11.2.12

Ai, Se Eu Te Pego: o artesanato industrial e a música efêmera


O status de arte da música popular – ou pop – sempre foi posto em cheque, já que esse é um estilo que obedece a estruturas que variam dentro de um padrão pré-estabelecido, como duração, refrães, andamento e coisas do tipo. O historiador Eric Hobsbawn dá explicações muito mais completas e sensatas sobre as características da música pop em seu belíssimo livro A História Social do Jazz.

A discussão acerca do caráter artístico da música está aparentemente superada, já que essas produções voltadas para um mercado consumidor maciço podem ser desenvolvidas de forma pré-moldada, contudo seu grau de expressividade transcende suas limitações estruturais, assim como as técnicas de apropriação musical são utilizadas para criar novas linguagens, o que é um aspecto fundamental da arte.

Obviamente, o domínio técnico da música clássica transcende o simples fazer repetitivo como finalidade e demanda verdadeira exegese de seus intérpretes, sendo uma música geradora, em que o compositor amplia constantemente os limites de seu universo musical constantemente. O jazz, música de cunho absolutamente popular em suas origens, atingiu o status de arte conceitual à medida que seus improvisos e expressividade contribuíam para um intenso arejamento da linguagem musical.

No entanto, o domínio da técnica sem que se permita esse arejamento de linguagens está aquém da arte e mais para o artesanato. Esse domínio da técnica é essencial para sua sobrevivência. Porém, a indústria cultural de massa fez prevalecer suas necessidades de mercado em lugar do desenvolvimento da técnica, o que criou uma série de produtos culturais que se parecem com artesanato musical, mas cuja produção em escala industrial não permite que os vejamos assim. É daí que aparece o que podemos chamar de “artesanato industrial” da música.

Esse artesanato industrial – a expressão é tão paradoxal quanto o que ela representa – atende às necessidades mais imediatas de consumo de música, tanto da própria indústria quanto de seus ouvintes. A produção em série dá ao produto final ausência de identidade autoral, mas lhe confere um rótulo igualmente estratégico do ponto-de-vista mercadológico.  Essa falta de identidade permite que as produções sejam vazias de conteúdo e absolutamente frágeis quanto à forma: a música – ou a mercadoria, se preferir chamá-la assim – precisa ser fácil para que se possa ter familiaridade com ela desde o primeiro minuto, e para que essa facilidade seja alcançada, o ouvinte precisa recebê-la sem esforços para compreendê-la em sua totalidade.

Se esse produto é facilmente recebido, ele é igualmente descartado, já que a repetição intensa a que se submete cansa rapidamente seus ouvintes. Logo, há nestes uma necessidade constante de novos produtos que são, de certa forma, os mesmos. Se a obra de Beethoven sobrevive há séculos, dada sua complexidade e sensibilidade, a música de Michel Teló não durará além de uns poucos meses, pois é vazia de conteúdo/forma. Os que hoje a repetem mecanicamente, logo a esquecerão por estarem saturados do prazer imediato e insuficiente que ela deve provocar em seus ouvintes, naturalmente menos exigentes.

Vale salientar que os ouvintes da música pop são cada vez menos exigentes e demandam produtos culturais cada vez mais efêmeros. Prova disso é que essa música pop a que chamamos de artesanato industrial serve como pano de fundo para os mais diversos momentos de seus ouvintes, mas nunca como peça principal: ouve-se música para dançar, para varrer a casa, conversar com os amigos, beber com eles, dirigir ou até estudar, porém não se ouve música para ouvir, pois o caráter industrial desse artesanato é destituído de alma e corpo.

3 comentários:

Wescley J. Gama disse...

Caro, Theo, gostei bastante do seu texto. E ele me remeteu a um pensamento de Adorno: “Para quem a música de entretenimento serve ainda como entretenimento? Ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais para o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. A música de entretenimento preenche os vazios do silêncio que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigências. Assume ela em toda parte, e sem que se perceba, o trágico papel que lhe competia ao tempo e na situação específica do cinema mudo. A música de entretenimento serve ainda – e apenas – como fundo. Se ninguém mais é capaz de falar realmente, é obvio também que já ninguém é capaz de ouvir. (...) O mais pertinaz motivo da decadência do gosto da música é o do encantamento dos sentidos, que no entender de muitos amolece e torna a pessoa incapaz de qualquer atitude heróica.” Theodor W. Adorno
Li esse texto no lançamento da orquestra de violões, em 2008. O interessante é que o texto já deve ter uns 60 anos ou mais, mas atualíssimo. abs!

Theo G. Alves disse...

Meu querido Wescley,

sua lembrança de Adorno fez a publicação deste artigo valer o triplo ou mais!

Grande abraço!

Dalva M. Ferreira disse...

Belo texto. Aprendi muito.