25.2.13

Peça: O Libertador

Antes de ser morto meu pai, ensinou-me que ao homem é preciso sempre superar-se, romper seus limites, como um Raslkónikov capaz de relevar a culpa, de não ceder às pressões que se abatem sobre o homem que fraqueja. Antes de ser morto meu pai, disse-me tantas coisas a respeito da vida e da necessidade de não ser passageiro, de eternizar-se.

Disse-me, antes de ser morto meu pai, da glória de Caim: explicava-me que a Abel restou a inanidade dos mártires, cujo feito maior é deixar-se abater. Dizia-me que o irmão a ser celebrado era aquele capaz de quebrar a apatia em que Deus mergulhara seus pais, a quem a subserviência deveria ser uma condição inquestionável. Caim fora sempre o libertador, o que estilhaçou as amarras a com que o Criador atara suas crias: Caim desfez a escravidão de seus pais e pôde fazer-se, de fato o primeiro homem, pois que seu pai era um arremedo, a pantomima de um homem incompleto.

Antes de ser morto meu pai, contou-me que era preciso ser único em seu tempo, desenhar marcas indeléveis a seu redor, ser insuperável, destroçar a apatia, o imobilismo que tende a acomodar-se, primeiro na alma, depois nos músculos do corpo do homem.

Compreendi suas lições e, por isso, nunca precisei que ele me perdoasse por tê-lo matado.

8.2.13

Peça: Anúncio de Chuva


O uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva: os varais eram despidos imediatamente pelas mãos hábeis das mulheres crivadas de sol; os gritos dos meninos ecoavam nas ruas feitas de barro e ermo; os homens apinhavam as latas e baldes debaixo das bicas, cheios apenas de esperança; a avó reunia no quarto grande toda a família e, em minha rede, eu prestava silêncio à mecânica sutil daquela tarde, em que o uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva.
Não falávamos: a televisão, finalmente, calava; não havia música nem conversas de pés-de-parede; a avó interrompia qualquer tentativa inconveniente de voz com um olhar austero, dado o respeito atávico pela raridade das chuvas; as cinzas da fogueira morta de são-joão dormiam de sobreaviso numa lata ao pé da cama, para prevenir o exagero violento das águas de deus; esperávamos silenciosos e solenes enquanto o uivo gelado do vento nas calhas anunciava a chegada da chuva.
A chuva, anunciada pelo uivo gelado do vento nas calhas. Anunciada pelo uivo gelado do vento nas calhas, não choveu àquela tarde.