5.5.12

Je L’aimais: E Quem Mais Eles Amavam


Ouvimos a todo instante que não se pode ter tudo e nada há de original ou surpreendente nessa assertiva. Mas é mediante a necessidade das escolhas que nossos maiores dramas pessoais e tensões são criados, pois – me valho aqui de André Gide – não é o que escolhemos, mas o que preterimos que nos assombrará para sempre.
Este é o motivo que nos leva a Je L’Aimais, filme de Zabou Breitman e com as ótimas atuações de Daniel Auteuil, Marie-Josée Croze e Florence Loiret Caille. A história se dá com o fim do casamento de Chloe (vivida por Florence) que, muito abalada, viaja com seu sogro e filhas para uma propriedade rural afastada de Paris. Chloe sofre profundamente com o rompimento e relega suas filhas, seu trabalho e sua vida parisiense, como se nada além de seu casamento fracassado importasse. A apatia da personagem nos leva a pensar em uma metáfora inúmeras vezes mastigada e, naturalmente, verdadeira: nossas vidas se estruturam como castelos de cartas, em que a remoção de uma peça central fará desabar todo o resto.
Os sofrimentos de Chloe são acentuados pelo motivo que levou seu marido a romper o casamento: ele se apaixonou por outra mulher, o que reforça em Chloe o sentimento de perda e a dor de ser preterida, de sentir-se rechaçada. A família, a estabilidade e as filhas oferecidas ao marido não foram suficientes para prendê-lo a ela, como a jovem demonstra querer.
A estada de Chloe com seu sogro Pierre é conturbada, marcada pela melancolia dela e o silêncio dele, um homem austero e sisudo que – assim como o filho – não costuma falar, sempre ensimesmado e introvertido. Porém, a quebra desse comportamento de Pierre – precisamente interpretado por Daniel Auteuil – nos leva ao tema central do filme: a escolha entre amor e estabilidade.
Pierre passa a contar à nora sobre o que chama de “seu verdadeiro amor”, surpreendentemente, não sua esposa, mas a bela Mathilde – com todo o frescor e charme de Marie-Josée Croze –, uma intérprete com quem Pierre trabalhou e depois viveu um romance intenso. É preciso ressaltar que a intensidade desse romance era recíproca e o amor de ambos jovial e bonito, embora idealizado, já que se encontram apenas por curtos períodos, furtivamente, em diferentes lugares do mundo: Mathilde chega a dizer a Pierre categoricamente “quando estamos juntos, nunca sinto tédio”, o que parece uma oposição ao casamento de Pierre e o medo angustiante de uma vida sem significado.
Quanto mais profunda é a relação entre Pierre e Mathilde, mais eles se aproximam de um fim previsível: ele deixaria a esposa e passariam a viver juntos em algum lugar fora de Paris. Porém, Pierre esbarra na mesma necessidade em que sua esposa havia antes estancado: não queria abrir mão do conforto, dos filhos, dos amigos, da casa na praia, da vida que levava e abominava ao mesmo tempo. Assim, o personagem central do filme se encontra na encruzilhada em que precisa escolher entre a paixão e a vida estável. Mais que escolher, Pierre precisa decidir o que preterir e sabe que, independente do caminho que escolha, haverá sofrimento: a certeza de que o melhor caminho é sempre o outro.
A história de Pierre não é uma provocação a Chloe, mas uma tentativa de mostrar a ela que é possível compreender a atitude de seu filho e que também ela não precisa estar presa à comodidade da vida em família, sustentada por valores que nem são seus. Chloe poderia também viver de maneira plena, sem precisar das migalhas do amor alheio ou da impressão de conforto que a vida conjugal lhe oferecia. No entanto, quem, além dela, seria capaz de confirmar tal veredito?
                Não obstante, Je L’aimais é um filme humano, de narrativa bem construída e personagens tão possíveis que identificá-los com pessoas que conhecemos ou mesmo conosco é inevitável. O filme conta, em alguma medida, a história de todos nós, mas cabe a cada um escolher seu caminho. 

Um comentário:

ALlan disse...

Bom dia,
assisti o filme e gostei bastante. A Encruzilhada é terrível e sabemos que na vida devemos escolher.
Mais interessante é você dizer que seja a decisão que fosse a dele, ele acharia o outro caminho melhor. sentimos isso as vezes.
Assisti o filme em francês, não sei se ele está nas locadoras brasileiras em português.
abraços,
ALlan