22.1.13

Amor (Amour), de Michael Haneke: Amor e Dignidade?


“Cuidado”, “resignação”, “paciência” e “humanidade”. Estes são substantivos que poderiam figurar como o nome do último filme do cineasta austríaco Michael Haneke, mas “Amor” é mesmo o mais apropriado à película, posto que todos os outros estão compreendidos neste. É esse o sentimento que Haneke encontra como justificativa para nos contar a história de Georges e Anne, casal octogenário de ex-professores de piano que precisa lidar com um dos mais cruéis e implacáveis obstáculos para o amor: o tempo.
Diante da nova configuração familiar a que chegamos, o enredo nos leva a confrontar o lado árduo da independência dos filhos, do isolamento, do fim das famílias numerosas, que é a decrepitude beirando a solidão. Georges e Anne moram sozinhos, raramente visitados pela filha do casal e por outros poucos terceiros que fazem parte desse novo mercado que a velhice em seus novos contornos nos legou: enfermeiros, cuidadores, empregados domésticos, carregadores, médicos, etc. Diante da saúde debilitada de sua esposa, Georges cuida dela pacientemente: seu companheiro, seu cuidador, seu amigo, seu amor.
Enquanto a filha esporádica aparece vez ou outra para requerer cuidados e meter-se no destino de sua mãe, o marido perene é quem toma as rédeas de suas necessidades em seu apartamento silencioso, cercado de livros e jornais matinais e de um espírito musical que agora está calado. O filme, aliás, não tem cenas externas: todas as situações se passam no apartamento do casal, com exceção de uma. A trilha sonora é absolutamente escassa, pois o silêncio diário de seus personagens é suficientemente ruidoso para não passar despercebido.
Se os silêncios de Amor são plenamente audíveis, isso se deve em grande parte a atuações irretocáveis de seus dois personagens principais: Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Os closes em Trintignant são um momento mágico do cinema: quando se diz tudo, de maneira absolutamente precisa, sem excessos e sem faltas, sem que palavra alguma precise ser dita. Quanto à Riva, os prêmios que a atuação lhe rendeu e a indicação ao Oscar de melhor atriz dão os contornos a seu desempenho em Amor.
Haneke conseguiu dar voz à complexidade do amor ao fugir dos perigosos clichês que envolvem o tema ao permitir que seus protagonistas fossem humanos, sofressem, errassem, perdessem a cabeça e retomassem o rumo, como acontece na vida de seus expectadores, que são conduzidos à cumplicidade máxima, contestadora da ética e da ordem estabelecida. Se é apenas na vida que se pode ter dignidade, a morte constrangedora e embaraçosa nos faz carecer verdadeiramente de amor, sem concessões.

8.1.13

Peça: não era um leão



o bicho enjaulado não era um leão. era antes disso um arremedo, pantomima do animal que deveria ser, mas não era. o bicho enjaulado era pouca coisa. as patas pesadas e preguiçosas desaprenderam a correr e a mandíbula desamparada se refestelava sem fúria na carne morta de outros bichos desgraçados. o bicho enjaulado não era um leão. a memória antiga do animal pereceu. seu corpo arqueja a sombra de quem poderia ser. o bicho enjaulado não é um leão. e feroz sou eu, a alimentá-lo por trás das grades.