21.9.09

Peça: 57. O Avesso dos Dias

de que matérias
se constrói um dia?

quanto de
aço vidro concreto madeira
é necessário para
erguer
as paredes sólidas
de um dia?
xxxxx- 24 horas
xxxxx que descabem nos dedos.

não sei.

quero antes
a matéria negra de seu
avesso
as iluminuras de seu
avesso
xxxxx - a palavra nenúfares
xxxxx - as chuvas insólitas de janeiro
xxxxx - a ausência dos carros na madrugada
xxxxx - os céus isentos de aviões e impostos
xxxxx - a lama
xxxxx - o cadáver já frio dos relógios

de que matérias
se constrói um dia -
um mísero número
no calendário silencioso?

não sei:
só dos dias o
avesso
me comove.

5.9.09

Entrevista

Esta é uma entrevista que respondi para o site do Franklin Jorge (que tem link aqui ao lado). Ela nunca foi publicada lá, mas para não alimentar uma ausência ainda maior aqui no museu, resolvi mostrá-la.



NOME Theo G. Alves
DADOS BIOGRÁFICOS escritor, professor, revisor, redator e inventor de coisas inúteis

QUESTIONÁRIO

Quando nasceu?
Em um dia de dezembro, 14 para ser mais preciso, em 1980

Onde?
Nasci em Natal


Como se chamam seus pais?
Só tenho mãe. Mães, aliás: Socorro, Guilhermina, Eurides e Elza

De onde são?
Gente de Currais Novos, da Mina Brejuí e Sítio Jurupaiti

O que você herdou do seu pai?
Inicialmente certo rancor, depois disso uma vontade tranqüila de não o encontrar, de não ser encontrado

E de sua mãe?
Muito. Especialmente de minha avó, de quem tenho o humor e a ironia. Muitos valores morais que tento honrar, nem sempre com sucesso, também me foram entregues por elas.

Dê-me fatos para esclarecimento de heranças.
O esquecimento é minha melhor qualidade. Passei anos sem falar com um amigo de escola e um dia ele me pediu desculpas pelo que me tinha feito e eu pude perdoá-lo verdadeiramente, pois já não me lembrava do que ele fizera, ou mesmo se me tinha feito alguma coisa.

Quem é você?
Eu sou ninguém na maior parte do tempo. Mas às vezes também sou outras coisas. Coisas de fato. Uma vez acreditei ser Dom Quixote, mas nunca Don Alonso Quijano.

Mais fatos.
Me agrada faltar a solenidades, me agrada quando alguém finge lembrar quem sou, quando esquecem meu nome. E tenho certo prazer em não constranger as pessoas publicamente quanto a isso.

E sua infância?
Minha lembrança mais viva de infância é minha avó me levando para brincar na areia do Rio Seridó. Também me lembro de como ela me ensinou a dizer a palavra “tigre”

Como brincava?
Só. Gostava de ter os amigos por perto apenas por pouco tempo, depois levava os carrinhos para longe, alegava que meus personagens iam viajar. Às vezes eu voltava, noutras eu me esquecia.

Quando deixou sua terra?
Nunca tive um lugar para um dia poder deixá-lo

Que coisas tem feito?
Umas coisas inúteis: literatura, por exemplo. Trabalho feito um escravo, ganho como um escravo. Tenho sido feliz. Vejo filmes. Ouço menos música do que gostaria. Quase não tenho lido, o que muito me maltrata. Mas tenho, sobretudo, tentado ser uma pessoa melhor por mim, minha esposa e minha filha.