13.12.12

Meus Discos Favoritos de 2012


Certamente ouvi menos música em 2012 que no ano passado, mas não posso abandonar a irresponsabilidade de fazer a minha listinha de Meus Discos Favoritos de 2012. O ano foi bom, embora ache a lista do ano passado um tantinho superior a esta, o que atribuo muito mais à minha ignorância e pouco conhecimento musical do que à qualidade do que foi produzido. Fato é que música boa não falta e não há mais porque jogar na famigerada mídia a culpa pela música ruim. Entre os gritos irritantes da incensada Gaby Amarantos e ojeriza repetição de Roberto Carlos, há muita coisa boa por aí:


1. 1. Bahia Fantástica – Rodrigo Campos: é certamente o disco mais intrigante que ouvi este ano. Há nele algo de atávico, uma reminiscência de terra, de origem que não consigo desvendar ao certo. Bahia Fantástica é, para mim, o melhor do ano por motivos que não podem ser explicados logicamente, ou mesmo de qualquer outra forma. Por isso, motivo mais que justo, merece claramente o título de Meu Disco Favorito de 2012. Bahia Fantástica me fala ao corpo, ao espírito muito mais que à razão. É um disco sensorial e que me provoca sempre que o ouço. Destaque para Ribeirão, com participação de Criolo.


2.2. .Avante – Siba: Siba não é um instrumentista por natureza, é um músico, um compositor e isso faz toda a diferença em seu mais novo disco. Siba, conhecido por seus trabalhos com Mestre Ambrósio e A Fuloresta, substitui a tradicional rabeca pela guitarra, no entanto não se deixa cair nas armadilhas da comodidade: a simbiose entre Siba e suas seis cordas elétricas não difere da ocorrida com sua rabeca: é o compositor, o homem urbano que conhece a floresta que está lá. Avante traz as letras habitualmente poéticas de Siba e uma nova sonoridade para a guitarra. Se esta não fosse uma lista que prima, sobretudo, pelo gosto pessoal, seria de Avante o primeiro lugar. Preparando o Salto abre o disco e é praticamente um editorial do que virá adiante.


33.  EP – Violante: é certamente o disco que mais ouvi este ano. Um desses discos que viram xodó e aos quais sempre recorremos quando queremos ouvir o que nos dê intimidade com a música: um disco para ouvir “no clima”. Os violões e guitarras destes piauienses nos dão a sensação de colher ainda no pé uma música que já está madura. A qualidade poética das letras e a voz bonita dos cantores nos oferecem um disco sem grandes novidades, mas de extrema qualidade. Poético e carnal, trata-se de um disco para ouvir muitas vezes. Obra do Cão e Ventre são minhas favoritas.


44. Dois Tempos – Khrystal: este é o disco que confirma o que se esperava de Khrystal: uma cantora para revigorar as vozes da música brasileira. No entanto, o disco é mais que isso: Dois Tempos revela também uma que Khrystal pode transitar pela música que quiser sem estar escravizada às releituras do coco que a fizeram aparecer. Khrystal faz música, independente de ser samba, rock, mpb ou o nome que quiserem dar. Dois Tempos é um disco de música boa. Melhor: de música ótima. Sua parceria com Luiz Gadelha rendeu a deliciosa Bem ou Mal.


55. O Deus Que Devasta Mas Também Cura - Lucas Santtana: músicos como o Lucas Santtana trazem sempre grandes e ótimas surpresas. Depois de seu belíssimo Sem Nostalgia, de 2009, Lucas nos presenteia com um disco de sonoridade um tanto sombria, boas letras e um clima denso frequentemente quebrado por curiosos riffs de guitarra e músicas mais aceleradas, como promete seu título. Um disco para ouvir muitas e muitas vezes, cantar alto, refletir, dançar e qualquer coisa mais que se queira fazer. É Sempre Bom Se Lembrar é minha preferida: “O amor/ no começo é um alvoroço/ Qualquer momento é um colosso/ Nem o tempo cogita em agir/ o amor no decorrer fica confuso/ muitas vezes, difuso/ e o tempo ralenta e nos diz/ que é sempre bom se lembrar/ da uva até o vinho/ o amor que ali todo dia…”

Menções Honrosas

Estação Sé - Caê Rolfsen
Trabalhos Carnívoros - Gui Amabis
Tatá Aeroplano - Tatá Aeroplano
A Mágica Deriva dos Elefantes - Supercordas
Edifício Bambi - Hidrocor

12.12.12

Peça sem número: Notas de Um Caderno de Viagens


A vida acontece em grandes torrões de riso e sal nesta cidade. Hoje pela manhã, perto de uma das ruas principais, um monturo de crianças arrastava um cão morto por uma corda. Gritavam como pequenos selvagens. Havia nelas a violência explosiva de seus pais e dos homens que habitam as esquinas escaldantes destas ruas. Quase devoravam vivo o pobre cão morto.

As mulheres avistavam de longe seus filhos multiplicados no mundo. Uma delas sorria quase. Era por certo a mãe do menino que empunhava a corda no pescoço do cão. Era um troféu, eu sei: era um troféu.

5.10.12

as incríveis histórias do homem-invisível

esta é uma reunião das histórias do homem-invisível - o herói do anonimato - publicadas até agora. quem viver, verá. ou não.



hq
- criei um super-herói: o “homem-invisível”.
- e qual é o ponto fraco dele?
- a baixa autoestima.



planos de ação do homem-invisível (ou táticas de revolução no fordismo)- o que você faz para ser notado no trabalho?
- eu falto.




 

as fantásticas aventuras do homem-invisível
- não percebi que você já tinha voltado...
- voltado? mas eu nem tinha saído daqui.



mais uma fantástica aventura do homem-invisível
- não, senhor. seu nome não consta em nosso banco de dados.
- mas como isso é possível? eu sou cliente de vocês há mais de 2 anos...





as fantásticas aventuras do homem-invisível
entre os pensamentos do homem-invisível:

"se eu me tornar mais invisível, será que atingirei um ponto em que nem mesmo eu possa perceber que estou aqui?"




mais uma das fantásticas aventuras do homem-invisível
- eu estava sentado à minha mesa, elas abriram a porta, olharam pra um lado e pro outro, ao que uma disse "vamos, não tem ninguém aqui..."
- mas tinha?





novas aventuras venturosas do homem-invisível
o homem-invisível reencontra um velho amigo de infância:

- faz tempo que eu não te vejo!
- isso me acontece com muita frequência...





aventuras extremas do homem-invisível
na manhã de um domingo, um casal de testemunhas de jeová bate à minha porta. ao atende-los, ouço:

- deus tem um plano de vida especial para cada um de nós. gostaríamos de falar um pouco sobre esse plano. tem alguém em casa?
- alguém?




outra aventura radical do homem-invisível
o homem-invisível concede sua primeira entrevista:

- como você espera que as pessoas reajam diante da sua atuação como super-herói?
- espero que elas me vejam como eu realmente sou.





uma aventura eleitoral do homem-invisível
no horário eleitoral gratuito, o homem-invisível apresenta suas prospostas:
"... e prometo uma administração transparente..."





aventuras radicais do homem-invisível: a entrevista
- você sabe que não é um personagem muito original, não é?
- posso não ser original, mas duvido que alguém já tenha visto um personagem como eu!


outra aventura do homem-invisível: homem-invisível vs. entrevistador
- ter um superpoder como o seu não faz com que você se sinta solitário?
- na verdade, eu tenho um amigo que toca piano num shopping. entendemos perfeitamente as angústias um do outro.



 
aventuras radicais do homem-invisível: a entrevista continua
- como você começou a desenvolver seus poderes?
- eu fui professor de literatura durante muitos anos e isso me ensinou a ser ignorado por muitas pessoas ao mesmo tempo...

21.8.12

Como se Chama o Presidente?



Durante décadas este pequeno país viveu sob o comando cruel dos ditadores. “Cruel” não deve ser o adjetivo mais adequado para esse tempo: em verdade, foram décadas de uma ditadura silenciosa em que o povo tornava-se cada vez mais silencioso, mais quieto, como seu governo. Não houve, senão por uns poucos nos primeiros anos, quem se rebelasse, assim como não houve, por parte do governo, quem desejasse calar os rebeldes que quase não havia. Presidentes se sucediam no Palácio Presidencial, que não era exatamente um palácio, mas uma casa bonita e bem arejada, pintada de um amarelo imune ao tempo e com uma varanda onde uma rede descansava. Foram muitos os Chefes-de-Estado: alguns governaram por meses, outros semanas, alguns dias, houve ainda os que governassem por horas e os que só tocaram a faixa presidencial para poder passá-la ao seu sucessor.
Agora havia um presidente eleito. Escolhido pelo povo, embora não por muita gente: tanto que boa parte dos eleitores não sabia onde votar, muito menos em quem. Importava pouco, muito pouco.
Em sua primeira viagem diplomática, esteve fora por três ou quatro dias, em uma reunião com líderes de outros pequenos países, onde mal fora notado, senão por um ascensorista que lhe dirigiu a palavra para dizer “Seu sapato, senhor, está desamarrado”, ao que lhe agradeceu solene e discretamente pela gentileza do aviso.
Ao chegar ao aeroporto da capital, estranhou não haver quem o recebesse: sem comitivas, sem assessores, sem povo, sem jornais. Esperou em pé, diante de um pequeno saguão quase vazio, que alguém o conduzisse. Em vão. À rua, um táxi: estendia a mão à margem da avenida semimorta, mas os esparsos motoristas que por lá passavam não pararam. Por isso caminhou mais um tanto, até que um homem gentil parou a seu lado e abriu-lhe a porta. O presidente sentou-se e sorriu, ao que não foi correspondido. Em silêncio, esperou que o taxista dirigisse-lhe a palavra, como o fez ao cabo de uns poucos minutos: “Para onde, senhor?”. Sem sentir-se de todo ultrajado pela ignorância do motorista, respondeu evasivo: “Ao Palácio Presidencial”.
Em casa, ninguém o esperava. Viu, deitado em sua cama, outro homem, abraçado a sua esposa e a quem ela chamava de “meu amado”, e os porta-retratos pela casa tinham fotos dela e do outro, mas nenhuma do homem que saíra de casa há pouco mais ou pouco menos de três ou quatro dias. Viu também chegarem seus filhos, os meninos a quem criara com todas as dificuldades, mas com toda honra que podem receber as crianças: “papai” era o apelido que dirigiam ao homem em seu lugar, no lugar que antes era seu. Sabia que a essa altura, sua mãe já chamava de filho o homem em sua história e agradeceu a Deus por seu pai estar morto há anos, para quem sua lembrança deve mesmo ter sido a última, pois seria absurdo demais que o outro lhe roubasse as memórias vivas de um pai morto.
Andou pelas ruas da capital durante dias. Não havia aonde ir ou mesmo o que fazer. Como é possível haver outro em seu lugar, que não haja resquícios seus, de sua existência e máscara? Entre ele e seu substituto, quem seria mais ou menos real?
Em meio a homens que perambulavam pela praça principal, ouviu bradar da janela do congresso alguém ser anunciado como presidente da nação, prestes a discursar. Não era ele nem seu outro, mas um terceiro. E pôde ouvir de entredentes dois homens maltrapilhos – ninguém saberia dizer se mendigos ou ex-chefes-de-Estado – que conversavam sobre política: "Como se chama o presidente?”, ao que o outro sentenciou: “Já não nos importa”.

3.6.12

Khrystal: Dona do Ritmo, Senhora do Palco


Dizer que o mundo é enorme e também ínfimo seria o começo da maioria dos meus textos, se alguma preocupação estética não me rondasse as letras. E seria assim, sobretudo, porque me parece cada vez mais verdade, especialmente quando se trata do meu encantamento com a música da cantora potiguar Khrystal.
Digo isso porque o mundo é mesmo ínfimo: no tocante à música, há gente fazendo trabalhos espetaculares em todos os cantos do mundo, também em todos os confins brasileiros. Ninguém precisa mais ser refém do que toca nas rádios ou na tevê para ouvir boa música. Nestes últimos tempos tenho me dedicado muito a bandas e músicos pouco conhecidos, mas de grande talento, o que me levou à musicalidade pernambucana, por exemplo: Siba, Tibério Azul, Júnio Barreto, Eddie, Igor de Carvalho e tantos outros; à psicodelia gaúcha de Bonifrate; às novidades do Sudeste como Cícero, Pélico e Silva; entre tantas outras coisas. E todos esses encontros tiveram em comum a minha casa, meu trabalho, o computador, fones de ouvido, etc., como se tudo isso estivesse ali no quintal.
Mas o mundo é também enorme. Tanto que demorei muito mais do que deveria para ver/ouvir quem estava à minha porta. Já ouvira falarem sobre Khrystal inúmeras vezes, de sua música, de sua presença. No entanto, as miudezas dos dias, do trabalho, da correria, da displicência, do acaso e de outras forças quaisquer não me permitiram alcançá-la. O momento crucial para decidir encontrar a música dessa singularíssima cantora foi sua primeira apresentação mágica no Teatro Avoante, em Currais Novos, quando ela fez a abertura para  Kátia de França. Não pude ir ao show, mais um desencontro. No entanto, foram tantos os depoimentos de emoção, beleza, graça e outros tantos adjetivos de gente em quem confio plenamente pelo apurado gosto musical que finalmente compreendi: era hora de encontrá-la, hora de ouvir Khrystal.
Um amigo trouxe-me o disco Coisa de Preto, que Khrystal gravou já há algum tempo, com produção dela, Eduardo Pinheiro e Franklin Nogvaes, e o resultado não poderia ser diferente: Khrystal é impressionante, tanto pela qualidade de sua voz quanto pela escolha do que canta e pelo ar contemporâneo que deu à música tradicional, como os cocos. No disco estão composições que vão de Chico César a Elino Julião, passando por Guinga – que também faz duas lindas participações como violonista – e Aldir Blanc. O disco é coeso, sempre em alto nível, mas algumas faixas sobressaem com ainda mais força, o caso de “Sem Ganzá Não É Coco”, de Chico César; “Coco do M”, de Zé do Brejo e Jacinto Silva; e a quentíssima “Forró da Coreia”, de Elino Julião e Oliveira Batista. Nessas faixas Khrystal areja a musicalidade do coco e do folclore nordestino. Mas, que fique claro: não se trata de um disco de música folclórica: Coisa de Preto é um disco contemporâneo, que flerta com o pop e até com o blues, mas sem abandonar o tempero local. Aliás, é isso o que o torna único: sua forma de lidar com a tradição sem se tornar escravo dela ou rechaçá-la.
 Uma coisa é certa: ouvir Khrystal é uma experiência mais que interessante: é confortante, é de dar orgulho e é extremamente prazerosa. Música para ouvir, para sentir, pensar e dançar: Música. No entanto, é preciso ver Khrystal subir ao palco para compreendê-la em toda sua dimensão, porque o palco é sua casa e o público é seu séquito. E tive a chance de o fazer em pleno Teatro Avoante, em Currais Novos, que vi ser construído por João Antônio – da maneira mais visceral que se pode utilizar para erguer uma “casa” – onde ela havia se apresentado antes: um lugar que respira cultura e ousadia.
Antes de Khrystal aparecer, o poeta Antônio Francisco, certamente um dos maiores cordelistas vivos deste país, abriu caminho com seus versos. A moça entra em cena como o vento nordeste e arrasta o que está pela frente: flerta com seu público e o seduz, mexe com suas emoções e faz com que seus expectadores venham comer em sua mão (“Você vai comer na minha mão se lambuzar e lamber o prato”, de Comer na Mão, de Chico César). A energia de Khrystal é grandiosa e flui por cada centímetro de plateia, que a assiste e pactua com ela, que dança, atua, brilha (natural para quem carrega esse nome) e faz se erguer quem a contempla.

“Comer na Mão e Quero Ganzá”, de Chico César, um par de canções de Flávio José e outras de Elino Julião põem fogo por onde Khrystal dança. “Sete Cantigas Para Voar”, de Vital Farias, garante um tom sublime que nos permite compreender a delicadeza guardada sob a força de sua voz, numa apresentação de momentos grandiosos. Apoiada por uma banda afinadíssima e que compactua do mesmo transe em que a cantora se encontra – em poucos lugares pode-se ter a oportunidade de ouvir um baterista e um percussionista tão bons tocando juntos – o público a cativa e recebe de volta o carinho.
Khrystal brilha, reluz, transparece e outros trocadilhos que seu nome permite e justifica. Ouvi-la e vê-la são uma experiência verdadeiramente fabulosa para quem gosta de música, para quem espera da tradição nordestina algo mais que uma leitura anacrônica do universo. Neste show, batizado “Caldeirão dos Mitos”, em que homenageia Luiz Gonzaga, é possível perceber uma música nordestina revisitada, reinventada, mas cuja essência está lá guardada, transcendente. Luiz Gonzaga certamente agradece e nós, público mesmerizado pela fortíssima presença de Khrystal, louvamos.

8.5.12

Rambo e Goku natalenses: Diante da inevitabilidade do surto que as cidades provocam, só há uma coisa a fazer para evitá-lo: surtar.




Quanto maiores e mais caóticas as cidades, maiores são as possibilidades de inadequação, assim como são mais variados os subterfúgios para safar-se dessa onda massacrante de confusão cotidiana. Por isso, personagens como Goku e Rambo de Natal são, em certa altura, compreensíveis.

Se a um primeiro olhar mais precipitado as pessoas sentem a necessidade de tratar essas figuras que têm ganhado espaço nas ruas de Natal e nas redes sociais como loucos é porque, provavelmente, não convivem ou já se perderam em meio ao caos urbano. Ninguém veste roupa de super-herói e sai às ruas gratuitamente: esses rapazes fazem aquilo a que a cidade os obriga: surtar para não surtar. Não é à toa que os personagens escolhidos são heróis que marcaram gerações: não há ninguém vestido de Bento XVI ou de Neil Armstrong, porque a distância que a fantasia estabelece da realidade é peça fundamental para que a primeira adentre a segunda e provoque o efeito desejado.

O bom humor carregado por essas figuras é uma resposta ao cotidiano pouco glamoroso, marcado por atitudes que depredam a dignidade do cidadão comum de forma costumeira: afinal, como chamar de digno uma volta para casa num ônibus desumanamente lotado depois de um causticante dia de trabalho? Como aceitar que a cidade em que se vive oferece inúmeras opções de lazer que seus moradores menos abastados jamais conhecerão? Qual é a melhor maneira para lidar com uma cidade que o exclui e se regozija disso?

Goku e Rambo são os heróis de uma sociedade anônima, relegada aos pontos de ônibus e bairros marginalizados. Obviamente, essa mesa sociedade que representam e contra a qual lutam também os oprime: ri deles e não compreende sua mensagem.

Outro aspecto interessante da fama dessas figuras é a relação que conseguiram estabelecer entre o espaço urbano e o virtual, já que suas intervenções nas ruas são costumeiramente registradas e levadas às redes sociais, que ampliam o impacto dessas interferências e aumenta o número de seus espectadores: o público que vê Rambo apontar sua bazuca para um alvo imaginário às margens de uma BR às 10 horas é menor do que aquele que o assistirá pela internet, no conforto de sua casa, a qualquer hora. Assim, esses novos heróis do caos urbano interveem no espaço das cidades e multiplicam a intervenção através do espaço virtual, que os lançará de volta às ruas com ainda mais poderes.

Gotham, Metropolis, Tóquio, Nova York ou Natal têm uma coisa em comum: a necessidade de heróis que combatam o caos em que mergulhamos e de onde parecemos não saber sair. Por mais ridículos que possam parecer.

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A foto neste texto foi retirada do perfil do Rambo de Natal no Facebook

5.5.12

Je L’aimais: E Quem Mais Eles Amavam


Ouvimos a todo instante que não se pode ter tudo e nada há de original ou surpreendente nessa assertiva. Mas é mediante a necessidade das escolhas que nossos maiores dramas pessoais e tensões são criados, pois – me valho aqui de André Gide – não é o que escolhemos, mas o que preterimos que nos assombrará para sempre.
Este é o motivo que nos leva a Je L’Aimais, filme de Zabou Breitman e com as ótimas atuações de Daniel Auteuil, Marie-Josée Croze e Florence Loiret Caille. A história se dá com o fim do casamento de Chloe (vivida por Florence) que, muito abalada, viaja com seu sogro e filhas para uma propriedade rural afastada de Paris. Chloe sofre profundamente com o rompimento e relega suas filhas, seu trabalho e sua vida parisiense, como se nada além de seu casamento fracassado importasse. A apatia da personagem nos leva a pensar em uma metáfora inúmeras vezes mastigada e, naturalmente, verdadeira: nossas vidas se estruturam como castelos de cartas, em que a remoção de uma peça central fará desabar todo o resto.
Os sofrimentos de Chloe são acentuados pelo motivo que levou seu marido a romper o casamento: ele se apaixonou por outra mulher, o que reforça em Chloe o sentimento de perda e a dor de ser preterida, de sentir-se rechaçada. A família, a estabilidade e as filhas oferecidas ao marido não foram suficientes para prendê-lo a ela, como a jovem demonstra querer.
A estada de Chloe com seu sogro Pierre é conturbada, marcada pela melancolia dela e o silêncio dele, um homem austero e sisudo que – assim como o filho – não costuma falar, sempre ensimesmado e introvertido. Porém, a quebra desse comportamento de Pierre – precisamente interpretado por Daniel Auteuil – nos leva ao tema central do filme: a escolha entre amor e estabilidade.
Pierre passa a contar à nora sobre o que chama de “seu verdadeiro amor”, surpreendentemente, não sua esposa, mas a bela Mathilde – com todo o frescor e charme de Marie-Josée Croze –, uma intérprete com quem Pierre trabalhou e depois viveu um romance intenso. É preciso ressaltar que a intensidade desse romance era recíproca e o amor de ambos jovial e bonito, embora idealizado, já que se encontram apenas por curtos períodos, furtivamente, em diferentes lugares do mundo: Mathilde chega a dizer a Pierre categoricamente “quando estamos juntos, nunca sinto tédio”, o que parece uma oposição ao casamento de Pierre e o medo angustiante de uma vida sem significado.
Quanto mais profunda é a relação entre Pierre e Mathilde, mais eles se aproximam de um fim previsível: ele deixaria a esposa e passariam a viver juntos em algum lugar fora de Paris. Porém, Pierre esbarra na mesma necessidade em que sua esposa havia antes estancado: não queria abrir mão do conforto, dos filhos, dos amigos, da casa na praia, da vida que levava e abominava ao mesmo tempo. Assim, o personagem central do filme se encontra na encruzilhada em que precisa escolher entre a paixão e a vida estável. Mais que escolher, Pierre precisa decidir o que preterir e sabe que, independente do caminho que escolha, haverá sofrimento: a certeza de que o melhor caminho é sempre o outro.
A história de Pierre não é uma provocação a Chloe, mas uma tentativa de mostrar a ela que é possível compreender a atitude de seu filho e que também ela não precisa estar presa à comodidade da vida em família, sustentada por valores que nem são seus. Chloe poderia também viver de maneira plena, sem precisar das migalhas do amor alheio ou da impressão de conforto que a vida conjugal lhe oferecia. No entanto, quem, além dela, seria capaz de confirmar tal veredito?
                Não obstante, Je L’aimais é um filme humano, de narrativa bem construída e personagens tão possíveis que identificá-los com pessoas que conhecemos ou mesmo conosco é inevitável. O filme conta, em alguma medida, a história de todos nós, mas cabe a cada um escolher seu caminho. 

19.4.12

Melancolia: O Mundo Acaba em Nós

Não hesito em dizer que o dinamarquês Lars Von Trier é um dos melhores e mais interessantes diretores de cinema dos últimos anos. Mesmo tendo a fama de diretor cruel e detestado por seus atores, tendo feito e dito coisas – muitas vezes – deploráveis, cinematograficamente Von Trier é dos mais criativos e interessantes diretores e roteiristas de hoje. Em Melancolia, ele reafirma suas qualidades e se resigna do quase intragável O Anticristo, marca negativa em sua carreira – ainda que o filme tenha aspectos cinematográficos e semióticos muito bem construídos.

Melancolia é um filme sobre o fim do mundo, um filme-catástrofe, no entanto não se trata de “mais um” filme sobre o fim dos tempos. Diferentemente de coisas como O Dia Depois de Amanhã ou o remake de Guerra dos Mundos, o cinema-catástrofe de Von Trier é profundo e foge do lugar comum.

A história se dá a partir da ostentosa festa de casamento de Justine, belissimamente interpretada por Kirsten Dunst. O evento é o plano de fundo para que possamos conhecer seu personagem: uma publicitária promissora que já não reconhece mais seu lugar no mundo prático do trabalho, das relações familiares ou amorosas. O dia do casamento é uma metáfora para o fim do mundo. Os momentos que o sucedem apresentam Justine em uma profunda melancolia, ponte muito bem desenvolvida pelo diretor/roteirista. Entenda-se também que não há aqui uma postura frívola de Von Trier deliberadamente contra o casamento, como aquelas que acusam o matrimônio de “instituição falida” ou outros clichês. Ainda que os pais divorciados da noiva representem visões antagônicas sobre o destino da filha e, no caso da mãe, radicalmente contra o casamento, ambos representam muito mais o desejo desregrado pela vida (o pai, interessante atuação de John Hurt) e o desprezo por ela (a mãe). Há, talvez, uma sugestão de que o ser humano está fadado ao fracasso ou à insatisfação em qualquer instância.

Aliás, duelos como esse são uma constante no filme: o principal deles entre as irmãs Justine e Claire (muito bem vivida por Charlotte Gainsbourg, que empresta as doses milimétricas e precisas de dor e agonia aos personagens criados por Von Trier, tanto em O Anticristo como em Melancolia). O medo de Claire diante da possibilidade do fim do mundo é um paralelo para sua excessiva preocupação com o sucesso da festa de casamento de sua irmã mais nova oferecida por seu marido John (vivido por um Kiefer Sutherland felizmente distante do policial durão que costuma interpretar na tevê).

A partir do comportamento dos personagens durante a festa de casamento, passamos a conhecê-los bem e podemos perceber o estofo que se cria para suas futuras ações diante da ameaça iminente. Por isso, a primeira hora de filme, que pode parecer solta e sem propósito para espectadores mal acostumados com a narrativa rápida e linear do cinema americano, encontra plena justificativa com o desenrolar dos acontecimentos, que dão conta da assombrosa aproximação de um planeta até então desconhecido da Terra. O risco de colisão entre ambos e o consequente fim do mundo em que vivemos é real e, a partir dele, mergulhamos num pequeno nicho isolado do resto das populações para entendermos a catástrofe por uma ótica microcósmica: Justine, Claire, John e o filho do casal.

Von Trier foge do clichê filme-sobre-o-fim-do-mundo de maneira interessante: não há furacões, terremotos, prédios gigantescos sendo engolidos pela Terra, crateras e tsunamis arrasadores; também não há populações desesperadas, saques, grandes heróis ou cientistas homéricos que se dispõem a lutar para salvar o planeta. O que há são quatro pessoas vivendo em uma casa de campo, afastadas das cidades e de suas populações, compreendendo o fim do mundo de maneira particular e humana. A menção de fatos exteriores é breve: uma página na internet, um comentário na televisão e um empregado da casa, que não aparece para trabalhar.

Embora distante da apresentação ampla da catástrofe, Von Trier consegue fazer o espectador entender as sensações e ambiguidades dos comportamentos humanos diante da tragédia, e faz isso com três elementos que o cinema blockbuster parece desconhecer ou não dominar: ótimas interpretações (embora por métodos terríveis, o diretor sempre obtém grandes interpretações dos atores que dirige), um roteiro muito bem escrito e uma câmera nervosa que lida sem cansaço com planos-sequência.

 O conflito estabelecido entre Justine e Claire oferece momentos de reflexão dos mais interessantes a respeito de como nós somos diferentes ou de como recebemos e atuamos complexamente na vida. E uma coisa não escapa ao espectador: o amor excessivo à vida é tão detestável quanto o total desprezo por ela.


23.3.12

Peça sem número: Peixe Podre



- para Leão Neto, que me apresentou respeitosamente este homem

A faca rasgava a barriga do peixe como se abrisse nuvens, de onde escorreria uma chuva vermelha e viscosa. A arte das facas, a sorte lida nas vísceras, infortúnios em lugar de fortuna. As mãos tingidas do vermelho sangue-chuva-viscosa das entranhas dos peixes. O cheiro impregnado no corpo, no couro, no osso, na origem da alma. O odor ancestral dos peixes arrebatados pela rede de seu pai, do pai de seu pai, e do pai deste e do outro até o início dos tempos, como se Adão carregasse no ombro sua vara de pesca.
Peixe Podre o chamavam, desde antes, de sempre. A caixa de isopor amarrada ao bagageiro da bicicleta e um cordão de cinco peixes raquíticos presos pelas bocas. “Peixe podre”, ele gritava pelas ruas, como a cidade o chamava. Vendia-os por uma pequena miséria amealhada, suficiente apenas para um tanto de feijão e outro tanto de cachaça. O cheiro fétido do isopor era também o cheiro de seu corpo e da cama de rosas mortas em que se deitava aquele homem miserável e sua mulher miserável ocupada do miserável legado que seus filhos receberiam.
O sol havia-lhe furtado a cor da barba, refeito o tom de sua pele e entalhado os veios de sua musculatura-osso. “Peixe Podre”, as pessoas o chamavam pelas ruas. “Peixe Morto” talvez fosse o nome mais preciso. A podridão dos peixes mortos mastigou os ossos de seu juízo. Peixe Podre empurrava ao braço de mar sua canoa: só o mar podia abraçá-lo: peixe podre, pobre peixe. E o mar convidou-o às suas entranhas, as do mar. Em sua canoa rasa, Peixe Podre deixou-se carregar ao ventre oceânico, ao ventre de água do mar. Deitou-se sozinho em seu barco miserável, como miserável era seu destino. Encolheu-se, refeito o menino de antes de nascer, no ventre de sua mãe verdadeira, no ventre marinho de sua mãe verdadeira.
Peixe Podre deixou-se arrefecer, deixou-se engolir, sem pensar no destino corroído de seus filhos, na podridão que empesteou o útero de sua mulher companheira de muitos, muitos sofrimentos e mínimas alegrias esquálidas, como esquálido era o corpo de Peixe Podre, que não pensou em nada enquanto a boca do mar o devorava, lentamente.