8.2.13

Peça: Anúncio de Chuva


O uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva: os varais eram despidos imediatamente pelas mãos hábeis das mulheres crivadas de sol; os gritos dos meninos ecoavam nas ruas feitas de barro e ermo; os homens apinhavam as latas e baldes debaixo das bicas, cheios apenas de esperança; a avó reunia no quarto grande toda a família e, em minha rede, eu prestava silêncio à mecânica sutil daquela tarde, em que o uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva.
Não falávamos: a televisão, finalmente, calava; não havia música nem conversas de pés-de-parede; a avó interrompia qualquer tentativa inconveniente de voz com um olhar austero, dado o respeito atávico pela raridade das chuvas; as cinzas da fogueira morta de são-joão dormiam de sobreaviso numa lata ao pé da cama, para prevenir o exagero violento das águas de deus; esperávamos silenciosos e solenes enquanto o uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva.
A chuva, anunciada pelo uivo gelado do vento nas calhas. Anunciada pelo uivo gelado do vento nas calhas, não choveu àquela tarde.

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