20.8.09

Peça: 56. Uma Memória do Futuro Antigo

mateus, 9:29.

– então ele tocou-lhes nos olhos, dizendo: seja-vos feito segundo vossa fé.


ao fim da tarde, displicência de sol-posto, minha avó olhava o tempo e pregava:

“relampejando...”

lacônica, não era a mim que falava, mas a si mesma. continuava:

“bonito. daqui uns dias, vai chover...”

e eu pensava na beleza de um dia de chuva, na beleza maior de um dia de chuva. eu acreditava.depois de uns dias, às vezes dois ou três, outras vezes duzentos ou trezentos, chovia. sob o sorriso de minha avó, lacônica, dizendo:

“eu sabia...”

minha fé nunca precisou de mais que isso.

22 comentários:

Moacy Cirne disse...

E precisaria mais?
Nossos avós eram sábios por natureza...

Um abraço.

Theo G. Alves disse...

moacy,
isso é bem verdade.

eu tento carregar a tradição, fazer esse jogo de adivinhanças. mas meus poderes são curtos, eu sei. tento, porém.

grande abraço!

célia musilli disse...

Dia destes eu falava aqui em casa como as pessoas, antigamente, sabiam fazer previsão do tempo olhando o céu, simplesmente..Não havia serviço de meteorologia, minha mãe olha a o pôr-do-sol e dizia: "Vai ter seca"...Profetizava se a chuva ia parar ou continuar na "mudança da lua". Meus filhos riram, incrédulos, filhos da ciência, não conseguem entender a intuição, a sensibilidade pela observação...esta característica de quem viveu muita mais próximo da natureza.Mais que isso, também sendo parte dela...parte íntima. Um beijo!!! Seu texto me fez viajar no tempo...

Theo G. Alves disse...

célia,
então você conhece bem sobre o que digo. e a sensação é mesmo essa. e você tem razão: isso é provavelmente a proximidade da natureza, ser parte dela.

beijo bem grande!

Arthur Dantas disse...

lembra minha avó, é desse mesmo jeito!

Arthur Dantas disse...

minha avó é desse mesmo jeitinho!

Mut disse...

E se ao mesmo tempo chovia em Currais Novos , é capaz de meus olhos chorarem com tal genialidade. (caro leitor , perdoai a pieguice).

Tava com saudades da tua escrita , mestre!

Abração!

Theo G. Alves disse...

arthur,
as avós seridoenses têm muito em comum.
:)

Theo G. Alves disse...

mut, meu velho,
eu estava com saudades de você por aqui.
esse velho museu é melhor quando você aparece.

grande abraço, maninho!

marcos pardim disse...

para quem é sábio(a), sabedoria não se conta em dias próximoa ou distantes... abraço

Claudinha ੴ disse...

Theo!
A sabedoria de nossos avós e pais vem da grande capacidade de observação da natureza. Lembro de perguntar ao meu avô se choveria naquele dia ou não, e ele sempre acertava! Nós, pobres mortais modernos perdemos esta capacidade, porque nos enfurnamos em salas e nas telinhas e esquecemos do mundo que nos cerca. Eu caminho todo dia (que não chove) pelas montanhas e aprendi a ver quando a chuva chega aqui ou não. Meu marido (criado em fazenda) me ensina estas coisas, que aprendeu com seu pai.
Linda a sua lembrança!
Um beijo!

Theo G. Alves disse...

pardim,
você tem toda razão. como sempre.

um grande abraço, meu caro!

Theo G. Alves disse...

claudinha,
parece mesmo que nos tornamos prisioneiros de nossa própria liberdade, de nossas invenções. nos distanciamos da vida, das coisas simples.
é uma pena.
beijo grande!

Cláudia Magalhães disse...

Nossa que delícia conhecer o teu blog! Que maravilha os teus textos!

Parabéns, Theo! Voltarei, sempre!

Abraço,
Cláudia.

Theo G. Alves disse...

cláudia,
seja bem vinda! eu fico muito grato pela generosidade de sua leitura.

a casa está sempre aberta!

abraço!
até breve!

Theo G. Alves disse...

cláudia,
seja bem vinda! eu fico muito grato pela generosidade de sua leitura.

a casa está sempre aberta!

abraço!
até breve!

Marco disse...

Fala, grande Theo!
As avós não erram. Mesmo que levasse um século para chover, ela já havia previsto a chuva, então...
Carpe diem. Aproveite o dia e a vida.

Mulher na Janela disse...

sabedoria posta a fogo sob a chuva que sempre vem...

beijocas nessa família!

Theo G. Alves disse...

marco, meu caro,
é exatamente isso. as avós decretam.

grande abraço!

Theo G. Alves disse...

iara,
nunca falhava mesmo. até hoje não falha.

beijo em vocês!

Mara faturi disse...

Lendo você, senti uma saudade de minha avó que já partiu..ela me ensinou a advinhar a chuva no céu;0)
Grande abraço!

Theo G. Alves disse...

mara,
lembrar as avós é fundamental. uma maneira de estar feliz. fico contente em ter ajudado nisso.

grande abraço!