8.5.12

Rambo e Goku natalenses: Diante da inevitabilidade do surto que as cidades provocam, só há uma coisa a fazer para evitá-lo: surtar.




Quanto maiores e mais caóticas as cidades, maiores são as possibilidades de inadequação, assim como são mais variados os subterfúgios para safar-se dessa onda massacrante de confusão cotidiana. Por isso, personagens como Goku e Rambo de Natal são, em certa altura, compreensíveis.

Se a um primeiro olhar mais precipitado as pessoas sentem a necessidade de tratar essas figuras que têm ganhado espaço nas ruas de Natal e nas redes sociais como loucos é porque, provavelmente, não convivem ou já se perderam em meio ao caos urbano. Ninguém veste roupa de super-herói e sai às ruas gratuitamente: esses rapazes fazem aquilo a que a cidade os obriga: surtar para não surtar. Não é à toa que os personagens escolhidos são heróis que marcaram gerações: não há ninguém vestido de Bento XVI ou de Neil Armstrong, porque a distância que a fantasia estabelece da realidade é peça fundamental para que a primeira adentre a segunda e provoque o efeito desejado.

O bom humor carregado por essas figuras é uma resposta ao cotidiano pouco glamoroso, marcado por atitudes que depredam a dignidade do cidadão comum de forma costumeira: afinal, como chamar de digno uma volta para casa num ônibus desumanamente lotado depois de um causticante dia de trabalho? Como aceitar que a cidade em que se vive oferece inúmeras opções de lazer que seus moradores menos abastados jamais conhecerão? Qual é a melhor maneira para lidar com uma cidade que o exclui e se regozija disso?

Goku e Rambo são os heróis de uma sociedade anônima, relegada aos pontos de ônibus e bairros marginalizados. Obviamente, essa mesa sociedade que representam e contra a qual lutam também os oprime: ri deles e não compreende sua mensagem.

Outro aspecto interessante da fama dessas figuras é a relação que conseguiram estabelecer entre o espaço urbano e o virtual, já que suas intervenções nas ruas são costumeiramente registradas e levadas às redes sociais, que ampliam o impacto dessas interferências e aumenta o número de seus espectadores: o público que vê Rambo apontar sua bazuca para um alvo imaginário às margens de uma BR às 10 horas é menor do que aquele que o assistirá pela internet, no conforto de sua casa, a qualquer hora. Assim, esses novos heróis do caos urbano interveem no espaço das cidades e multiplicam a intervenção através do espaço virtual, que os lançará de volta às ruas com ainda mais poderes.

Gotham, Metropolis, Tóquio, Nova York ou Natal têm uma coisa em comum: a necessidade de heróis que combatam o caos em que mergulhamos e de onde parecemos não saber sair. Por mais ridículos que possam parecer.

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A foto neste texto foi retirada do perfil do Rambo de Natal no Facebook

2 comentários:

CASSILDO SOUZA disse...

Muito lúcido como sempre o meu caro amigo Théo Alves. A sátira sempre foi importante instrumento de manifestação para se demonstrar indignação com a falta de ordem. A personificação dessas figuras pitorescas nos diz tudo. Ponto para esses "heróis", que todos os dias têm de vencer uma batalha para sobreviver.

Theo G. Alves disse...

verdade, Cassildo: sem esses loucos, viver seria mais difícil!

obrigado pela generosidade!