4.7.10

Peça: 62. O Torcedor na Copa do Mundo

Para os torcedores do futebol diário, cotidiano, da arraia-miúda boleira, a Copa do Mundo tem por obrigação confirmar tendências, apresentar novidades, potencializar disputas, metaforizar a existência humana, as disputas territoriais, os movimentos bélicos e enxadristas, e outras tantas coisas mais.

No entanto, a Copa do Mundo não é apenas o alimento desse torcedor que rói as entranhas da madeira de um Corinthians X Flamengo ou de Potyguar X Santa Cruz. A Copa do Mundo é o ambiente do torcedor de futebol que não torce pelo futebol, e que por muitas vezes desconhece ou nem se interessa de fato pelo tal esporte bretão. O torcedor que a Copa do Mundo nos apresenta – especialmente o brasileiro – é aquele que se interessa muito mais pela festa, pela farra, pela agregação e pela vitória do que pelo jogo. Boa parte dos torcedores sazonais – de 4 em 4 anos é seu movimento de translação – não tem a menor ideia de quem é o atual campeão brasileiro de futebol ou mesmo quem são os campeões na história das copas.

O torcedor sazonal é sempre aquela figura ufanista que bota a mão no peito na hora do hino nacional e jura ódio eterno aos argentinos porque Galvão Bueno e seu pessoal manda fazer isso. É esse torcedor que pinta as unhas de verde e amarelo, que usa gritos de torcida como toque de chamada para o celular, que veste camiseta canarinho como grife e outros que tais.

Ao torcedor sazonal vale apenas a alegria, a festa da vitória. A tática, as soluções, o adversário ou o futebol são o que menos importa. Importa mesmo é gritar gol, beber cerveja, se reunir com os amigos, xingar o juiz, acreditar que o adversário é ridículo e que sempre houve injustiça nas derrotas brasileiras ou que o técnico é sempre o culpado – técnico que, antes de perder, é invariavelmente o sujeito que vai “resgatar a alma do futebol brasileiro”. Esse torcedor não que saber de bastidores, não repudia as figuras infecciosas do futebol, não sente raiva por quem deveria sentir.

Para dizer a verdade, não gosto do torcedor sazonal. Sinto-me agredido, usurpado, vilipendiado até, ao ver o torcedor sazonal roubar para si aquela que deveria ser a celebração de meu amor cotidiano pelo futebol. Claro, egoísmo de minha parte. Puro e simples. É o sentimento do jogador que se esforçou mais que todos nos treinamentos e que vê em seu lugar na hora do jogo alguém que faltou aos treinos e com seus compromissos. Mais terrível ainda: é ver esse jogador comemorar o gol que eu deveria ter marcado. E digo isso porque a impressão que me dá é a de que o torcedor sazonal se diverte e vive muito mais que eu esse momento sublime que é a Copa do Mundo. Talvez o torcedor sazonal compreenda melhor do que eu essa apoteose futebolística e do esporte como metáfora da humanidade.

Assim como não vibrei freneticamente com os gols brasileiros nesta copa, não chorei ao ver o Brasil ser eliminado pela Holanda. Em verdade, o primeiro comentário que fiz a minha esposa e repeti a minha mãe, logo após a partida foi: “venceu quem jogou melhor, quem mereceu. Perdemos esse jogo à época da convocação”. E, algumas horas mais tarde, pude compreender o quão sério e bem analisado era esse comentário. Essa sobriedade acabou comigo, pois eu preferia a agonia da derrota, o choro da decepção, a angústia de alguém que se porta como quem acabou de perder a mãe. Sobrou-me apenas o senso arrazoado, a tristeza resignada de quem gosta do futebol como esporte, como metáfora da vida.

E assim senti mais inveja e mais raiva do torcedor sazonal, a quem a distância do futebol arraia-miúda ainda permite enxergar com cegueira profunda as emoções – ainda que fabricadas – de um futebol que deveria ser meu.

14 comentários:

Maria Maria disse...

Vim aqui vê-lo! Sempre que o leio tenho mais orgulho de ser sua amiga!

Um abraço e parabéns pelo texto!

Miss Eme

Theo G. Alves disse...

miss eme querida,
o orgulho pela amizade é sempre meu.
um grande abraço e muito obrigado!

Grupo Casarão de Poesia disse...

lindo como sempre! adoro comer "sempres", principalmente com catchup e maionese...hehe...ô piadinha sem graça... é que me lembrei agora que um dia, num email, eu falei sobre você e disse algo do tipo "tal coisa COMO o theo" e aí continuei..."a poesia dele eu como mesmo, devoro", com susto e amor. e a prosa, que, por ser um pouco mais que uma rosa, sempre ainda e tanto me rouba o coração.

amo todos vocês!

muitas saudades e querendo muito ver vocês, conversar e outros que tais... deu pra ver naquele dia que temos muito assunto pra colocar em dia ne? mas da proxima vez, não vamos ficar separados não tá?! tipo, mulheres de um lado, homens do outro. isso me gera sérios conflitos de identidade...rsrs...e terapia anda caro pra cara...mujo!

tá bom, já falei demais.

beijão no coração.

Iara

Theo G. Alves disse...

iara,
sua visita COMO SEMPRE me é um presente :D

e vamos nos ver logo, urgentemente, pois também sentimos saudades. e o faremos sem divisões de gênero: serão apenas amigos de um lado e nossos alvos de outro. :D

estamos querendo ir a currais num fim de semana. precisamos nos organizar por cá. e voces, quando aparecem?

beijos nossos! saudades nossas!

Thiago Leite disse...

"Torcedor sazonal" é uma categoria interessante para o estudo antropológico do futebol.

Esta Copa eu decidi me envolver um pouquinho, diferentemente das últimas, das quais mal vi um chute. Mas não é do meu ímpeto natural torcer, nem vibrar nem gritar nem me emocionar aos risos e às lágrimas. Eu só consigo apreciar, no máximo, os bons jogos disputados entre seleções que jogam bem.

Porém, tenho a tendência a torcer para quem está perdendo, para ver o jogo terminar em empate. Se uma seleção faz um gol, fico esperando que o adversário faça o próximo...

Marcel disse...

Há também o ufanismo sazonal de quem sabe tudo sobre futebol, mas que manifesta o amor à pátria somente de 4 em 4 anos.
Esses são os que aparentemente não amam o Brasil, mas o futebol. Apenas.

Theo G. Alves disse...

thiago,
confesso a você que hoje me interessam bem mais o futebol e a cronica esportiva do que a torcida nacional. prefiro, assim como voce, os bons jogos e gosto que eles sejam disputados e emocionantes. essa copa, por exemplo, nos ofereceu em emoção o que faltou em técnica. e foi boa. está sendo.

Theo G. Alves disse...

marcel,
acho que há um ufanismo q vai além do futebol: um ufanismo pela vitória. esses fenomenos de popularidade que alguns esportes proporcionam. na verdade, alguns atletas mais que esportes. lembro-me bem dos casos ayrton senna na F-1 e do Guga no tênis. havia um amor exacerbado por essas figuras, mas não por suas condutas ou qualidades, mas porque eles ofereciam o prazer da vitória.

isso é assunto até pra um outro post.

saudações

marcos pardim disse...

"a tristeza resignada de quem gosta de futebol como esporte, como metáfora da vida" também é minha, meu velho theo. o futiba, em mim, acaba por encerrar um tanto do que intento saber da existência. grande abraço. obs: como consolo particular, meu santos esse ano me deu avassaladoras epifanias...

Theo G. Alves disse...

pardim,
então somos parecidos mesmo.
e quanto ao santos, embora corintiano, tenho que dizer que o seu santos me deu muitas alegrias este ano. é o gosto pelo futebol bonito, que pra mim importa muito mais que a rivalidade.
abraço!!

Claudinha ੴ disse...

Olá Theo!
Muito obrigada pela presença e carinho lá no TP.
Eu também não vi a copa com olhos animados (pensei já ter comentado este post aqui). Mas você está certíssimo, venceu quem jogou. Quem brincou, tchau!
Eu não me empolgo tanto. Embora eu ache importante a prática de esportes, a grana que eles ganham dava para alimentar e resolver os problemas de muita gente...
Beijo!

Theo G. Alves disse...

claudinha,
eu é q agradeço por seu carinho perene a mim e a este museu dirigidos.
os negócios do futebol, do esporte em geral, renderiam uma série de posts... um dia, quem sabe? :)
beijo!!!

Júlia Zuza disse...

Ei Theo, nós dois tivemos poesias publicadas na antologia do Flipoços e ao ler um exemplar,sua poesia foi a única que me tocou.
E agora conhecendo seu blog, vejo que há vários outros lindos também.

Parabéns. Vou voltar sempre aqui.
Um bjo, Júlia

Theo G. Alves disse...

Oi, Júlia.
que prazer te encontrar aqui pelo museu. meus livros chegaram ontem e ainda não tive a chance nem de vê-los superficialmente. mas farei isso hoje e já estou ansioso pra conhecer o teu texto.
fico contente e agradecido por seu carinho.
sinta-se em casa.
beijo!