8.1.13

Peça: não era um leão



o bicho enjaulado não era um leão. era antes disso um arremedo, pantomima do animal que deveria ser, mas não era. o bicho enjaulado era pouca coisa. as patas pesadas e preguiçosas desaprenderam a correr e a mandíbula desamparada se refestelava sem fúria na carne morta de outros bichos desgraçados. o bicho enjaulado não era um leão. a memória antiga do animal pereceu. seu corpo arqueja a sombra de quem poderia ser. o bicho enjaulado não é um leão. e feroz sou eu, a alimentá-lo por trás das grades.

4 comentários:

CASSILDO SOUZA disse...

Sensibilidade total, meu caro. Você constrói a outra versão, o outro lado da história. Muito bom!

Theo G. Alves disse...

muito obrigado pela leitura generosa, meu caro.

Thiago Leite disse...

O grande rei idealizado, guerreiro, forte e altivo, vai esmorecendo, enfraquecendo e definhando em seu trono-jaula, tornando-se dependente do cortesão que o alimenta com bajulações em troca do medo que o nobre líder, descendente dos magníficos monarcas de jubas majestosas nas savanas de outrora, incute em seus inimigos.

Theo G. Alves disse...

Thiago,
seu texto já valeu esse post!
ótimo!

grande abraço!