25.1.12

Museu dos Dias: O constrangimento como ferramenta de cobrança pública

Desde menino, aprendi que quando se quer ser ouvido por políticos, é preciso constrangê-los, embaraçá-los diante do público, porque só assim eles costumam reagir. Embora tentem, com frequência, esconderem-se nos subterfúgios da retórica vazia e da demagogia barata, é só diante da palermice pública que um político costuma se comprometer com o povo.

E lembro isso para dizer que nesta quarta-feira, 25 de janeiro, os santa-cruzenses foram às ruas cobrar do poder público um posicionamento a respeito de ações para conter a violência na cidade. E fizeram isso muito bem: o comércio parou, as pessoas marcharam, carregaram faixas, fizeram barulho e conseguiram uma audiência pública com o prefeito local para discutir o tema e exigir dele comprometimento com a causa.

Obviamente, não tenho mais idade para ser fervorosamente ingênuo. Em verdade, nem sei se um dia a tive. Claro que protestos como esse devem ser movimentos políticos, mas não politiqueiros. É necessário que essa ida às ruas seja o exercício democrático da gestão pública, da cobrança que o povo precisa fazer a seus governantes em nome de um bem social, coletivo. Mas, confesso, percebo nisso maquinações políticas – “politiqueiras” é um adjetivo melhor neste caso – para constranger o poder público em troca de um bem menos valioso que a real segurança da população: a desmoralização dos governos atuais, tanto municipal quanto estadual.

É óbvio também que as segundas intenções por trás dessa manifestação não a descreditam como um todo, pois o problema da violência na cidade é real e é necessário que a população saia de seu casulo defensivo para exigir uma postura adequada de seus representantes. A prova de que os cidadãos santa-cruzenses se tornaram vítimas de sua própria cidade batem à nossa cara diariamente: roubos de celulares em larga escala, o consumo descontrolado de crack em várias camadas sociais e todas as faixas etárias, a pobreza gritante de grande parte da população, a miséria de outra parte igualmente grande, aparelhos de saúde claudicantes – como um hospital que funciona de maneira mendicante e postos de saúde que nem chegam a funcionar –, uma rede de educação lastimável e a falta quase total de projetos que incentivem o desenvolvimento da arte e das representações culturais.

Outro aspecto merecedor de atenção neste caso é que, por muito tempo, a população santa-cruzense pareceu não se chocar com a violência crescente na cidade, porque havia nesse processo uma clara situação de marginalização, já que a violência atingia mais diretamente os bairros com maiores carências e a população de menor poder aquisitivo e maiores problemas sociais. Assim, a sombra da violência parecia atingir menos diretamente os comerciantes e bairros elitizados (perdoem-me pelo anacronismo da expressão, mas no contexto local é a única possível). Agora, natural que é, esse crescimento da violência entrou em processo de metástase: não há mais bairros, casas, lojas ou pessoas seguras pela cidade. Logo, o monstro que a população ignorou por tantos anos veio agora devorá-la.

Os problemas de segurança e os outros apresentados nos parágrafos anteriores estão juntos porque não há como pensá-los separadamente, pois um é, ao mesmo tempo, causa e consequência do outro, pelo que não podem ser resolvidos de forma isolada. Mas isso é ensinar ao titereiro o gracejo dos bonecos. Adiante.

Essa lista de problemas certamente não apresentará novidade alguma para quem vive em Santa Cruz, como eu, que mantenho minha base familiar na cidade. No entanto, a população acostumou-se a não reclamar, ou fazer isso em surdina, facilitando a vida de quem não lhes quer ouvir. É comum ver as pessoas acuadas, não se sentindo à vontade para caminharem pela cidade à noite, assim como frequentemente se veem obrigadas a esconder seus telefones celulares em público. E é impossível calcular quantas já tiveram suas vidas ameaçadas pela mixaria de seus bens.

Mas um bom primeiro passo foi dado. Toda a movimentação gerada fez com que o poder público pudesse perceber a saída da inércia em que sua população se encontrava. Gestores atuais e anteriores foram questionados, houve vaias para políticos e também alguns aplausos. É preciso lembrar que há sempre os aproveitadores de última hora, que aparecem para cobrar de todos o que também poderia ter sido feito por eles.

Fiquemos com o que houve de bom: um grito coletivo capaz de fazer com que o poder público perceba que está sendo vigiado por alguns dos verdadeiros gestores de uma administração: o povo, ou pelo menos parte dele. É hora de constrangê-los ainda mais.


4 comentários:

@luisa__rocha disse...

Não sou a melhor pessoa pra falar da situação de Santa Cruz, pois não moro lá ou frequento, mas ouço muito sobre a crítica situação da cidade. Lembro que, quando a ~Turma do Pânico~ estava aterrorizando Currais Novos, as pessoas comentavam "tá virando Santa Cruz", "estamos no Paraíso" (referindo-se ao bairro).

Acho, sim, que a população tenha que se mobilizar para cobrar das autoridades uma postura e soluções para o problema. Gosto quando as pessoas percebem que vivem numa democracia, que, quando julgarem necessário (e quando se mobilizarem, obviamente), podem mudar o rumo das coisas.

Entretanto, parabenizo-o pelo uso da expressão "politicagem". Repito: não sei o contexto da situação, mas acredito (pela vivência em uma cidade onde ano de política é ano de guerra) que tenha havido um ~dedinho~ de sensacionalismo opositor nisso tudo.

Muito bom o texto. Que as pessoas, principalmente de Santa Cruz (e aqui incluo os que moram, apenas estudam ou trabalham)entendam o sentido maior dessas manifestações. Que não as façam por modismo ou politicagem, mas que unam-se para atingir objetivos comuns!

Abraço!

Theo G. Alves disse...

Luisa,

é exatamente esse entendimento que espero das pessoas que vierem a ler esse texto.

Percebmos a politicagem, mas temos de ser maiores que isso. Sem ingenuidade, mas com a certeza de que é preciso e possível se mobilizar.

Beijo!

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


COMPARTIENDO ILUSION


CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...




ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA, TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

José
Ramón...

Carlos Eduardo disse...

essa postura deve ser a de todos os brasileiros, é um exemplo a ser seguido... chega de aceitar tudo de cabeça baixa... chega de sermos reféns do nosso silencio...