19.2.12

O espelho satírico do mundo: uma leitura de Quadrinhos dos Anos 10, de André Dahmer



Uma das maiores dificuldades encontradas pelas gerações mais recentes é, sem dúvida, a capacidade de autocrítica: analisar suas características de forma crítica e mais aprofundada, compreender suas falhas mais pungentes, perceber-se, avaliar-se são exercícios cada vez mais diminutos na transição de gerações.

Esta geração da imagem, da interatividade nas redes sociais, da pós-consciência ecológica e dos novos papeis sociais parece ser também a geração da futilidade online, da inconsistência dos discursos, da inanição das relações sociais têtê-à-tête  e da dificuldade de ponderar causas e efeitos de suas atitudes.

É nesse cenário que surge um dos críticos mais contundentes desse momento de quebra paradigmática em que nos encontramos, e seu trabalho estabelece uma leitura precisa, irônica e afiada de nossos comportamentos, mas não através de volumosos compêndios filosóficos ou sociológicos: André Dahmer estabelece sua crítica ao modelo social em que vivemos a partir de suas tirinhas e charges publicadas também em jornais e revistas, mas, sobretudo, na internet.

Não surpreende, inclusive, que a ferrenha crítica de Dahmer encontre seu veículo mais eficaz na rede de computadores, já que essa mesma rede é um dos principais agentes modificadores do comportamento social das últimas gerações. Parte significativa dessas mudanças está relacionada diretamente às transformações da internet, à velocidade de acesso, conteúdo e níveis de interação.

A série de tirinhas “Quadrinhos dos Anos 10”, publicada por Dahmer quase diariamente em sua página www.malvados.com.br, traz ácidas situações que põem em xeque nossos comportamentos transformados mais marcantes. Elementos como as relações sociais, o trabalho, questões existenciais, televisão, internet, família e política aparecem constantemente como matéria de seu trabalho como desenhista. Justamente esse olhar para o mundo em que nos encontramos e carente de autocrítica faz com que Dahmer possa ser apontado como um dos principais cronistas do caos que compartilhamos, afinal, se é papel do cronista contar e refletir as histórias de seu tempo, poucos fazem isso tão bem quanto esse jovem artista carioca. A tradição de desenhistas como Schulz e Quino continua bem representada por aqui.

As reflexões sobre a maneira como as novas gerações, especialmente esta dos anos 10, se relacionam com a internet são frequentes na série e apontam para um caminho em que o vazio existencial não é preenchido, mas posto em estado de letargia: não interessa mais compreender e obter respostas para questões grandiosas, pois o que fazemos para evitar o terror de nossos espelhos é não pensar. Para Dahmer, a internet cria o ambiente perfeito para a falta de reflexão, substituindo o papel da televisão dos anos 90 e 2000 de uma maneira ainda mais eficaz. Essa ausência reflexiva gera a necessidade de compartilhar com o mundo nossas situações mais imediatas, por ínfimas que sejam, dando mais importância ao registro efêmero do que a situação em si: a vida real serve apenas para alimentar as redes sociais. Algo como preferir fotografar um passeio em um lugar deslumbrante para depois disponibilizar fotos que renderão comentários no Facebook em lugar de viver e ver a olho nu a beleza desse lugar.





A leitura que Dahmer nos apresenta desse mundo caótico é tão precisa e irônica que nos permite rir do que nos tornamos, por pior que seja o resultado. As futilidades da geração dos anos 10 também resultam em valores corrompidos pelo dinheiro e nas relações aviltantes entre homem e trabalho além de adormecer a indignação que, por exemplo, a maneira como indústria e mídia manipulam as pessoas deveria provocar:





O Facebook e o Youtube são fontes intermináveis de matéria bruta para a ourivesaria de Dahmer, que sabe onde encontrar o que mais peculiariza essa geração tão cheia de carências e incoerências quanto quaisquer outras, mas que pensa pouco sobre si mesma. A preocupação em seu trabalho não é a de explicar para onde iremos, posto que não se trata de um olhar profético para o mundo, mas de nos mostrar quem somos diante do espelho satírico em que sua obra vem se convertendo. Dahmer parece saber muito bem quem nós somos.



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