16.1.12

Museu dos Dias: As Micaretas de Cristo


Uma coisa as manifestações religiosas perderam com o passar dos anos: a solenidade. Se era preciso mostrar ao mundo ou aos próximos a fé que se sentia, isso costumava ser feito com certa cerimônia e serenidade. As pessoas davam à exposição da fé o tom solene que as promessas de salvação e conduta requeriam. Hoje, o que mais se percebe é uma carnavalização da fé e da religiosidade.
As cidades estão cheias do que se poderia chamar de micaretas de Cristo: são carros de som, trios elétricos, bandas, palanques e fogos anunciando a salvação e a presença de Deus no meio da rua. O que antes era solenidade, hoje é balbúrdia e alarde, como acontece nas outras manifestações carnavalescas.
O barulho costuma ser ensurdecedor e todos são obrigados a receberem goela abaixo pregações que não querem e que, muitas vezes, perturbam a harmonia de nossas vidas. As micaretas de Cristo ou showmícios de Deus acordam as crianças, assustando-as com as explosões dos fogos; impedem a leitura de quem precisa se concentrar, com seus padres ou pastores – repare que essas manifestações são católicas, evangélicas ou se dizem ecumênicas, como se quem as organiza soubesse o que isso significa – aos berros, chamando por Deus, como se Este fosse surdo; elas não permitem que um sujeito trabalhador, muitas vezes em paz com seu próprio Deus, descanse de um dia árduo; ou mesmo incomodam os que apenas não querem ouvi-las e têm esse direito.
Entendo o direito de pregar uma religião, mas não aceito que não compreendam que também há o direito de não querer ouvir essas pregações. Ninguém é obrigado a compactuar com essa balbúrdia, essa sequência de desrespeitos em nome de Deus. E também me parece irônico que “Aquele que tudo vê e de tudo sabe” precise de tantos gritos para escutar alguém. Parece que os religiosos não acreditam muito nessa história de onisciência, pois se a levassem a sério, saberiam que fazer suas preces ao pé da cama, em silêncio, seria o suficiente para que Deus os ouvisse de onde quer que fosse.
Penso ser um tanto ridículo padres e pastores bancando as Ivetes Sangalo de Deus, inclusive fazendo paródias de suas músicas mais famosas. Pergunto-me se algum padre descolado já fez uma paródia do Michel Teló e anda cantando por aí “Ai, se Deus te pega, que delícia” e outras tais. Cada um que faça o que desejar, desde que esse desejo não incomode os que não compactuam, ou simplesmente não querem participar, do mesmo escarcéu.

5 comentários:

CASSILDO SOUZA disse...

Muito feliz o seu texto, amigo Théo. Hoje, tudo se descontextualizou, as pessoas não sabem direito o que querem fazer, nem o que estão dizendo. Parabéns!

Theo G. Alves disse...

cassildo, meu caro, obrigado.

eu não entendo mais o mundo, mas continuo tentando.

abraço!

Claudinha ੴ disse...

Olá Theo!
Meu querido e 'Centenário' amigo, eu concordo com você em todos os aspectos! São verdadeiras lavagens cerebrais! E ainda me divirto com sua crítica afiada à música do momento, uma grandiosidade de acordes e poesia, rima e traduções para outras línguas que fazem-me rir!!!
Ah, onde vamos parar???
Um beijo! Feliz 2012!

Claudinha ੴ disse...

O comentário anterior é meu. Claudinha!Não sei se saiu com o meu login. BJ

Theo G. Alves disse...

É, Claudinha, o mundo anda de lascar.

E não sei onde vamos parar, mas torço pra que não seja neste lugar em que estamos.

beijo enorme e um belíssimo ano pra ti!

:D