignorar: o corpo é temporário, mas a obra, perene. Como perene são os rios que desaguam teus versos no oceano imenso dessa poesia que nos cerca; como perene são as pontes que ergueste, incansáveis e belas. Perene, Zila, como haverá de ser sempre a tua passagem.
Estive a rever o baú que deixaste: o teu arado, as velas de teus navegos, a máquina de costura de tua mãe e tua casa materna. Tuas mãos foram tão generosas, Zila, ao formarem o construto de teus versos. Tantos de nós temos tanto a agradecer: posso reconstruir tua janela e tua paz, que são minhas agora; o rio da infância de cada um de nós banhou tua infância e a minha.
Teus versos, neste baú que deixaste, correm sobre mim:
“a força de ser rio e ser caminho
de rio, noite assombração de rio,
chamado ser em oculto chão de rio”
desaguam na tua casa materna, na minha. As lembranças de tua mãe e minha avó a pedalar as engrenagens ligeiras de tecer os dias, os retratos das famílias, a loucura das jovens e a mortalha dos velhos. E dispomo-nos, Zila, tu e eu, a usar esta máquina em nosso tempo:
            “A máquina
            lúdico artefato
            de abstrato museu
            (a avó, a bisavó)
            do tempo hoje meu.”
            Volto à casa materna, “com este silêncio nosso”, encontro os bilhetes que me deixaste em teus livros e revisito-os comovido, tocado pelo amor presente neles, ainda que sob a máscara da pedra e da moenda. A tua casa materna ainda resiste, minha e tua: “quase tudo permanece igual/ mas de um mesmo substancialmente diverso”, e de mãos dadas refazemos o mundo: Nova Palmeira, Currais Novos, Natal: “e o espaço todo em que não estás”.
            Em minhas mãos os teus bilhetes transbordam os mares, de ti para mim, que os recebo como se os tivéssemos criados, como se fôssemos, tu e eu, deuses de ofício: mas, repara, tu os fizera e eu os bebi: mares e bilhetes, prenhe da tua força, dos teus desenhos e imagens. Repara, Zila, que a tua voz estende-se, ainda viva e resoluta, até meus tímpanos que ordenam ao meu corpo que trema. E assim o é. Enquanto o vento, Zila, nos move, nos reorganiza: mulher, poeta, voz; homem, poeta, voz. Para que me digas, finalmente: “teu amor é como o vento/ chega e foge sempre assim”.
            Zila, tu permaneces.
            Despeço-me, navego-te, grato. Adeus.

Theo G. Alves