1.3.12

Serviço Público: Um Jogo de Cartas e Um Baralho Sujo


O serviço público sempre serviu de piada para a sociedade brasileira. O excesso de burocracia, a falta de igualdade no tratamento do público, a ineficiência, a lentidão, os favorecimentos e favorecidos, as manobras inescrupulosas e a corrupção sempre foram elementos facilmente associados às atividades da máquina pública no país. Desde seu surgimento até os dias de hoje.
É verdade que todas essas características não são atribuições esvaziadas de sentido ou puramente míticas: a política brasileira, ponto máximo do serviço público, vive em quase total descrédito diante da população e ilustra perfeitamente a situação.
No entanto, se as práticas historicamente têm sido essas, também é certo que nos últimos anos tem havido uma corrida para diminuir as desigualdades e possíveis diferenciações de tratamento. Teoricamente, ao menos. Muito tem se falado em isonomia e equanimidade como metas e características do serviço público nacional. Esse novo comportamento tem diminuído, em alguma escala, a brutalidade dos escândalos a que nos acostumamos, ainda que estejam infinitamente longe de cessarem por completo.
O que se pode notar diante desse estreitamento das beiradas por onde as pequenas e grandes corrupções vazam, é que a maneira de processá-las, de permiti-las ou mesmo criá-las tem se tornado mais sofisticada: se não se pode mais nomear arbitrariamente um servidor público, por um lado, pode se criar chances e favorecimentos – quando de interesse dos membros mais graúdos dos grupos que gerem “a máquina” –de modo mais discreto, com manobras sofisticadas e legais, mesmo que imorais ou questionáveis e obscuras.
Aos que não têm “padrinhos” – palavra comum no universo do funcionalismo público nacional durante anos, e que ainda não se perdeu por completo – a lei reserva-se rigorosa e exigente, intransponível. Àqueles que têm quem lhes ache as brechas legais, reservam-se as facilidades e possibilidades dos códigos.
Por isso o jogo da imoralidade e improbidade na esfera pública está ainda muito longe de sua última cartada. Se antes, as regras eram quebradas com golpes na mesa e baralhos de cinco naipes, hoje elas têm a sutileza e os cálculos de um pôquer em que a mão sempre favorece os escolhidos.
O serviço público não joga mais truco, não grita mais, salvo em alguns momentos: as grandes instituições públicas preferem, atualmente, as possibilidades e sofisticações do 21. Sonhar com um jogo de cartas na mesa guarda ainda distância imensa da realidade, porque os jogadores sabem bem como burlar a banca.

2 comentários:

Marcos Leonardo disse...

Pois é, Theo... agora eu também vejo que é assim que funcionam as coisas... e, a cada dia, tudo isso fica mais claro (na cara)... essas "sutis manipulações", que beneficiam uns em detrimento dos outros, começam a interferir no bom funcionamento da "máquina" e a prejudicar pessoas realmente dispostas a fazer um bom trabalho... mas deixa pra lá... 2014 tem Copa (?) no Brasil... vamos todos esquecer desse teatro de vampiros, enquanto eles nos sugam até a última gota de paciência e dignidade!

Theo G. Alves disse...

é isso mesmo, Marquinhos: os que mais nos cobram "compromisso" que essa máquina de reger idiotas são os que a operam de mãos sujas. manipula-se tanto e de maneiras sutis - mas às vezes como caminhões carregados de pedra - que nos fazem sentir desgosto profundo pelo que chegamos a nutrir esperanças.

eu ando desenganado. meu humanismo febril não me permite gostar do que vejo. tentarei - quixotesco - manter minha parte do mundo girando, combatendo meus pequenos moinhos até cansar, posto que eles certamente vencerão.

quanto à Copa de 2014, ela acontecerá, mas com um atraso de 2 ou 3 anos. coisa pouca.