6.1.15

três poemas novos

teu nome

sob as mantas brancas
de ruído
da cidade
ninguém chama teu
nome:

repete-o
mil vezes ou mais por
medo
de esquecê-lo.

apertas as
mãos
de outros fantasmas

pronuncias os
nomes
de outras mulheres

pela vã
esperança de que teu
nome
adoecido caiba em
suas bocas.

mas a cidade
não permite que reverbere
teu nome:
teu
nome.

a
solidão
coletiva e impronunciável
ocupa
as salas de cinema os bancos da praça cristo rei
as mesas de restaurantes as camas as ruas os carros
as calçadas as avenidas incalculáveis e a praia de copacabana
as vitrines os ombros dos mendigos
e as tigelas de sopa
em toda cidade:

que não permite ainda
que ouças ou ainda
que chamem

teu
nome.


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dos olhos

como um
doente
que se crê mais
saudável
ao negar seu
câncer

como um
filho
que se parece mais
ao pai
quanto mais o
nega

dou um
número a cada
dia

e menos
vejo, um tanto
mais
enxergo.


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o relógio, a bolandeira

o
giro
da bolandeira marca
as horas de
um relógio
indistinto
exangue.

a
vida:
o giro da bolandeira é
uma sucessão de
segundas-feiras
indistintas
diária.

4.1.15

Half The City, de St. Paul & The Broken Bones

A primeira vez em que ouvi St. Paul & The Broken Bones foi também a primeira vez em que os vi tocar. Era um programa da Rádio KEXP, divulgado também pelo canal da rádio no YouTube. Por alguns segundos, foi difícil sincronizar o que eu via e ouvia: os estereótipos tão bem construídos da black music em minha cabeça jogados ao chão. Um rapaz loiro, com cara de atendente de crediário, óculos de nerd, mas uma voz negra saída diretamente dos anos 70, que fazia lembrar de James Brown a Gerson King Combo.

A banda fazia um pocket show de lançamento de seu disco Half the City. E os fones de ouvido foram ficando pequenos demais para uma música tão voluptuosa e cheia de vibrações. Sentia que estava diante de uma grande banda e um disco fabuloso.

Depois, ao ouvir Half the City (disco de estreia da banda do Alabama) faixa por faixa, tinha a certeza de que pouca coisa que se fizesse este ano seria melhor que esse disco. As batidas de soul e r&b que preenchem as doze músicas do álbum não são inovadores, porém são reconfortantes: música para se ouvir e viver: suingue, ritmo, linhas de baixo guturais e metais muito melódicos liderados pela voz profunda, viva, vibrante e orgânica de Paul Janeway.

Seja pela perfeição dançante de Call Me ou I’m Torn Up, seja pela delicadeza de baladas antológicas como Broken Bones & Pocket Change, Half the City é um disco irretocável: a influência da música negra dos anos 1970 está lá, o alcance inacreditável da voz de Janeway está lá, os arranjos de levadas que fariam Steve Wonder aplaudir também estão lá. Está tudo lá, num disco conciso, preciso e que não sobra nem falta.

Ouça e diga se estou mentindo.