30.1.12

Museu dos Dias: A profilaxia dos shoppings e a harmonia excludente

As praias urbanas sempre me pareceram símbolos de liberdade e convivência harmônica entre as pessoas de quaisquer classes sociais ao longo das décadas. A ausência de barreiras físicas claras, a gratuidade do acesso, a possibilidade de compartilhar espaços com uma infinidade de membros das famílias ou vizinhança, as refeições levadas de casa e outros aspectos, permitiam essa co-habitação pacífica. Obviamente, existiam – como ainda existem – áreas dessas praias em que determinados grupos se posicionavam, no entanto, nada podia privá-los de ocasionais misturas. Assim, a convivência democrática era possível e as delimitações sociais eram menos claras. Isso é o oposto dos novos espaços de convivência: os shoppings, sínteses do mundo ideal pasteurizado.

Se a praia permitia gratuidade, os shoppings são o auge das relações de compra e venda. Tudo nos shoppings é pago, mesmo quando não se paga nada aparentemente, pois as vitrines, fachadas, cartazes e até as pessoas fazem propaganda dos shoppings, de suas lojas e serviços, mas, sobretudo, do estilo de vida que lá se comercializa. Ainda que os shoppings não cobrem pelo acesso, o ambiente é, por natureza, intimidador aos menos favorecidos. Há, a partir daí, um movimento de exclusão ideológica.

Como não se sentir intimidado diante da vida pasteurizada e asséptica que os shoppings apresentam? Os espaços são impecavelmente limpos – pelo menos os que dão à vista; as lojas são perfeitamente decoradas, como se pertencessem a um mundo de sonhos; tudo funciona perfeitamente e sem sobressaltos; tudo é mais caro que na maioria das lojas de ruas e avenidas; as pessoas parecem sempre bem vestidas, mesmo quando se desviam de um padrão, pois os que o fazem acabam por seguir uma espécie de “variação de padrões permitidos”.

Explico: os desvios do padrão de vestimenta e comportamento ocorrem dentro de uma espécie de escala de variações permitidas, o que se estabelece em acordo tácito, já que não há regras estabelecidas sobre isso. Os que saem do padrão, o fazem dentro do que lhes é permitido e nisso um único aspecto está inquestionavelmente proibido: o da pobreza. Com o crescimento da classe C, esses espaços e padrões passaram a ser mais largos, no entanto, paradoxalmente mais radicais, pois atendem aos ideais de consumo das classes mais abastadas e dessa nova que experimenta bens e serviços que até então desconheciam, mas sem os quais não se permitem mais viver.

Dessa forma, a segurança quase impecável dos shoppings é uma resposta à insegurança das ruas, assim como a beleza das lojas é o que sonham os lares de quem passa por lá. Os shoppings, ao contrário das praias, não guardam a surpresa da chuva ou o excesso de calor, já que em seus ambientes o tempo nunca muda. Não há relógios e a iluminação artificial mantém sempre a ilusão de que as horas não existem. Quanto mais tempo em um shopping, maior tende a ser o número de comercializações feitas. Piso, paredes, corredores e banheiros são sempre imaculados. Tudo nos shoppings traz à mente uma palavra imediata: profilaxia.

Essa mesma profilaxia gera a exclusão que os shoppings promovem. As pessoas não querem sentir medo de serem abordadas por criminosos nem serem incomodadas por pedintes, assim como não querem a sensação de proximidade de convívio com a pobreza. Fora, perto de casa, por exemplo, isso é permitido, mas não nos shoppings. Não há problemas em ser abordado por vendedores irritantes, insistentes e inconvenientes. Porém, perceber próximo aquilo que mais se nega não é aceitável no sacro ambiente dos shopping centers. O caos estabelecido nas ruas é prova de nossa falência social; entre as paredes do shopping, a sociedade excluiu quem a incomodava, pois não importa consertar problemas, mas impedir que eles cheguem até nós.

Esta semana circulou no Facebook uma foto que dizia ser o registro da abordagem de seguranças do Natal Shopping a uma mãe e sua filha, convidadas a se retirarem do lugar porque não trajavam roupas adequadas. É mais um eufemismo para a pobreza, que não tem lugar nesses ambientes. Não sei de quem é a foto nem se ela é verdadeira, no entanto relatos de cenas como essa se acumulam. É comum ouvir depoimentos de quem presenciou acontecimentos dessa monta. Infelizmente, é comum também que essas descrições venham seguidas de relatos de que ninguém parece ter interferido ou intervindo em favor dos abordados. Deve ser o retrato da nossa própria postura, afinal, somos nós que expurgamos essas pessoas de lugares assim. Pergunto-me, aliás, pergunto-nos: como ainda conseguimos dormir à noite?

25.1.12

Museu dos Dias: O constrangimento como ferramenta de cobrança pública

Desde menino, aprendi que quando se quer ser ouvido por políticos, é preciso constrangê-los, embaraçá-los diante do público, porque só assim eles costumam reagir. Embora tentem, com frequência, esconderem-se nos subterfúgios da retórica vazia e da demagogia barata, é só diante da palermice pública que um político costuma se comprometer com o povo.

E lembro isso para dizer que nesta quarta-feira, 25 de janeiro, os santa-cruzenses foram às ruas cobrar do poder público um posicionamento a respeito de ações para conter a violência na cidade. E fizeram isso muito bem: o comércio parou, as pessoas marcharam, carregaram faixas, fizeram barulho e conseguiram uma audiência pública com o prefeito local para discutir o tema e exigir dele comprometimento com a causa.

Obviamente, não tenho mais idade para ser fervorosamente ingênuo. Em verdade, nem sei se um dia a tive. Claro que protestos como esse devem ser movimentos políticos, mas não politiqueiros. É necessário que essa ida às ruas seja o exercício democrático da gestão pública, da cobrança que o povo precisa fazer a seus governantes em nome de um bem social, coletivo. Mas, confesso, percebo nisso maquinações políticas – “politiqueiras” é um adjetivo melhor neste caso – para constranger o poder público em troca de um bem menos valioso que a real segurança da população: a desmoralização dos governos atuais, tanto municipal quanto estadual.

É óbvio também que as segundas intenções por trás dessa manifestação não a descreditam como um todo, pois o problema da violência na cidade é real e é necessário que a população saia de seu casulo defensivo para exigir uma postura adequada de seus representantes. A prova de que os cidadãos santa-cruzenses se tornaram vítimas de sua própria cidade batem à nossa cara diariamente: roubos de celulares em larga escala, o consumo descontrolado de crack em várias camadas sociais e todas as faixas etárias, a pobreza gritante de grande parte da população, a miséria de outra parte igualmente grande, aparelhos de saúde claudicantes – como um hospital que funciona de maneira mendicante e postos de saúde que nem chegam a funcionar –, uma rede de educação lastimável e a falta quase total de projetos que incentivem o desenvolvimento da arte e das representações culturais.

Outro aspecto merecedor de atenção neste caso é que, por muito tempo, a população santa-cruzense pareceu não se chocar com a violência crescente na cidade, porque havia nesse processo uma clara situação de marginalização, já que a violência atingia mais diretamente os bairros com maiores carências e a população de menor poder aquisitivo e maiores problemas sociais. Assim, a sombra da violência parecia atingir menos diretamente os comerciantes e bairros elitizados (perdoem-me pelo anacronismo da expressão, mas no contexto local é a única possível). Agora, natural que é, esse crescimento da violência entrou em processo de metástase: não há mais bairros, casas, lojas ou pessoas seguras pela cidade. Logo, o monstro que a população ignorou por tantos anos veio agora devorá-la.

Os problemas de segurança e os outros apresentados nos parágrafos anteriores estão juntos porque não há como pensá-los separadamente, pois um é, ao mesmo tempo, causa e consequência do outro, pelo que não podem ser resolvidos de forma isolada. Mas isso é ensinar ao titereiro o gracejo dos bonecos. Adiante.

Essa lista de problemas certamente não apresentará novidade alguma para quem vive em Santa Cruz, como eu, que mantenho minha base familiar na cidade. No entanto, a população acostumou-se a não reclamar, ou fazer isso em surdina, facilitando a vida de quem não lhes quer ouvir. É comum ver as pessoas acuadas, não se sentindo à vontade para caminharem pela cidade à noite, assim como frequentemente se veem obrigadas a esconder seus telefones celulares em público. E é impossível calcular quantas já tiveram suas vidas ameaçadas pela mixaria de seus bens.

Mas um bom primeiro passo foi dado. Toda a movimentação gerada fez com que o poder público pudesse perceber a saída da inércia em que sua população se encontrava. Gestores atuais e anteriores foram questionados, houve vaias para políticos e também alguns aplausos. É preciso lembrar que há sempre os aproveitadores de última hora, que aparecem para cobrar de todos o que também poderia ter sido feito por eles.

Fiquemos com o que houve de bom: um grito coletivo capaz de fazer com que o poder público perceba que está sendo vigiado por alguns dos verdadeiros gestores de uma administração: o povo, ou pelo menos parte dele. É hora de constrangê-los ainda mais.


20.1.12

Museu dos Dias: Downloads gratuitos: a Reforma Agrária do universo virtual



Toda a polêmica gerada pelo projeto de lei Stop Online Piracy Act (SOPA), proposta por senadores americanos e apoiada pela indústria do cinema e da música, se espalhou pelo mundo. Ainda que esta seja uma lei nacional americana, a discussão tem proporções mundiais, o que não poderia ser diferente, tendo em vista que os limites geográficos tornaram-se menos claros quando relacionados à busca e obtenção de informações a partir da internet.
                A lei proposta visa criar novas proibições com intuito de conter os downloads gratuitos feitos de forma ilegal – de acordo com os parâmetros oficiais ainda vigentes – penalizando até os usuários domésticos que fizerem downloads ou adquirirem produtos a partir de sites considerados piratas. O principal alvo da nova campanha anti-pirataria movida por gigantes da indústria de entretenimento, como a Universal Music, foi o site Megaupload, cujas atividades foram encerradas e seus proprietários presos.
                O fechamento do Megaupload desencadeou uma retaliação de proporções jamais vistas no universo virtual: o coletivo de hackers Anonymous invadiu e tirou do ar o site da Universal Music, do Departamento de Justiça Americano e até mesmo o FBI foi alvo do ataque, entre outros.
                Mas um dos maiores problemas em torno dessa situação, que envolve consumo e distribuição de produtos considerados piratas, e que precisa ser melhor discutido é a questão da autoria.
Muitos dos envolvidos no debate alegam que os autores das obras baixadas gratuita e ilegalmente pela internet são prejudicados, pois perdem os direitos que teriam como autores de suas obras. No entanto, essa parece uma leitura equivocada, já que não se discutem os méritos dos autores – sejam de discos, filmes, livros ou jogos – mas os meios de distribuição de suas obras.
Um disco do Caetano Veloso, que já se mostrou tantas vezes contrário a essa ideia de pirataria, continuará a ser do Caetano Veloso, suas músicas continuarão sendo atribuídas a ele, a quem realmente pertencem de fato e direito. Porém, o acesso a essa obra é que tomou novas formas, tornou-se mais democrático, tendo em vista que já não depende exclusivamente do poder aquisitivo de quem a consumiria, usualmente a preços elevados. Consumidores de jazz, por exemplo, sofrem frequentemente com os preços praticados pela indústria fonográfica, sempre altíssimos.
A possibilidade de adquirir gratuitamente essas obras, de uma maneira rápida, simples e bem mais barata, permite ao expectador vivenciar e desfrutar de materiais a que seu poder aquisitivo não lhe permitiria acesso da maneira tradicional. Logo, as obras baixadas gratuitamente têm maior alcance e chegam a consumidores a quem antes estariam vedadas. Se isso interessa ao mercado, não sei: aliás, provavelmente, não. Contudo, essa acessibilidade interessa muito ao expectador – a quem faz muito bem – e deveria também interessar aos artistas e produtores, pois o alcance de suas obras se tornou mais factível.
Provas interessantes disso são os discos produzidos por artistas brasileiros chamados “independentes” e postos para download gratuito em suas páginas oficiais na internet. A quantidade de material produzido é cada vez maior e sua qualidade cada vez melhor. De uma lista dos 15 melhores discos brasileiros produzidos em 2011, em minha opinião, pude perceber que apenas um ou dois não estavam disponíveis de maneira legal e gratuita nos sites de seus artistas. Se isso é possível para este grupo, por que não seria para os demais?
Hoje, os ouvintes/consumidores podem desfrutar dos discos antes de baixá-los gratuitamente, ou mesmo comprá-los, caso lhes interesse ter o disco em seu formato tradicional. Os shows estão cheios, as redes sociais reverberam esses nomes e permitem a esses músicos que se viva de música.
Já as grandes gravadoras, principais afetadas por essa mudança comportamental do consumidor de música, se sentem afetadas, pois suas vendas caíram vertiginosamente nas últimas décadas. Mas é preciso estar atento a um aspecto: as vendas despencaram, no entanto o consumo não diminuiu e, na verdade, talvez tenha até aumentado. As pessoas continuam baixando seus discos ou comprando versões mais baratas – os tais piratas – dos álbuns lançados pelas gravadoras. Assim, é possível perceber que o entrave acusado pelas gravadoras é financeiro e nada tem a ver com as desculpas de que a venda ilegal impede investimentos em novos artistas ou o próprio barateamento das mídias tradicionais, prejuízos aos aparelhos de reprodução e outras bizarrices.
Verdade é que os downloads gratuitos incomodam apenas a quem mais ganha com isso e a quem mais presta desserviços ao que se produz artisticamente. Os downloads gratuitos são quase uma Reforma Agrária do universo virtual, em que aqueles que mais têm se recusam a aceitar a divisão de seus domínios, ainda que seja por um bem maior.

16.1.12

Museu dos Dias: As Micaretas de Cristo


Uma coisa as manifestações religiosas perderam com o passar dos anos: a solenidade. Se era preciso mostrar ao mundo ou aos próximos a fé que se sentia, isso costumava ser feito com certa cerimônia e serenidade. As pessoas davam à exposição da fé o tom solene que as promessas de salvação e conduta requeriam. Hoje, o que mais se percebe é uma carnavalização da fé e da religiosidade.
As cidades estão cheias do que se poderia chamar de micaretas de Cristo: são carros de som, trios elétricos, bandas, palanques e fogos anunciando a salvação e a presença de Deus no meio da rua. O que antes era solenidade, hoje é balbúrdia e alarde, como acontece nas outras manifestações carnavalescas.
O barulho costuma ser ensurdecedor e todos são obrigados a receberem goela abaixo pregações que não querem e que, muitas vezes, perturbam a harmonia de nossas vidas. As micaretas de Cristo ou showmícios de Deus acordam as crianças, assustando-as com as explosões dos fogos; impedem a leitura de quem precisa se concentrar, com seus padres ou pastores – repare que essas manifestações são católicas, evangélicas ou se dizem ecumênicas, como se quem as organiza soubesse o que isso significa – aos berros, chamando por Deus, como se Este fosse surdo; elas não permitem que um sujeito trabalhador, muitas vezes em paz com seu próprio Deus, descanse de um dia árduo; ou mesmo incomodam os que apenas não querem ouvi-las e têm esse direito.
Entendo o direito de pregar uma religião, mas não aceito que não compreendam que também há o direito de não querer ouvir essas pregações. Ninguém é obrigado a compactuar com essa balbúrdia, essa sequência de desrespeitos em nome de Deus. E também me parece irônico que “Aquele que tudo vê e de tudo sabe” precise de tantos gritos para escutar alguém. Parece que os religiosos não acreditam muito nessa história de onisciência, pois se a levassem a sério, saberiam que fazer suas preces ao pé da cama, em silêncio, seria o suficiente para que Deus os ouvisse de onde quer que fosse.
Penso ser um tanto ridículo padres e pastores bancando as Ivetes Sangalo de Deus, inclusive fazendo paródias de suas músicas mais famosas. Pergunto-me se algum padre descolado já fez uma paródia do Michel Teló e anda cantando por aí “Ai, se Deus te pega, que delícia” e outras tais. Cada um que faça o que desejar, desde que esse desejo não incomode os que não compactuam, ou simplesmente não querem participar, do mesmo escarcéu.

11.1.12

Exposições no Museu: Impressões Pessoais e Descomprometidas Sobre "Avante", de Siba


Complexidade. A palavra, o clichê, já até saiu de moda, mas isso não significa dizer que o homem tenha se tornado menos complexo por isso. Em verdade, essa multiplicidade de faces que somos contempla direitinho esse conceito. Se isso se aplica ao homem, jamais seria diferente ao artista, esse humano mais humano que o habitual.
É a partir dessa complexidade, dessa multiplicidade de faces que constituem o mesmo elemento e que no homem é muito mais que a soma de suas partes, que Siba não se reinventou – palavra que me cansa muito mais que “complexidade” – mas deixou mostrar-se ao mundo uma face diversa das que já conhecíamos em outros projetos seus, como os discos com Mestre Ambrósio ou A Fuloresta, belíssimas obras que nos permitiam esperar de Siba sempre algo de muita qualidade. Nenhuma gota de decepção: Siba abriu 2012 com seu novo álbum, muito adequadamente chamado “Avante”.
Em Avante se pode perceber que o Siba que emerge das canções é o mesmo de sempre, mas, ao mesmo tempo, outro. Dileto, diverso, mas Siba. A poesia cujo atavismo remonta à poesia popular nordestina, a seus violeiros relidos em guitarras, poetas de verso e tradição orais está presente em todo o álbum, mas desta vez preenche uma música de guitarras – é o disco de um guitarrista – com pé no rock, intervenções eletrônicas, mas com um quê dos elementos que fizeram o Siba da mata pernambucana. Há quem possa dizer que essas características já estavam presentes nos trabalhos do Mestre Ambrósio, o que é verdade. No entanto, há nelas um permeio de guitarras, uma dose maior de contemporaneidade que revela: é o mesmo homem em outra face.
O disco é cheio de momentos altos: a poesia de ingenuidade profunda; o popularesco rasgado (“Para enganar a fome/ não quero espeto da praça/ Dou um chupão no Gellis e o tira-gosto é cachaça”, em Bagaceira); as soluções improváveis para versos quase impossíveis (E os microfones parecem longas serpentes mutantes/ que copulam com as máquinas que acendem os botões brilhantes” ou “E a língua destila a seiva dos dentes da cascavel/ e o que os ouvidos recolhem são fragmentos do fel/ que espirrou das marretadas que destroçaram Babel”, em Avante); poesia (“Sou condenado ao vazio da calmaria, às lágrimas da chuva fria/ e a regressar sem pescado”, ou “A brisa/ por ser mais carinhosa/ é quem mais tem castigado”, Brisa); a sonoridade da guitarra quase jazzística; a herança ancestral da floresta; a companhia de Lira (ex-Cordel do Fogo Encantado) nos vocais de Um Verso Preso; que ainda conta com guitarras à repentista; o flerte com o brega (Ariana); a intrigante Qasida, uma bela peça sobre o sentimento de não se pertencer mais ao lugar a que antes se pertencia...
E por falar em Lira – não posso me furtar a esse adendo – é verdade que este vive fase parecida com a de Siba, pois ambos têm raízes e histórias musicais com alguma semelhança, e Lira laçou há pouco um disco solo, com uma mesma tentativa de recriar sua identidade. Mas uma coisa separa as duas experiências: a de Siba rendeu um lindo disco, enquanto a de Lira custou um disco cansativo e insosso, indigno de sua obra ao lado de sua antiga banda. No entanto, há crédito. Lira se re-encontrará.
Mas é Siba que nos importa. Numa das mais interessantes letras do disco, o músico professa: “quem parte berrando avante/ pode cair, mas não volta”, em Avante. Contudo, a verdade é que Siba não cai, nem mesmo estremece.

Artista: Siba
Disco: Avante
Produção: Fernando Catatau e Siba
Banda: Siba: voz, guitarra e viola; Leo Gervázio: tuba; Samuel Fraga: bateria; Antônio Loureiro: vibrafone e teclados
Onde encontrar:  WWW.mundosiba.com.br
Preste atenção: na faixa que encerra o disco, Bravura e Brilho