5.2.09

Peça: 43. As Tardes de Futebol

Os onze soldados de armadura listrada invadiam o campo de lutas, o gramado sofrido das batalhas. Carregavam nos pés suas armas lustradas, de um negro indefectível, de uma precisão inequívoca. Nós, espectadores do combate, recebíamos nossos soldados sob aplausos calorosos e nossos inimigos, sob vaias desconcertantes. Éramos poucas dezenas, menos de uma centena, por certo. Mas ninguém era mais fiel que nós.

Nos tempos de minha infância, era assim que via o Portyguar entrar em campo, impávido. Era assim que eu via a camisa imponente de Valderi, com seus gols de cabeça, com sua habilidade incomum. O mesmo Valderi que eu via bater bola com os meninos de uma rua próxima da minha. Era assim que eu via a rebeldia cerebral e etílica do jovem Paulinelly, melhor que Sócrates, que Mário Sérgio, afogado em garrafas de cachaça. Era assim que eu via Ossada sob as traves, certamente o maior goleiro de todos os tempos: maior que Yashin, Dassaev, Taffarel ou Barbosa. Ossada, que vestia negro no campo de guerra, a cor do algoz sem misericórdia debaixo dos postes, e que hoje atende pelo nome burocrático de Givanildo e trabalha medindo terras para a prefeitura: a inglória recompensa dos heróis vivos após o combate.


O tempo e o olhar de quem cura a febre com banho gelado tiraram de mim a inocência que o futebol me oferecia nos tempos de criança. As tardes de domingo passadas no estádio Coronel José Bezerra – que triste nome para um campo de alegrias e batalhas honestas – não se repetirão, jamais terão o mesmo fervor, a mesma alegria. Hoje a crônica futebolística me atrai muito mais que o esporte, para minha tristeza. Gostava da época em que se dizia “jogo de bola”, não “esporte”. A alegria irresponsável daqueles rapazes que punham em campo a miudeza de seus destinos, a alegria de suas infâncias sem peso.


Meus amigos e eu brincávamos na rua, jogávamos nos nossos campos de terra a magia de nossos heróis. Eu, um cruel tratante da bola, era designado para as metas. E que lições de sofrimento e redenção pude tirar daquela área inglória do campo! Não éramos jogadores milionários, não vestíamos camisas de longe, não queríamos as seleções burocráticas: queríamos repetir as tardes fervorosas de Potyguar e Cruzeiro, um clássico currais-novense infinitamente maior que os Fla-flus de Nelson Rodrigues, que os Corinthians-Palmeiras de Alberto Helena, que os Gre-nais de Eduardo Bueno.


Quem nunca viu uma peleja de guerra e sorte numa tarde perdida no tempo, sob o sol currais-novense do estádio Coronel José Bezerra, não sabe o que é o futebol por inteiro. Quem não viu Belarmino suceder Ossada na crueldade das traves, quem não viu a aposentadoria ainda em campo de Valderi, quem não assistiu aos longos zero-a-zeros de nossas jornadas futebolísticas não compreenderá jamais este relato. Ou compreenderá, dada a glória da camisa do Leão do Seridó? Tem de compreender.


Hoje não ouso mais ir ao estádio. Abandonei a visão privilegiada ao lado das cabines de rádio, abandonei o cheiro de éter que ascendia dos vestiários no intervalo das contendas, abandonei a alegria daquelas tardes lançadas nos álbuns de fotografia de minha memória claudicante. É minha despedida do campo, das arquibancadas, saudosa despedida.


Minha infância e memória me presentearam com as mais lindas pelejas que o futebol já testemunhou. O futebol e nossa dezena de torcedores, fiéis, nas arquibancadas dos anos 80 e começo dos 90. Agora o árbitro pode erguer a mão e apontá-la para o meio de campo: a partida está encerrada e o futebol foi quem perdeu.

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A foto do Estádio Cel. José Bezerra em dia de Potyguar
é do blogue www.escretedeouro.blogspot.com

23 comentários:

Moacy Cirne disse...

Uma bela crônica, meu caro, sobre a magia de um tempo privilegiado de seu particular tempo ligado ao futebol. Já para mim, confesso, a magia cotinua, pelo menos quando vou ao velho e querido Maracanã. Um abraço.

O Marquês de Pindorama disse...

Theo!

Vivi momentos de frustração por não ter ido ao lançamento de teu livro.
Quero comprar um, como faço??

Que bom que você tem um blog.
Posso acompanhá-lo?

Ah, sim... temos de nos encontrar.
Espero que tenhas gostado do meu.
È simples, fiz há pouco tempo, mas aos pouco vai se revelando.

Ainda não parece, mas é um blog sobre política, contada através de fábulas e parábolas. Com o tempo as pessoas poderão perceber semelhanças com o mundo "real".

Maria Maria disse...

Excelente texto de memórias!!!!

Quanto aos livros, continuo no mesmo lugar, cavalheiro e autor da triste figura.
Beijos,

Ms Eme

Thiago Leite disse...

Nunca tive grande interesse em futebol. Mas compreendo alguns dos seus aspectos que atraem plateias.

Há algum tempo comecei a perceber o futebol, bem como vários outros esportes competitivos, como simulações de guerras. Exatamente como você bem descreveu na metáfora dos soldados, dos uniformes e das armas. Uma reminiscência dos coliseus, que são por sua vez palcos onde se simulam batalhas.

Além disso, as partidas de futebol, enquanto ritos, são um meio de atualizar mitos. Um time é um grupo de avatares de um panteão, sacerdotes que celebram uma luta mítica. Um amigo meu certa vez argumentou que o fenômeno religioso, em seu aspecto religacional, pode ser verificado numa partida de futebol, notadamente na torcida.

Não à toa ainda sobrevive esse tipo de instituição social.

Theo G. Alves disse...

Moacy, meu caro, muito obrigado pela generosidade. algumas coisas foram me obrigando a perder um pouco do encanto com o mundo da bola. mas confesso: sinto falta.

grande abraço!

Theo G. Alves disse...

Otávio, meu velho,
fique frustrado com essas coisas não! seria ótimo ter te encontrado por lá, mas já estamos nos organizando aqui pra conseguir reunir você e sua família e a família Perigo por aqui. temos muito a conversar.

Do livro, acho que eles estão à venda na Siciliano e nas outras livrarias daí de Natal.

do blogue, seria uma honra tê-lo como leitor. e eu, sem pedir licença, vou acompanhar o universo de Pindorama e deixar um link pra lá nestas terras do museu.

Um grande abraço!

Theo G. Alves disse...

Miss Eme,

muito obrigado. E vou no fim de semana ao seu castelo particular deixar os livros.

Beijo

Theo G. Alves disse...

Thiago concordamos em muito a respeito dos símbolos que o esporte guarda: e acho que o espírito "primitivo" de guerra é ainda mais presente em esportes interessantes como o rúgbi e o futebol americano, em que a conquista de território é mais evidente e obedece à formações bélicas.

Grande abraço!

Thiago Leite disse...

Não à toa, o rúgbi, irmão do soccer, guarda mais elementos de sua forma primitiva, desenvolvida na Grã-Bretanha, do que o futebol sem elmo e sem ombreiras.

Marco disse...

Que beleza de texto, Theo... Ah, os tempos românticos do futebol! Que biografias tristes, mas épicas se escondiam à sombra das chuteiras imortais!
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.

Arthur Dantas disse...

belissima crônica... não sou muito chegado ao futebol... não nasci nessa época de vislumbre onde era costume pais e filhos apreciarem um bom "bate bola", mas aprecio belos sentimentos e melhor ainda belas palavras... parabéns pelo texto... volto mais vezes para acompanhar seu blog... e te parabenizo pela publicação de seu livro na editora Flor de Sal...

adelaide amorim disse...

Oi, Theo! Saudade de seus textos, pouco tempo pra ler os amigos, mas sempre se dá um jeito. Linda sua crônica, embora futebol não seja o meu forte :)
Parabéns pelo livro!
Beijo e sucesso.

Theo G. Alves disse...

Thiago, é bem verdade sobre o rúgbi. e confesso: gosto daquela disputa de força e estratégia. devo ter algum traço ancestral bélico :)

abraço!

Theo G. Alves disse...

Marco,
isso é muito verdadeiro. as histórias dos atletas, sem os grandes "assessores de imagem", eram bem mais interessantes.

Abraço!!

Theo G. Alves disse...

Arthur,
fico muito grato por suas apreciações... eu já nasci numa época sem tantos heróis (1980), mas ainda havia boas histórias. ainda devem existir, mas já não as acompanho tão de perto.

fico feliz também em saber que você é de Acari, cidade que gosto tanto e onde tenho tão bons amigos.

Um abraço!

Theo G. Alves disse...

Adade,

que bom encontrá-la aqui de novo... eu sei como são essas coisas do tempo: sou um bocado escravo dele... saudade de você e muito obrigado pelos votos.

beijão!

marcos pardim disse...

theo, meu bom camarada, aqui tocas em um assunto que me é bastante sensível. o futebol ajudou, e muito, a construir o que restou eu ser. sou de 1963, o que implica dizer ter começado a me relacionar com o futebol quando ainda haviam jogadores, times e torcedores. por desvario de uma cigana, em infância e adolescência julguei ser ele o meu caminho. não foi. como não deveria mesmo ter sido. hoje, meu filho pedro, goleiro, 11 anos, salta e pula tentando defender e tornar instransponível a sua baliza. vou, acompanho, torço, mas há algo que não enxergo mais no futebol. talvez ainda exista, e eu é que ceguei. ou talvez, não existam mesmo mais jogadores, times e torcedores. outra tríade tenha se formado, e eu não me dei conta, ou, se dei, não me apaixonei por ela. grande abraço e belo texto.

Theo G. Alves disse...

pardim,
sei como são essas coisas: boa parte de meus valores morais foram aprendidos a aprtir do exemplo da disputa artística e bélica que o esporte representa.
talvez haja mesmo alguma magia que eu compreenda pouco, algum encantamento que minha rabugice empurrou pra debaixo do tapete. mas não queria que fosse assim, creio que você também não. no entanto, assim o é.
um grande abraço e muito obrigado!

Bosco Sobreira disse...

Bela crônica, meu caro Theo. Gosto muito de seu estilo. Bom te ler.
Um abraço.

Theo G. Alves disse...

Bosco,
fico grato e honrado por ter um leitor de tão alta conta.
Um grande abraço!

Theo G. Alves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
CASSILDO SOUZA disse...

Você é nosso Armando Nogueira. Ou melhor, você é nosso Théo, melhor do que Armando Nogueira, Arnaldo Jabor, Pedro Bial e afins. Porque você é Théo, não precisa compará-lo a ninguém para percebermos o poder de regressão que você nos proporcionou. O futebol é mágico, assim como aqueles que ousam descrever a sua magia, que é o seu caso.

Theo G. Alves disse...

eita, cassildo!

tô com essa moral toda não, rapaz. melhor que meu texto é a generosidade de meus leitores.

voce conheceu bem esse potyguar... um grande abraço!