11.1.12

Exposições no Museu: Impressões Pessoais e Descomprometidas Sobre "Avante", de Siba


Complexidade. A palavra, o clichê, já até saiu de moda, mas isso não significa dizer que o homem tenha se tornado menos complexo por isso. Em verdade, essa multiplicidade de faces que somos contempla direitinho esse conceito. Se isso se aplica ao homem, jamais seria diferente ao artista, esse humano mais humano que o habitual.
É a partir dessa complexidade, dessa multiplicidade de faces que constituem o mesmo elemento e que no homem é muito mais que a soma de suas partes, que Siba não se reinventou – palavra que me cansa muito mais que “complexidade” – mas deixou mostrar-se ao mundo uma face diversa das que já conhecíamos em outros projetos seus, como os discos com Mestre Ambrósio ou A Fuloresta, belíssimas obras que nos permitiam esperar de Siba sempre algo de muita qualidade. Nenhuma gota de decepção: Siba abriu 2012 com seu novo álbum, muito adequadamente chamado “Avante”.
Em Avante se pode perceber que o Siba que emerge das canções é o mesmo de sempre, mas, ao mesmo tempo, outro. Dileto, diverso, mas Siba. A poesia cujo atavismo remonta à poesia popular nordestina, a seus violeiros relidos em guitarras, poetas de verso e tradição orais está presente em todo o álbum, mas desta vez preenche uma música de guitarras – é o disco de um guitarrista – com pé no rock, intervenções eletrônicas, mas com um quê dos elementos que fizeram o Siba da mata pernambucana. Há quem possa dizer que essas características já estavam presentes nos trabalhos do Mestre Ambrósio, o que é verdade. No entanto, há nelas um permeio de guitarras, uma dose maior de contemporaneidade que revela: é o mesmo homem em outra face.
O disco é cheio de momentos altos: a poesia de ingenuidade profunda; o popularesco rasgado (“Para enganar a fome/ não quero espeto da praça/ Dou um chupão no Gellis e o tira-gosto é cachaça”, em Bagaceira); as soluções improváveis para versos quase impossíveis (E os microfones parecem longas serpentes mutantes/ que copulam com as máquinas que acendem os botões brilhantes” ou “E a língua destila a seiva dos dentes da cascavel/ e o que os ouvidos recolhem são fragmentos do fel/ que espirrou das marretadas que destroçaram Babel”, em Avante); poesia (“Sou condenado ao vazio da calmaria, às lágrimas da chuva fria/ e a regressar sem pescado”, ou “A brisa/ por ser mais carinhosa/ é quem mais tem castigado”, Brisa); a sonoridade da guitarra quase jazzística; a herança ancestral da floresta; a companhia de Lira (ex-Cordel do Fogo Encantado) nos vocais de Um Verso Preso; que ainda conta com guitarras à repentista; o flerte com o brega (Ariana); a intrigante Qasida, uma bela peça sobre o sentimento de não se pertencer mais ao lugar a que antes se pertencia...
E por falar em Lira – não posso me furtar a esse adendo – é verdade que este vive fase parecida com a de Siba, pois ambos têm raízes e histórias musicais com alguma semelhança, e Lira laçou há pouco um disco solo, com uma mesma tentativa de recriar sua identidade. Mas uma coisa separa as duas experiências: a de Siba rendeu um lindo disco, enquanto a de Lira custou um disco cansativo e insosso, indigno de sua obra ao lado de sua antiga banda. No entanto, há crédito. Lira se re-encontrará.
Mas é Siba que nos importa. Numa das mais interessantes letras do disco, o músico professa: “quem parte berrando avante/ pode cair, mas não volta”, em Avante. Contudo, a verdade é que Siba não cai, nem mesmo estremece.

Artista: Siba
Disco: Avante
Produção: Fernando Catatau e Siba
Banda: Siba: voz, guitarra e viola; Leo Gervázio: tuba; Samuel Fraga: bateria; Antônio Loureiro: vibrafone e teclados
Onde encontrar:  WWW.mundosiba.com.br
Preste atenção: na faixa que encerra o disco, Bravura e Brilho

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