5.2.12

Exposições no Museu: Igor de Carvalho: Só Ele, Só.


http://soundcloud.com/igordecarvalho, www.facebook.com/igordecarvalho
  
          Não é de hoje que Pernambuco reúne parte significativa da melhor música popular produzida no Brasil. Nas últimas décadas, nomes como Chico Science, Nação Zumbi, Otto, Mestre Ambrósio, Eddie, Mombojó, China, entre tantos outros despontam por sua criatividade e reconhecimento de raízes profundas e misturadas de uma nação plural. A música feita em Pernambuco é local e universal simultaneamente, como deve ser sempre a arte. Nesse recorte, músicos, intérpretes e compositores surgem em profusão, Júnio Barreto e Tibério Azul não permitem que essa afirmação soe em falso.
         Cabe sempre a ressalva de que a música pernambucana é geográfica, mas não se trata de um movimento uniforme em que todo mundo tem a mesma cara, a mesma voz e repete fórmulas pré-moldadas de acordes e temáticas. Se a música de Pernambuco é movimento, então é movimento quântico, porque acontece junta, mas suas individualidades permitem que cada um seja singular no que faz.
         Caso é que há alguns poucos meses tive o prazer de encontrar a música de Igor de Carvalho, jovem pernambucano que justifica suas origens. A música de Igor tem a cara de Pernambuco, mas tem também a sua e de todo um mundo que esse cantor/compositor representa e contesta. Com a divulgação de seus trabalhos em redes sociais, Igor parece caminhar para um disco coeso em forma e conteúdo, já que sua musicalidade jovem e vigorosa vem acompanhada de reflexões às vezes bem humoradas, às vezes intimistas, mas sempre perpassadas por um atento olhar de cronista, por isso observadora do mundo em que se realiza.
        Suas leituras do universo-ao-redor rendem bons momentos de humor cáustico/refinado, como no samba “Saldo Negativo”, em que o músico canta as armadilhas financeiras do dia-a-dia de cada brasileiro, ao melhor estilo Noel Rosa. É dessa canção a estrofe “Eu negociei o meu Amor/ Em tarifas reduzidas, Financiei e de entrada/ Dei só um Cabral e um por favor/ O meu limite é pequeno e o Dólar tá em alta”. É ainda boêmio provocador: “Se o cobrador telefonar, peça pra ele respeitar a boemia,/ E mande ele retornar de meio dia/ Que é pro doutor não se cansar.”
        O humor também está presente nos versos de “Não Sei Você”, um samba com quê de música caribenha divertido e sarcástico: “Eu sou desinformado, sou complexado/ Sou bacharelado, em baixar CD/ Sou do avesso, ao contrário, dos versos quebrados/ Dos sambas notados, os que cantam você.”
        Além do olhar lúdico, a canção “Só Eu, Só” apresenta um compositor intimista e sintetiza o universo confuso de sentimentos que nos formam, a maneira como cada um de nós costuma seguir adiante. E é nessa aceitação das nossas próprias distorções e descaminhos que o jovem músico encontra o primeiro sinal de sua trilha: a consciência de que estar perdido não permite parar. “Eu cravo os dentes pra saber o gosto que a vida dá” é um verso suficiente para sustentar qualquer canção.



      Igor de Carvalho teve a gentileza de responder algumas perguntas-clichês que lhe fiz e que apresento  a seguir:

Theo G. Alves: Você é de Recife, cidade em que há uma efervescência musical da cena independente. No entanto, é possível perceber na música recifense variações interessantes nas produções. Como você se encontra em meio a essa cena musical? Como você a percebe e como ela influencia o seu trabalho? Se você vivesse fora de Recife, acredita que sua música seria diferente?

Igor de Carvalho: Pernambuco é, de fato, minha maior influência. Não só como artista mas como cidadão. A cena pernambucana é muito bonita e grande, devido ao nosso passado musical. Antigamente, o fato de tudo girar em torno do eixo Sul/Suldeste, fez com que o pernambucano desse valor ao que é da terra e criasse apenas com as influências regionais. Acabou saindo algo mais autêntico.  O manguebeat é a prova disso. Por respeito e admiração aos que criaram tudo isso, acho importante e necessário ter a pernambucalidade na voz, nas composições e nas idéias. Se eu vivesse fora disso, minha música seria completamente diferente.

TGA: Falando em influências, que tipo de música você costumava ouvir ainda menino e o que você ouve hoje? O reggae e o samba estão muito presentes no que você divulgou de sua obra até agora, então que relação esses estilos têm com a música que você faz?

IdC: Quando eu era bebê, minha mãe dizia que só conseguia pegar no sono ao som da música clássica. Talvez venha daí, minha paixão por música. Mas é engraçado falar sobre minhas influências. Não costumo dizer que tal tipo de música me influencia, e sim o conjunto da obra de um artista. E são tantos artistas e suas obras que eu admiro e acabo trazendo pra dentro do que faço, que nem eu consigo dizer qual o meu estilo musical, quando me perguntam.

TGA: A religião está presente em Samba de Todas as Crenças. Como as religiões influenciam sua música?

IdC: Sou religioso. E a fé me fascina tanto quanto a música. Alias, acho que elas têm uma ligação muito forte, ambas fazem você seguir em frente. Faço parte de uma religião de muita força, o Candomblé. E a reverencia que tenho pelos Orixás está sempre em minhas composições. Cantar para Eles é uma forma que encontrei de me despir das vaidades que a música nos traz e prestar homenagens mais que justas aos Deuses.

TGA: Qual é a sua relação com outras manifestações artísticas como a literatura, o cinema, artes visuais? Há algum reflexo disso no seu trabalho?

IdC: Pra mim, a arte é uma só. E aquele que ama a arte, ama ela por completa. É como costumo dizer, quem realmente ama a praia, não liga para o sol. Literatura, cinema, teatro, tintas e todas as manifestações estão interligadas. Impossível não ter influência uma com a outra. E não é diferente comigo.

TGA: Nas suas letras há uma série de leituras e imagens da vida cotidiana, como o caso da canção “Em Furto”. Como o cotidiano serve de matéria-prima para você, como esse processo se realiza?

IdC: A minha música é muito vivida. Geralmente são momentos meus, de amigos, histórias que ouço ou vejo. Sentimentos vividos. Do que seria a música sem isso? O cotidiano é o que faz a gente sentir, sonhar, pensar, acreditar. E tudo isso faz parte da música. Uma coisa acaba sendo ligada a outra. Mesmo quando a gente não quer.

TGA: Muitas pessoas conheceram seus trabalhos iniciais a partir da divulgação através das redes sociais. Qual a sua opinião a respeito dos downloads gratuitos, direitos autorais, legalidade e ilegalidade na internet?

IdC: Como digo em uma das minhas canções, "Não Sei Você", "sou bacharelado em baixar CD". Acredito que o que conheço de música hoje, eu tenho que agradecer à internet. Hoje, todo mundo usa, então acho que seja o primeiro passo pro artista que tá iniciando sua carreira. Mostrar a cara, mostrar seu trabalho. Procurar aparecer. Acho esse tipo de divulgação válida. Contanto que o dono dos direitos esteja de acordo. Isso é uma coisa muito pessoal... íntima, eu diria. Depende muito das pretensões de cada um. No meu caso, não vejo problema algum. A circulação da minha música pela internet deve-se ao fato da popularidade dela e isso me deixa muito feliz.

TGA: Já há projeto de reunir suas músicas em disco? E como andam os acertos e planos para isso?
IdC: Existe muitos projetos em mente. E sim, existe o projeto do primeiro CD cheio. Mas ainda estou procurando amadurecer mais para isso.
Quero fazer com que seja algo bem elaborado e de boa qualidade. A paciência é vizinha do sucesso, e eu prezo muito por elas.

TGA: Em Saldo Negativo e Não sei você, por exemplo, há uma série de ironias e brincadeiras com o estereótipo do músico que tem dificuldades de viver de seu trabalho. Essa é mesmo uma carreira difícil e como essas dificuldades se dão? Qual a sua opinião sobre financiamento com dinheiro público para gravação e lançamento de discos?

IdC: Hoje, no Brasil, tá difícil de viver seja qual for a sua profissão. Música é uma profissão difícil, mas linda. Quando nós estamos preparados pra ela, os medos e frustrações deixam de ser maiores que a vontade de viver de música. Me considero ainda em preparação, e infelizmente não só depende de mim. Gravar um CD, criar um trabalho é caro. É aí que entram os parceiros (geralmente, poder público) e seus prazos.

TGA: Como se dá seu processo de criação artística? E o que diria se precisasse apresentar a alguém sua música?

IdC: Tenho o costume de compor sempre. Tenho cerca de 80-100 músicas. Com a banda, trabalhamos em cima de mais ou menos 18. Geralmente mostro a música para a banda e fazemos nossas modificações em estúdio. Quanto a apresentar minha música, costumo dizer que é música popular brasileira. No sentido literal da palavra. Não é uma grande resposta. Mas prometo procurar algo melhor para uma próxima vez.

4 comentários:

CASSILDO SOUZA disse...

Excelente entrevista, meu caro Théo. Não a desejar para nenhum desses jornalistas que se dizem entendidos de música por aí. E as respostas do Igor de Carvalho soam muito lúcidas. É exatamente isso, há muita gente boa fazendo música no Brasil. Se aparece ou não, é um problema do mercado e da falta de critério entre os ouvintes. Parabéns e grande abraço!

Theo G. Alves disse...

Obrigado, Cassildo. Mérito pro Igor de Carvalho que é bom músico e gente boa.

Pernambuco apresenta linhagem e o que a gente quer é boa música.


abraço!

Felipe disse...

Ótimo texto e uma bela entrevista com o talentoso Igor de Carvalho. Creio que o Igor se saiu bem nas respostas, não acham? Parabéns pelo trabalho.

Abraços,

FELIPE FLORES CARDOSO - Sapucaia do Sul, RS.

Theo G. Alves disse...

Obrigado, Felipe. Feliz em recebê-lo por aqui.

O Igor me parece um grande sujeito, bem centrado e consciente sobre o que diz e o que faz. É uma grande figura dessa nova música brasileira, não tenho dúvida.

Abraço!