7.1.09

Discutindo a Reforma Ortográfica da Língua Portuguesa

É verdade que as coisas mudam e que não é possível parar no tempo sem ser atropelado pelo caminhão das horas. A língua é, por natureza, um construto humano, uma ferramenta de comunicação social e por isso fadada a mudar continuamente. Dessa forma, querer barrar as mudanças de uma língua – dentro de si mesma e a partir de suas várias linguagens possíveis – é sempre uma tentativa vã.

Outra verdade indiscutível é que a língua muda primeiro na boca de seus falantes, que é dinâmica, viva e instável. A língua escrita é imóvel, um latifúndio, ainda que produtivo. Na modalidade escrita as mudanças são lentas, muito lentas, embora sejam cada vez mais freqüentes. Seria absurdo escrever hoje uma carta para um amigo distante como Caminha escreveu para El-Rei. Escrever uma carta nestes tempos de e-mails, messengers e celulares já parece por si só um absurdo. É por isso que as mudanças que a língua sofre na rua, em casa, nos bares, nas escolas, etc., chegam muito tardiamente aos documentos escritos. Em verdade, são sempre inovações velhas.

Foi dado início ao processo de padronização da escrita em todos os países de expressão portuguesa: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor Leste e São Tomé e Príncipe. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, nome oficial do documento, começou a ser discutido ainda em 1990 e só agora recebeu anuência por parte dos integrantes do pequeno grupo de lusófonos (com o perdão da má palavra) mundo afora. Esta mudança é menos radical e traumática que outras, como a de 1971, no entanto o acesso às mídias e a discussão do tema parecem ter ampliado a repercussão dos fatos.

Segundo as estatistícas divulgadas pela Folha de São Paulo, as alterações não devem atingir mais que 2% do vocabulário da língua portuguesa, no entanto há mudanças que poderão ser sentidas de forma muito direta, como nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas (“assembléia” e “panacéia”, por exemplo, passarão a ser “assembleia” e “panaceia”). Há também a oficialização de mudanças que já ocorreram na escrita do dia-a-dia, caso da abolição oficial do trema (o que não quer dizer que quem comeu “lingüiça” a vida inteira vá precisar mudar a maneira de falar ao pedir o prato numa churrascaria).

Um dos pontos a serem discutidos sobre a reforma é sua utilidade, bem como sua necessidade. O argumento – para não chamar de desculpa – para justificar a mudança é que a uniformização da língua permitirá uma troca de informações maior entre os países que falam português. Mas não há quem me faça crer que o fluxo de informações aumentará porque, tanto brasileiros quanto portugueses, por exemplo, terão um mesmo “objetivo”, em vez de um deles ter um “objectivo” próprio. Para mim, a desculpa é fraca.

Imagina-se que as mudanças precisem de pelo menos mais dois anos para serem absorvidas pelo mercado editorial, mas na prática algumas delas já estão em uso, outras jamais estarão. E, podem ter certeza, a língua pode ser a mesma, mas a linguagem jamais será: brasileiros, portugueses, angolanos, cabo-verdianos, etc., têm cada um sua própria lógica, sua maneira peculiar de pensar e arrumar a língua. E não há reforma que ponha abaixo a diversidade cultural.

14 comentários:

marcos pardim disse...

theo, meu querido e bom amigo virtual, que saudável augúrio este de te reencontrar por aqui. li teus dois últimos posts. sobre o músico, nada a declarar, pois não o conheço, mas creio firmemente que, se de vc mereceu citação e emoção, deve mesmo ser bom. já sobre a reforma ortográfica, ela se inclui no rol daquelas coisas que bocejadamente dedico atenção. nestas, e em algumas outras horas, me ponho a cantarolar uma velha canção que diz assim "passei do ponto de querer voltar dessa bárbara viagem / (....) bobagens, meu filho, bobagens...". abraço meu velho.

Theo G. Alves disse...

pardim,

bom reencontrá-lo neste velho museu empoeirado... estou de volta aos poucos, à medida do possível...

tenho passado pelas suas caraminholas, silenciosamente, vez em quando. é lugar dos melhores.

um grande abraço!

Maria Maria disse...

Ah!!!!!!!! Finalmente você apareceu no museu!!! Saudade.
Obrigada pela visita ao espartilho e concordo em todos os idiomas com esse texto sobre a Língua. Agora, se não paramos para pôr as coisas em ordem, restaremos todos numa Torre de Babel. Beijos

Mulher na Janela disse...

esse menino voltou tão intelectual...affi!

adorei a visita de domingo.. espero que se repita trilhões de vezes... tricotar é tão bom!!!

beijos em larissa e no baby!

Theo G. Alves disse...

xiii... que nesse negócio de intelectualidade eu sou o fraco do fraco do mais ou menos...


oxalá há de se repetir muitas vezes mesmo!

beijo bem grande pra você, wescley e iago!

CASSILDO SOUZA disse...

Não é à toa que publiquei este artigo também em meu blog. O Théo é sempre muito centrado e comedido, por isso seus escritos são coerentes. É um prazer tê-lo como colega de profissão e como amigo. um grande abraço. Este espaço precisaca realmente ser revigorado.

Theo G. Alves disse...

cassildo,

a generosidade dos amigos é coisa por demais estimada.

agradeço a bondade para com as palavras deste teu velho amigo e colega de ofício.

um grande abraço!

Mariana disse...

Theo, seu blog também é muito bom.
sua poesia é linda.

te linkando, posso?

Theo G. Alves disse...

Miss Eme,

espero conseguir manter o museu aberto, apesar da rotina massacrante de trabalho após as férias. obrigado por sua visita.

beijo!

Theo G. Alves disse...

Mariana,

obrigado por sua gentileza. apareça sempre, sua palavra é ótima e isso faz bem.

fico honrado pelo link.

:)

Moacy Cirne disse...

Espero que não haja mais maiores interrupções no seu Museu, caro amigo. Aliás, acabei de incluí-lo na Feira de Blogues do Balaio. Ah, estou sabendo, através do Adriano de Sousa, que há um livro seu zsaindo do forno. Que bom! Abraços.

Theo G. Alves disse...

Moacy, meu bom amigo, a culpa desses lapsos no Museu é toda minha. vida corrida e trabalhos que exigem viagens, privam da internet, e sobretudo, impedem a produção. mas tenho de me organizar: esse ano há muita coisa nova para lidar.

e sobre o livro é verdade: Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis, saindo pela Flor do Sal. Assim que tiver data, horário e local confirmados, vou enviar uns convites.

um grande abraço, moacy!!

Sônia Marini disse...

Caro Theo, é bom tê-lo de volta.
Sobre a reforma ortográfica (utilidade/necessidade), só mesmo interesses outros para justificar, não?
Abraços

Theo G. Alves disse...

Sônia,
bom mesmo é vê-la de novo por aqui. e da reforma, é verdade: outros fins (não) justificam esses meios.

abraços!!